30 junho 2011

A próxima crise: o que dizem os sinais

Uma nova crise financeira de dimensões globais?

E porque não?

Nem será a última, eventualmente.

Podemos não gostar dos profetas de desgraças (eu não gosto), mas neste caso temos que observar os factos.

O mundo está numa espiral. Ou labirinto, se o Leitor preferir. Em qualquer caso, a palavra-chave é "dívida".

Com o "livre" comércio (que tão livre não é) e a globalização (o "Capitalismo Parasitário" das últimas décadas) os Estados têm cedido o poder de criar dinheiro ao capital financeiro. Bancos privados, em bom Português.

Quase todos os Países desenvolvidos estão endividados com o sistema financeiro. No Terceiro Mundo perguntam: "Então?". Pois para eles é uma situação absolutamente normal. Mas para os Países "avançados" não é.


As dívidas foram criadas por várias razões, não última salvar bancos e empresas privadas à beira do crack; depois, para financiar as despesas essenciais (infra-estruturas, serviços, salários públicos) e ilegítimas (os custos da corrupção e da evasão fiscal), ambas armas inúteis e perigosas normalmente utilizadas pela política.(as grandes obras, os grandes eventos, colectar votos com o consenso).

E não podemos esquecer o peso do aparato bélico.

Impasse

Por exemplo, grande parte da dívida da Grécia é devida aos custos (sem o retorno adequado) para as Olimpíadas de Atenas e para a compra (França e Alemanha) de armas de defesa contra a Turquia.

Mas Grécia e Turquia não são ambos Países da Nato?
Pois são. Então? São dois Países aliados que estão a armar-se um contra o outro, comprando as mesmas armas dos mesmos fornecedores (sempre França e Alemanha). Qual o problema?

Os Estados têm dívidas enormes e não podem criar mais dinheiro.
Em parte porque eles mesmos proibiram esta prática com leis nacionais ou acordos internacionais.
Em parte porque criar dinheiro é uma faca com dois gumes. E ao longo dos anos foi mais fácil criar dívidas de que impor novas taxas (os votos, as eleições!) ou imprimir novas notas.

O Estados têm tentado evitar o que agora está a mata-los: novos impostos, maior inflação. Este é o futuro imediato.

Mesmo que os Países europeus, por exemplo, pudessem abandonar o Euro, nesta altura da temporada provavelmente seria inútil: isso não evitaria novas taxas, uma redução dos serviços.

Seria isso compensado com uma maior competitividade (isso é: mais exportações)? Seria possível aumentar desta forma as receitas, pagar a dívida, empurrar a economia nacional e manter o nível de vida actual?
Dúvidas, muitas dúvidas.
Dúvidas e dívidas.

Doutro lado, permanecer no Euro significa agora novas taxas, redução dos serviços, do nível de vida, etc.etc. Em poucas palavras: estrangular o mercado nacional e, consequentemente, o País.
É um beco sem saída.

Se o problema fosse apenas da Grécia, seria o mal menor. É um País pequeno, com uma economia pequena, seria possível encontrar uma solução. Financiamento europeu e sirtaki para todos.

Mas há mais além de Atenas.

Há a Irlanda. Há Portugal. Ambos já falidos.
Há a Espanha, que não está nada bem.
Italia e Bélgica têm graves problemas.
Nem a França pode ficar descansada.

E doutro lado do Atlântico temos os Estados Unidos. Cujos problemas são gravíssimos: criaram moedas a partir do nada (Quantitative Easing 1 e 2), com efeitos nulos. Já não podem realisticamente pensar num QE 3 sem aceitar riscos particularmente elevados e potencialmente fatais (não apenas do ponto de vista económico).

Também manter a taxa de juro artificialmente baixa (isso é: tornar o dinheiro mais barato para as empresas e os investidores) não resultou.
E a dívida pública dobrou.

Depois há as revoltas da África do Norte e do Médio Oriente.
É justo falar de custos humanos nestes casos, mas num artigo com sabor económico porque não pensar nas consequências nos mercados? Porque há e haverá custos neste sentido também. Quem pagará a dívida do Egipto? Da Líbia? Da Síria? Do Yemen?

Depois da crise

Os Estados não mandam na própria política económica ou financeira, já sabemos disso. Mas até a "finança criativa" tem cada vez mais problemas. Wall Street pode oferecer lucros no curto prazo, mas não tem soluções.

A crise começada em 2008 ainda não acabou e já do outro lado do Atlântico chegam sinais preocupantes: confiança dos consumidores em queda, PIB com crescimento zero (pois, o eterno crescimento), desemprego que não baixa, inflação que aumenta.

E enquanto os bancos e os investidores continuam a jogar com pedaços de papel, a economia real afunda.
Nada foi feito ao longo destes três anos de crise. E a crise agora volta para apresentar a conta, outra vez.

É possível evitar a nova recessão?
Não. Claro, alguém pode sempre aparecer com uma solução "milagrosa" (duradoura?) de última hora; mas caso contrário a estrada parece marcada.

Não vale a pena pensar na próxima crise, que já está marcada (segunda parte do ano? Começo 2012?).
Pensamos naquela a seguir.
Pensamos na prevenção.

A única solução é uma mudança de rumo. O que passa pela disciplina fiscal.
Não a disciplina fiscal da troika do Fundo Monetário Internacional, uma disciplina séria. Cortes no custo da política, corrupção, evasão fiscal, exploração financeira, máquina militar, as guerras contra os Países aos quais antes vendemos armas, algumas grandes obras (não todas!), a burocracia.

Esta, em verdade, não seria "a" solução, mas apenas uma maneira de melhorar um pouco a situação. Os males da nossa sociedade têm raízes muito mais profundas do que isso, podem ser encontradas atrás de termos quais "bancos", "grandes investidores", "irresponsabilidade financeira", "livre mercado", "desaparecimento da política em prol das corporações privadas" e outros ainda.

Mas por enquanto ficamos aqui, ficamos apenas nesta camada superficial.


Os custos da mudança 

Uma mudança de curso também exige novos gastos: na pesquisa, na educação, na manutenção das terras, na conversão das antigas fábricas sem mercado, na conversão de energia (desde fóssil para renovável), da agricultura e da fertilidade do solo.

Estas intervenções, apesar de não serem resolutivas como afirmado, prefiguram um programa desafiante, que implica uma quantidade enorme de recursos.
E de dinheiro.
Que não pode ser gerado com a dívida, óbvio.

Problema: onde está um programa deste?
Resposta: não há.

Por isso é preciso envolver o maior número de pessoas. Não para falar (até falamos demais), mas para projectar, planear. Cada um com a própria experiência, no lugar onde mora, vive e trabalha.

É preciso que os nossos governos gastem sim recursos, energia e dinheiro, mas não apenas para o presente, para o futuro também.

A Europa de amanhã não será a mesma Europa que conhecemos hoje.

A mesma coisa acontecerá nos Estados Unidos.

E no resto do Mundo? Há pessoas que podem seriamente pensar que o próprio País não será afectado quando as maiores economias ocidentais entrarão numa nova crise?

O que está em jogo não é a economia da Grécia. Nem da Europa ou dos Estados Unidos. É o modelo, que é sempre o mesmo, seguido por todos.

A crise está na próxima esquina.
Posso estar enganado, mas os dados são estes.
Cada Leitor pode desfrutar internet para procurar os dados macroeconómicos mais actualizados e ter assim uma ideia do futuro. 

Preocupação? Sim, legitima.
Mas mais do que isso: ficar bem acordados e começar a planear.

Porque uma crise nem sempre é coisa ruim: é sempre uma ocasião de mudança.


Ipse dixit.

3 comentários:

  1. Eh pá ó MAX... eu pensava que a dívida grega era devido aos 45 jardineiros para 4 arbustos!!!! ihihihih...
    Ainda hoje ouvi, infelizmente, um grande atrasado mental na SIC N a balbuciar umas tretas sobre o motivo da crise grega... e para este "jornalista" acefálico o motivo não era nada do que, muito bem aqui escreves-te, era sim as reformas aos 55/60 anos, e outras coisas deste género que já nem me recordo............ estes pontos todos são o tempo que demorei a procurar o vídeo e encontrei vê lá aqui... as verdadeiras razões da Crise Grega

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  2. Se o problema da grécia é esse, então aqui tb o é. Não devido a jardineiros, mas a devido aos tachos, ás fundações estatais onde os presidentes e vice ganham mais que o presidente da républica. Aos partidos que não são responabilizados pelos seus trabalhos etc. Na Grécia só havia dois partidos no poder aqui há quase dois ( CDS que me perdoe mas são uns caezinhos populares mandados ).

    Max uma pergunta onde isto vai acabar? Se estamos num ciclo que os grandes paises, a cultura ocidental se está a desfazer... quando é que isto vai parar???

    O Euro em vez de uma benção é um teia... que prendeu todos os seus estadso?

    Curiosidade: li hoje uma noticia que a Dinamarca esta a restabelecer os seus controlos fronteirixos. Porque??

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  3. maria3.7.11

    Taí uma coisa que eu gostaria muito que tu,Max, respondesses: o que o cidadão comum pode planejar para não ser liquidado com a socialização dos prejuízos financeiros pelos poderosos do mundo!! Tô falando daquele cidadão/cidadã comum, hoje na casa dos seus 60 anos, funcionário púlico jubilado, que investiu 30 ou mais anos da sua vida no serviço em instituições estatais, acreditando na futura tranquila pensão que lhe possibilitaria a realização do estado de bem estar social a nível individual. Este cidadão que hoje vê com desconfiança a continuidade da existência pura e simples da sua pensão, ou na melhor das hipóteses, a degradação da tal pensão, tendo em vista inflação por um lado e estagnação dos valores de pensão?
    Tu sugeres que esse cidadão faça o que? Arrume um novo emprego, ou um pequeno negócio para compensar as perdas quando a sua saúde foi desgastada nos 30 anos de cumprimento exemplar das suas funções? Aprenda a viver com muito pouco, coisa que sabe já bastante bem porque o cumprimento exemplar de suas funções nunca lhe permitiram realizar qualquer ato ilícito que lhe permitisse aumentar o salário? Aprenda a enganar, furtar etc, coisa que nunca soube ou desejou fazer em 60 anos de vida? Ou quem sabe, vire ativista e acredite que suas iniciativas de protesto vão de alguma forma alterar o estado das coisas? Como acredito que tu sejas capaz de pensar alternativas mais inteligentes que essas, te exponho a questão.

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