13 julho 2011

A Grande Depressão (Áudio)

E aqui estamos. Um artigo disponível em duas versões: escrita, o que não é grande novidade, áudio para os mais corajosos.
Em qualquer caso as palavras são a mesmas, pois desta vez outra coisa não fiz a não ser ler. Ou pensavam que ia aprender tudo de cor?

Boa leitura. Ou boa escuta.





Ao longo de alguns tempos houve uma idade de ouro.

São os números que falam: entre 1925 e 1929, as empresas americanas aumentaram de 183.900 para 206.700.
O índice de produção tinha passado, entre 1921 e Junho de 1929, de 67 para 126. No ano do crack, Detroit tinha produzido quase 5,4 milhões de carros.

Tinham nascido indústrias de electrodomésticos, com máquinas de lavar, geladeiras, rádios, etc. o que levou a produtividade industrial ao longo da década para 43%, mas com os salários que tinham aumentado apenas 20%.

Assim, a diferença entre o crescimento da produtividade e dos salários fazia engordar os lucros das empresas de todos os sectores, e, claro, fazia também aumentar de forma anormal o valor das ações na Bolsa de Valores.

A febre frenética desses títulos, em seguida, saiu do controle.

O crescimento sem pausas, a política do dinheiro fácil, a febre do lucro, acabou com o infectar todos, e jogar no mercado das acções tornou-se vulgar: escolhiam-se os títulos mais fortes, antecipava-se apenas 10% do valor (the Margin), tudo o resto era lucro.

Os Títulos cresciam, as pessoas acumulavam fortunas, todos estavam satisfeitos. Mas o desequilíbrio entre a produção e o consumo, bem como a insuficiência dos meios de pagamento (o Margin) não podia durar indefinidamente.

Cedo ou tarde alguém tinha que fechar os buracos.


O valor real das empresas já não correspondia ao valor dos "pedaços de papel" utilizados na Bolsa.
De verdadeiro havia apenas uma coisa: um enorme castelo de papel.

A grande empresa capitalizada 1.000 tinha na verdade 100; talvez produzisse, mas tinha os armazéns cheios de produtos não vendidos.

Pelo menos existia, tinha paredes, máquinas, mercadorias, enquanto alguns investigadores descobriram que nos subúrbios havia caves com uma máquina de escrever, um pouco de papel na mesa e um cartaz com escrito: Empresa XY - Exportação e Importação, com metade do mundo.
Muitos chamarizes, bem pouca substância.

O mundo dos negócios americanos, na década dos Vintes, havia recebido um grande número de impostores e vendedores de "banha de cobra", homens aos quais juntava-se a fragilidade das empresas: era suficiente os lucros diminuir um pouco para sacudir todo o prédio (o que acabou de acontecer, numa escala nem imaginada).

Outro sintoma era uma má distribuição dos rendimentos, concentrados num pequeno número de pessoas: um terço dos rendimentos eram apenas para 5% da população, e esta concentração significava que a economia dependia das decisões de poucos. Factor que também teria tido um peso nos acontecimentos sucessivos.

Esta situação anormal tinha começado no segundo semestre de 1924.


Sem limites

O índice era 134 e no final do ano tinha subido para 181. No final de 1927 já era 245.

Com estes resultados, em 1928 começou uma verdadeira orgia de especulação, uma "fuga em massa na fantasia".

Houve um outro incrível salto para a frente e no final de Agosto 1929 o índice atingiu 449 pontos.
Que é uma duplicação em pouco mais de um ano, enquanto o consumo diminuiu por causa dos salários demasiado baixos: desta forma, alguns sectores tinham um excedente de produção e armazéns cheios de não vendido.

Esta a situação no geral; mas mesmo assim algumas grandes empresas no mesmo período obtiveram resultados sensacional. O título da Radio (que nunca tinha pago um cêntimo de dividendo) passou de 85 para 420 dólares: 500%.de valorização. As lojas Ward de 117 para 440. O New York Times aumentou 86 pontos.

Em 1923, foram negociados 237 milhões de acções; em 1924, 280 milhões; em 1925, 452 milhões; em 1926, 449 milhões; em 1927, 577 milhões; em 1928, 920 milhões, e quase o mesmo nos primeiros seis meses de 1929: 827 milhões.

Ao longo de alguns tempos as fileiras dos milionários encheram dia após dia, e o estilo de vida dos novos ricos tornava-se cada vez mais bizarro. Investir dinheiro era quase um jogo.

Um jovem advogado contou:
Eu não tinha dinheiro, pedi emprestado algum dinheiro de amigos, e estava pronto para fazer o acordo usando a margem, ou seja, o sistema que lhe permite pagar apenas 10% do valor das ações adquiridas. Poucos meses depois, estava com um milhão de Dólares em dinheiro no bolso, sempre pronto para fazer outro negócio, ou comprar um carro só porque a noite anterior tinha perdido o barco para o regresso por causa do trabalho.

A mesma coisa fez o homem do elevador. Diz Stokes, um corretor:
Não queria apenas assistir, começou a comprar alguma acção da Rádio de manhã e vende-la à meio-dia: tinha comprado 100, vendia por 130. Então, um dia após o outro, crescia cada vez o lucro e em poucos meses tornou-se um milionário.

Depois havia a grande massa dos pequenos investidores (aposentados, donas de casa, estudantes, pessoas todos os níveis), que passava o dia no mercado das ações a seguir a tendência dos títulos. Em meados de Outubro, pelo menos um milhão e meio de Americanos possuía uma reserva de acções e outros 20 milhões tinham nas mãos alguns pacotes de investimento.

Em 22 de Outubro, Terça-feira, no início da sessão, alguém começou a perceber e um grupo de especuladores tinham iniciado a vender. A Federal Reserve decidiu intervir e, com a ajuda de alguns bancos, adquiriu, títulos na esperança de travar a descida.
Funcionou e o alarme pareceu ter cessado.

Mas na manhã seguinte, um número cada vez maior de investidores retomaram as vendas, na tentativa de transformar as acções em dinheiro líquido: uma corrida, com um ritmo alucinante enquanto os títulos continuavam a perder valor.
No final da sessão já alguns tinham entrado em falência, ma a notícia não passou para o exterior, pelo menos de forma oficial.
Todavia a voz tinha iniciado a espalhar-se, muitos não conseguiram dormir ao longo da noite, outros ficaram todo o tempo agarrados aos telefones.

O grande castelo de papel tinha começado a ruir.


24 de Outubro: a Quinta-feira negra

No dia seguinte, já antes da abertura, muitos já sabiam. Pela manhã, na frente da Bolsa reuniu-se uma grande multidão barulhenta.

As vozes agora corriam e falava-se em onze suicídios, o que aumentou ainda mais a tensão.
Cedo a tensão tornou-se pânico, por causa do medo de perder tudo, e do pânico ao caos o passo é curto.

Por volta da metade da manhã o ponto de não regresso tinha sido atingido e agora era só esperar o ponto do colapso. Que não tardou.

Na sala das contratações muitos operadores desmaiaram, outros abandonaram o edifício gritando como loucos enquanto lá fora, em Wall Street, a multidão estava a pressionar: pequenos especuladores que choravam e gritavam perante o desaparecimento dos patrimónios.

Só numa única ocasião houve silêncio, de repente: alguém no telhado do edifício estava a inclinar-se para fora. Um novo suicídio? Não, um carpinteiro que, intrigado com o barulho da rua, tinha decidido espreitar para ver o que se estava a passar.

Mas se a Quinta-feira tinha sido má, o pior ainda estava para chegar. Muitos economistas modernos indicam na seguinte Terça-feira, dia 29 de Outubro, o verdadeiro colapso da Bolsa de Valores.

Seja como for, todos concordam acerca dum ponto: entre os dias 24 e 29 a crise poderia ter sido travada, o colapso evitado. E todos apontam os banqueiros como culpados do crack.
Isso basicamente por causa da política do crédito fácil, dado que 8,5 mil milhões de Dólares foram emprestados aos especuladores, os quais compravam com a técnica do margin mas a seguir vendiam ao 100 por cento e a seguir compravam outra vez novas acções, sempre antecipando 10%.

Este dinheiro emprestado pelos bancos tinha juros muito elevados, mas os especuladores aceitavam pois também o lucro deles era extraordinariamente  alto: e havia sempre clientes dispostos a comprar.

Mas depois da manhã do dia 24, os grandes banqueiros começaram a ter medo, o perigo era de receber créditos incobráveis. Então decidiram intervir.


A primeira reunião: apenas uns vácuos

Nos escritórios da Morgan Company, número 25 de Wall Street, às 12 horas, reuniram-se os mais importantes banqueiros.

A imprensa ficou toda de fora, à espera: depois apareceu o comunicado de Lamon, que garantiu que os banqueiros tinham decidido intervir para equilibrar o mercado", cuja baixa era devida, segundo as explicações, a condições técnicas: "É apenas um vácuo que encontrou o mercado".

Mas ninguém disse com quanto capital os banqueiros queriam intervir para o resgate.
Havia apenas vozes: 20-30 milhões de Dólares, talvez 240 milhões.

Mas foi suficiente para que voltasse a confiança, sobretudo depois da mesma Morgan ter começado a comprar acções e animar assim a sala das contratações. A situação melhorou , mas no final do dia outras acções tinham encontrado "vácuos" no caminho.

No dia seguinte, um Sábado a Bolsa abriu até meio-dia com a notícias do New York Times que anunciava a decisões dos banqueiros como a solução para ultrapassar as dificuldades. Havia um clima de calma, mas calma dominada pela incerteza.

Segunda-feira, 28 de Outubro: a segunda reunião

Na reabertura da Bolsa, na Segunda -feira, a tempestade voltou em força.
Em poucas horas mais e nove milhões de acções ficaram à venda: o que levou a uma nova reunião dos banqueiros.

Mas desta vez o resgate não era o objectivo deles.

O comunicado de imprensa afirmou que "não era dever dos banqueiros apoiar os níveis dos preços" e que, no máximo, era possível que os bancos comprassem as acções "a qualquer nível de preço".

Na prática, os bancos aceitavam os títulos vendidos por preços irrisórios, mas recusaram outras intervenções. Exactamente o contrário de quanto afirmado poucos dias antes. Os banqueiros conheciam a situação, sabiam que o mercado estava "inchado" (hoje o termo utilizado seria "bolha") mas ainda não tinham entendido a gravidade da situação.

O comunicado, de facto, tinha como fim uma ulterior descida do valor das acções, de forma que os bancos pudessem adquiri-las por preços irrisórios e vende-las com grandes margens de lucro, uma vez passada a tempestade.

O plano funcionou, mas apenas em partes.


Terça-feira, 29 de Outubro: a catástrofe

No dia seguinte, Terça-feira, a Bolsa reabriu e as acções começaram a cair incessantemente: em poucas horas, alguns títulos não valiam mais do que o papel no qual eram imprimidas.

De manhã tinham sido lançadas no mercado 3,26 milhões de acções, às 12 o total era de 8 milhões, subiu para 12,6 milhões às 13,30; e na altura do fecho foi alcançado um novo recorde: 16.380.000 milhões que, somadas às acções dos dias anteriores, perfazia um impressionante total de 48.617.700 acções.

Os fundos de investimentos foram literalmente arruinados, mas também outras instituições ligadas ao mundo a finança tiveram que fechar na mesma altura.

E, em boa parte, por causa da atitude dos bancos.
Ao recusar uma intervenção no mercado, deixaram que o valor das acções tocasse valores mínimos, como vimos; mas também deixaram ao próprio destino milhões de pequenos e médio investidores que, de repente, perderam tudo.

As consequências foram desastrosas: foi o começo da Grande Depressão.


As teorias e os números

Nas décadas seguintes muitas foram as teorias utilizadas para explicar o acontecido. Alguns afirmam que sinais duma recessão já estavam presentes, antes do mês de Outubro, e que afinal as responsabilidades dos bancos foram limitadas.

É uma explicação esquisita, pois os bancos bem conheciam a situação. Aliás, ninguém como eles tinha "o pulso" do mercado: nunca repararam em algo de anómalo?

Porque afirmar que não de verdadeira crise era preciso falar mas apenas de "vácuos"?

Não havia apenas aventureiros no mundo da especulação sem limites: havia organizações de distribuição de grande porte, redes de lojas, entidades regionais, serviços públicos como água, gás, electricidade, transportes. Todos a ganhar dinheiro com uma facilidade impressionante, desfrutando acções cujo valor estava bem longe da realidade.

Além de investidores (estes números são controversos, variando de 5 a 20 milhões de pessoas) começou a reação em cadeia das falências de empresas financeiras, bancos, fundos de investimento, empresas comerciais e industriais, grandes e pequenos comerciantes, um massacre que durou vários anos.

Milhões de pessoas envolvidas pensaram que eram "coisas de ricos", não podiam supor que as suas vidas também teriam sido afectadas. Mas foi o que aconteceu.
Dentro de alguns meses a crise envolveu todos os sectores, com reduções de postos de trabalho, fecho repentino de bancos, fábricas, lojas e serviços essenciais. E com o mercado de ações em continua queda, com perdas particularmente significativas nos seguintes 06, 11, 12, 13 de Novembro.

No Outono de 1930 houve uma epidemia de falências.
Em Novembro, 256 bancos fecharam, arrastando depósitos de 180 milhões de Dólares; em Dezembro outros 352 bancos de prestígio com depósitos de 370 milhões; por fim, o maior, a Bank of Unites States de New York, com mais de 200 milhões de Dólares de poupanças que vaporizaram.

Em seguida, uma nova onda de falências na Primavera, quando a  crise americana encontrou a crise de alguns Países da Europa.

Os EUA tocaram o fundo da crise entre Dezembro de 1931 e Outubro de 1932. A produção atingiu o nível mais baixo (46 pontos, tendo ao considerar 100 o 1928), o mercado de ações foi reduzido para 1 / 6 em relação ao '29. O desemprego atingia 12.000.000 de pessoas com uma população de 122 milhões.

Ainda pior porque, como antecipado, a crise estava a atingir o Velho Continente também, embora não nestas proporções.

Alemanha e Áustria entraram em colapso, tal como o Reino Unido. Os outros Países europeus retiravam aas suas riquezas dos Estados Unidos e recusavam adquirir produtos americanos (caso da França, de Italia, da Suíça, da Bélgica, dos Países Baixos).


Neste panorama de terror, no dia 3 de Março de 1933, foi eleito o 32º Presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, descendente duma família que tinha acumulado uma grande fortuna graças ao comercio do opio.

Com Roosvelt chegou o New Dial. Em 1941 a Grande Depressão podia considerar-se concluída: graças ao New Dial ou "por culpa" do New Dial? A questão ainda está em aberto.

Mas entretanto tinha começado a Segunda Guerra Mundial: e esta é outra história.

Fonte: Intermarket and More

4 comentários:

  1. Anónimo13.7.11

    so uma pergunta ,

    afinal que ganha o lucra com esse sofrimento todo que acontece afinal , não as empresas ou corporações que são controladas por CEOs contratados , mais que está realmente por tras disso tudo ????

    ps: hahahaha seu sotaque e bem legal , um misto de italiano com portugues europeu.

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  2. Por que diabos a história está se repetindo??

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  3. É a lei do Eterno Retorno... ou então, o Homem não quer aprender com a História.

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  4. Não aprendem porque não sabem o que fazer nos diferentes ciclos económicos... Têm feito exactamente o oposto do que deve ser feito.

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