23 julho 2011

Nobel, fármacos e dinheiro

Nobel.
Um prémio que todos os actores gostariam de receber...não, aquele deve ser o outro, o Oscar.
Tentamos outra vez.

Nobel, um prémio que todos os cientistas gostariam de receber. Porque representa o máximo reconhecimento do mundo académico.
Talvez.

Vamos conhecer melhor esta que é uma das instituições mais famosas do mundo.


O filantropo explosivo

Alfred Nobel  (1833-1896)
Era uma vez, na Suécia, um homem chamado Alfred Nobel que, para matar o tempo nas longas noites geladas escandinavas, inventou a dinamite.

Com a dinamite, o bom Alfred conseguiu matar também o irmão, mas a descoberta forneceu ao autor a imortalidade (coisa que não pode ser dita para o irmão, evidentemente).

Atormentado por problemas de consciência ("Será que a minha invenção será desfrutada para finalidades bélicas?"), decidiu incluir no próprio testamento uma doação de 32 milhões de coroas para que, em cada Dezembro, fossem premiadas as personalidades que mais tinham conseguido prestar grandes serviços à Humanidade.

No ano seguinte decidiu morrer e pouco depois, em 1900, foi criada a Fundação Nobel, cuja primeira dúvida foi: e agora onde vamos arrumar estes 32 milhões de coroas? Estabelecido que as coroas afinal eram moedas, em 1901 começaram a ser entregues os prémios.


Um grupo de sábios costuma reunir-se em Estocolmo e, depois de ter sido subornados de longas avaliações e discussões científicas, decide quais os homens mais dignos de louvor.

Mas como funciona a Fundação Nobel? Com base em quê são decididos os Nobéis?

Para descobri-lo, vamos analisar a história duma aclamada cientista italiana.


Rita Levi Montalcini e o fármaco (quase) milagroso

Rita Levi Montalcini (1909)
Rita Levi Montalcini é uma senhora de origem hebraica com 174 anos de idade que costuma andar com um gato nevrótico enrolado na cabeça, a quem ela chama carinhosamente "o meu cabelo".

Em 1986 recebeu o Prémio Nobel por causa dos seus estudos acerca do factor de acrescimento da fibra nervosa, o NGF.

Que a Montalcini conseguisse identificar a estudar o NGF é coisa certa, não é isso que está em causa. O que levanta preocupação é a forma como foi decidido o Nobel.

Em 1975, Francesco Della Valle, gestor da Fidia, uma pequena empresa farmacêutica, obtém os direitos de exploração dum fármaco, o Cronassial, que tinha falhado todos os testes e que, em definitiva, não fazia nada a não ser provocar danos.

Mas a Fidia precisa dum medicamento para atacar o mercado farmacêutico e o Cronassial parece ter chegado na altura certa.

Problema: como convencer alguém a comprar um fármaco que não faz nada e que até pode resultar perigoso?
Resposta: com a ajuda dum cientista de renome.


3 Nobéis, alguns mortos

Della Valle contacta assim Rita Levi Montalcini, à qual entrega 50 milhões de Liras (em 1975 era um montante de todo o respeito).

A partir de então, a Montalcini trabalha nos laboratórios da Fidia e quando em 1986 recebe o Nobel, publicamente agradece a pequena empresa; e a Fidia, dum dia para outro, entra no Olimpo dos medicamentos.

De repente o Cronassial torna-se o fármaco mais vendido em Italia e exportado em todo o mundo: lógico, quem garante é nada menos do que a recém Prémio Nobel. Cúmplice uma agressiva campanha promocional, o Cronassial é receitado contra todos os males e a Fidia chega ao quarto lugar entre as casas produtoras de fármacos.

Além da Montalcini, também outros cientistas apoiam o Cronassial: é o caso dos americanos Carleton Gajdusek (Prémio Nobel da Medicina em 1976) e Julius Axelrod (Prémio Nobel da Medicina em 1970), ambos financiados pela Fidia.  

Todavia no estrangeiro reparam num pormenor esquisito: entre os pacientes que assumem Cronassial, muitos têm a antipática tendência em desenvolver a Síndrome de Guillan Barré, que mata um em cada 10 pessoas.
Em 1989 o Cronassial é banido da Alemanha, o ano seguinte é a vez do Reino Unido e em breve o mercado rejeita totalmente o produto. É o fim da Fidia.

Della Valle, que da empresa era o gestor (a propósito: nunca foi descoberto quais os verdadeiros donos da empresa: tudo acaba no segredo dum estúdio legal da Suíça), sai e cria uma nova estrutura, Lifegroup.
A Montalcini declara:
A saída de Della Valle da Fidia ameaça a sobrevivência da pesquisa científica.
E, dito isso, segue Della Valle na Lifegroup.


Metade e metade

Mas que tem tudo isso a ver com a Fundação Nobel?

Em 1993, o Director do Serviço Farmacêutico Nacional, Duilio Poggiolini, é preso e interrogado.

A acusação é pesada (corrupção: Poggiolini será condenado a sete anos de prisão) e ao longo dos interrogatórios conta uma história estranha: o Nobel da Montalcini seria o fruto dum "investimento" da Fidia, cerca de 7 milhões dos actuais Euros.

A coisa seria simples e o funcionamento o seguinte: dos 7 milhões, metade seria para o candidato para que este possa apresentar pesquisas e trabalhos adequados; metade para a Academia Real de Estocolmo, a mesma que analisa as candidaturas.

Mais pormenores? "Peçam a Della Valle", responde Poggiolini.

Mas os investigadores já têm outra confirmação: um outro gestor (também sucessivamente preso e condenado) duma casa farmacêutica confessa que estava prestes a"investir" 2 milhões dos actuais Euros com o mesmo objectivo: a Suécia.

Nesta altura a investigação deveria ultrapassar os confins e viajar até a Suécia. Mas as coisas ficam complicadas e a mesma investigação, lentamente, "desaparece".


Quem? Onde? Quando?

Uma entrevista de Chiara Baldassarri com Rita Levi Montalcini, ano 2004:
Chiara Baldassarri: O Cronassial [...] foi retirado do comércio após diversos mortos e quando ficou claro que podia provocar efeitos devastadores no fígado e nos músculos. A professora Rita Levi Montalcini colaborou com a empresa produtora.

Rita Levi Montalcini:  Claro, conheci o Cronassial na altura.

CB: E porque a experimentação deu resultados que depois não foram confirmados? 

RLM:  A quem? Onde e quando?

CB: Não foi posto em comércio e depois retirado por causa dos efeitos colaterais muito graves?  
 
RLM: Não me parece. Não comento coisas que não conheço. Não façam todas estas perguntas porque acho serem uma perda de tempo.

CB: Mas existem fármacos que foram experimentados nos animais e depois no homem com resultados completamente diferentes.

RLM: Não, não me parece! Eu acho que o experimento com o animal é válido, naturalmente com o controle. Desculpe, mas são perguntas das quais não gosto.

A dúvida: será apenas arteriosclerose?


Ipse dixit.

Fontes: Politica Molecolare, La Repubblica, Dmi. Universitá di Perugia

5 comentários:

  1. 174 anos amigo isso não é história?

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  2. maria23.7.11

    olá Max: sem considerar os 174 anos que a múmia (judia?) italiana até que representa e é o que menos importa, magnifico exemplo de nobel e, ao mesmo tempo ótimo episódio dos milhares que a indústria farmacêutica põe em funcionamento nos humanos depois ou concomitante de ter massacrado os animais.
    Obrigado pelo post!
    E, para dizer que não falei de flores, permite-me dizer para ti e mais 500 leitores teus como me livrei, parcialmente, é verdade, dos produtos dessas máfias de fabricar lucro financeiro, cujo nome genérico é designado por REMEDIO.
    Foi um aprendisado longo, com muitos testes em mim mesma. Não digam que é irresponsabilidade com meu corpo porque isso é o que a indústria dos remédios tentou inutilmente fazer comigo! Usar-me como cobaia, sem o meu consentimento, usando da minha boa fé!
    Sem entrar em detalhes históricos que dariam quase um livro, e resumindo a questão, tenho a dizer que estou com boa saúde depois de 60 e tantos anos, mas tive e tenho doenças que trato a base de boa comida, boa bebida, acupuntura, pilates, medicina antroposófica ( uma espécie de homeopatia, mal simplificando), trabalho físico e mental, boa dose de humor, terapia animal, se é que se pode chamar assim o convívio constante com animais de rua tornados "de casa" e, em casos muito agudos, pesquisa pessoal do princípio ativo que combate a doença, presente em chás, raízes etc ou até em produtos químicos que possam ser manipulados para ser ingeridos em cápsulas.É assim que vivo em meio a mata atlântica brasileira, sujeita a picadas de cobras, aranhas e de simples mas terríveis mosquitos borrachudos sem uso de repelentes e sem vacinas ou soros anti "tudo", controlo problemas ósseos e aticulares, sem cirurgias ou tratamentos médicos baseados em remédios da tradicional e sempre presente indústria farmacêutica. Só para constar, a cidadezinha mais próxima de onde moro tem 25.000 habitantes e 50 farmácias, todas com boa saúde financeira. Já a população...coitada!

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  3. Olá Maria,

    é muito bom saber isso. Desafio a si e ao Max para que possa expõr a sua história com mais detalhe e possamos tomar como exemplo.

    Entretanto, para quem não conhece: http://www.autohemoterapiaportugal.com/

    ...a autohemoterapia é um processo muito simples e barato de combater muitas doenças. Em breve irei marcar uma consulta para administração e poderei trazer notícias.

    Cumprimentos,
    -- --
    R. Saraiva

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  4. Acrescento mais isto da wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Auto-hemoterapia

    Como poderão ler, (como sempre) pode haver pressões de farmacêuticas por trás da na não aprovação e aceitação da terapia no mundo da medicina.

    "Pode haver" ?! Claro que há...qualquer pessoa com dois dedos de testa (e que leia ii) percebe isso...


    Grande abraço,
    -- --
    R. Saraiva

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  5. maria26.7.11

    Olá Saraiva: aceitando teu desafio, ai vai, não a história completa (daria muitos capítulos), mas um rápido lance, meu circunstancial encontro com o ESPECÌFICO. Faz uns 10 anos já, e o meu preconceito negativo com a medicina tradicional ocidental, a indústria farmacêutica e afins já ia alto, o que me permitia estar sempre alerta e aberta a quaisquer outras alternativas de manutenção de vida saudável. Fazia eu uma varredura visual em uma prateleira de loja de produtos agrícolas e veterinários e dei com uns vidrinhos de um tal líquido de nome "específico". Chamou-me atenção o local de fabricação: a cidadezinha próxima de onde moro, que curiosamente não tem fábrica de coisa nenhuma. Antes que eu perguntasse para que servia, o atendente apressa-se a dizer que esquecera na prateleira mas a "coisa" tava proibida de ser comercializada como antídoto para veneno em pessoas. Adoro coisas assim confusas, e comprei um frasco, bem barato, por sinal. Sem prazo de validade marcado no frasco, decidi guardar na geladeira. Alguns meses após um agricultor local, roçando um terreno próximo é picado por uma cobra coral, passa pela minha porta de casa correndo e pergunta afoito: - A senhora tem específico aí? A cobra era das grandes e venenosa! Lembrei, corri até a geladeira e o velho tomou um gole direto do vidro antes que eu dissesse qualquer coisa e saiu agradecido. Horas mais tarde fui ter com ele, perguntando se havia tomado providências contra a picada, já que estava ótimo. Ao que me respondeu: Tomei o específico e, como já tô urinando escuro, é prova que o veneno tá saindo e nem precisa ir no posto de saúde tomar soro.
    Ahhhh! Pois...Então é assim. E passei a generalizar o uso do precioso líquido para picadas em geral, e como excelente repelente, além de remédio para quaisquer conplicações urinárias, com sucesso em 100% das aplicações em mim, amigos gente e bichos. Meu grande problema é que o mágico vidrinho estava a chegar ao fim, e eu não encontrava mais vidrinhos. Pior que ninguem me dava a chave do segredo, ou seja, o local da suposta fábrica. Investiga de cá, investiga de lá, dei com uma médica acupumturista, formada na Alemanha, por sinal, doutora em medicina, com anos de pesquisa em fármacos obtidos da flora, que acabou por se fixar na cidadezinha. Eis que surge a minha pergunta do específico e fico sabendo que o orientador acadêmico dessa médica interessara-se por um produto fabricado por um cidadão alemão cuja família tivera amizade com um velho casal índio daqui da Mata Atlântica brasileira que, em forma de reconhecimento por favores prestados lhe passara a fórmula fito terápica de uma infusão de ervas capaz de substituir com pleno êxito o soro anti ofídico, além de ser eficaz contra toda sorte de picadas de animais peçonhentos, repelente de insetos e para doenças urinárias.O alemão daqui passou a fabricar o produto, distribuí-lo entre parentes e conhecidos e, como era formado no assunto, tentou comercializá-lo. Por mais que tentasse atender as exigências institucionais nunca logrou êxito. Os testes que lhe foram exigidos para ser aceito como remédio acabaram por ser tão caros que proibitivos. Só lhe restou fazer funcionar uma produção limitada a fins veterinários. Finalmente fui ao local da produção, conversei com os responsáveis, comprei a baixo custo um verdadeiro estoque de "guerra" do específico, obtive a confirmação da história bem como a informação que na Alemanha o produto é top de linha para a pesquisa farmacêutica. Aqui em casa também.
    Finalizo por hoje "causos" de como venho conseguindo driblar, ao longo da vida, essa indústria da morte, que, onde etou, tira de circulação aquilo que pode promover a cura e alimenta, através de remédios placebos ou até prejudiciais, a manutenção da doença.

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