14 julho 2011

A velha receita (Áudio)


Um pouco por toda a Europa surgem especialistas da crise. Pessoas que até 2008 louvavam o sistema económico-financeiro baseado no eterno crescimento e na dívida infinita e que agora, de repente, devem fazer as contas com a realidade.

As mais afectadas são sem dúvida as instituições que nas últimas décadas ensinaram aos estudantes como entrar no mundo encantado das Bolsas e sair com as carteiras bem recheadas.

Agora a ordem é outra: encontrar receitas para que tudo possa voltar tal como era antes, sem perceber que o novo "antes", em qualquer caso, teria vida curta, pois desta vez foram abaladas as fundamentas do sistema.

E um verdadeiro regresso não será possível.

Alguns especialistas da Universidade Bocconi di Milano, a mais conceituada em Italia na área económico-financeira, acabam de publicar uma espécie de Manifesto Neoliberista que é particularmente interessante, pois repete as mesmas receitas já vistas em outros Países, tais como Grécia, Irlanda e Portugal.

Não funcionaram na Grécia, em Portugal levarão o País à recessão, mas os neoliberistas continuam com a inabalável confiança de quem não entende a realidade.

Vamos ler alguns trechos.


[...] Existe assim apenas uma saída: atingir a paridade orçamental no prazo de um ano.[...] Alcançar a paridade significa uma correcção das contas públicas de 4% do PIB. Muito mais de quanto o Governo e a oposição pensem fazer. É lágrimas e sangue. Mas lágrimas e sangue serão bem maiores caso não haja uma acção já.

Uma manobra de 4% do Pib não pode ser baseada apenas nas entradas, pois mataria a economia num País onde a pressão fiscal já está entre a mais elevadas do Mundo.
Portanto, a manobra deve ser distribuídas em partes iguais entre entradas e reduções das despesas, em primeiro lugar as despesas da previdência.

Cortar os custos da política seria um sinal importante para todos: o mesmo aconteceria com os muitos subsídios para as empresas, quase sempre inúteis ou até prejudiciais.

Mas ambas as medidas não seriam suficientes. É preciso retomar as privatizações (Enel [energia eléctrica], Poste [correios], Rai [televisão], Finmeccanica [siderurgia], empresas municipais); também estes seriam mensagens importantes para os mercados [...].

Eu não frequentei a Bocconi, mas esta receita não parece ser tão original.
Porque afinal:
é o mesmo que aconteceu na Grécia, sem funcionar.
é o mesmo que está a acontecer em Portugal , e não funcionará.
é a mesma receita prevista pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional.

Uma receita simples:
1. as dívidas têm de ser pagas, sem adiamento
2. os Estados não têm dinheiro, os cidadãos sim.
3. os cidadãos pagam as dívidas com cortes nos salários, nas pensões, nos serviços, venda de património público.

É curioso porque antes existia um sistema económico chamado impropriamente Capitalismo, sem regras, onde bancos e investidores prosperavam; agora que o sistema entrou em crise, eis que são precisas regras para todos (ou quase), e estas regras podem ser resumidas na palavra "cortes".

Eu continuo com a minha ideia: perante uma falta de dinheiro, ou cortamos as despesas, ou aumentamos o trabalho.
Cortar as despesas pode parecer a estrada mais simples, mas tem um problema: quem gasta (nós) fica mais pobre e gasta cada vez menos. Porque cortar não cria riqueza:pelo contrário, reduz a riqueza.
A conclusão pode ser só uma: a recessão.

Trabalhar mais significa ganhar mais e poder gastar mais. Ao gastar mais, as empresas produzem a ganham mais. É exactamente o contrário.

Atenção, ninguém fala em aumentar os salários, o que levaria a uma subida da inflação. O tema aqui é o outro: não desviar o dinheiro dos bolsos dos cidadãos, de forma directa (com impostos ou cortes salariais) ou indirecta (com cortes nos serviços e venda de património).

A solução passa por renegociar a dívida: não dum País, mas de todos os Países com dificuldades. E não são poucos.
Não se trata de não pagar as próprias dívidas, mas de dizer: "Não tenho dinheiro, quero uma prorroga".

Ao mesmo tempo, cortar nas despesas da política (não são poucas), na fuga ao fisco, nas empresas inúteis do Estado (existem e não são poucas), nos gastos militares (mas quem ataca quem?), nas despesas acessórias (por exemplo: precisamos duma Taça do Mundo de futebol? Quais as receitas, quais os custos?); matar os custos da burocracia, que são enormes; e não seriam mal novas leis para prever tectos máximos nos salários públicos mas também privados (só públicos seria inútil e até contraproducente).

No sector público há pessoal há mais? Que seja utilizado para outros fins, não importa quais as qualificações, estamos a viver uma situação de crise que requer medidas extraordinárias, não podemos esconder-nos atrás dum pedaço de papel).

Repensar o subsidio de desemprego, que em Portugal tem critérios absurdos.

E, repito: renegociar a dívida. Este é um passo fundamental.

A ideia pela qual hoje estamos em crise porque nos anos passados fizemos a boa vida é uma mentira.

A dívida é um instrumento especulativo: com a dívida não conseguimos dinheiro "de graça", apenas dinheiro emprestado que é devolvido com juros, sempre.

O Estado ganha pelo facto de ter dinheiro que pode ser utilizado nas despesas correntes, mas quem empresta ganha com os juros (isso é, sem mexer um dedo).
Não há aqui favores de ninguém.

Em caso de dúvida, pensem nisso: a maior parte da dívida está nas mãos dos bancos. Este facto não sugere nada?

A única saída, sem sair dos moldes actuais, seria um crescimento sustentado pelo BCE e pelo FMI. Exactamente o contrário das medidas de austeridade. Austeridade que, como vimos, faliu na Grécia, na Irlanda; e que ainda antes tinha falido na Letónia e na América do Sul.

Há anos que é servida sempre a mesma receita e os resultados nunca mudam.

De quantas derrotas temos necessidades antes de perceber que a tactita adotada não funciona?


Ipse dixit.

Fonte: Il Sole 24 Ore

4 comentários:

  1. Incrível! Estive a ver o seu perfil e encontrei lá os quatro livros que mais gostei... o nome da rosa, cem anos de solidão, o senhor dos anéis e amor em tempo de cólera e como se não chegasse, o filme matrix e o filme o senhor dos anéis... falta o forrest gump... :) ele há coisas!

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  2. Se ainda não leu, leia a "sombra do vento" de Carlos Ruíz Zafón... vai ver como não consegue parar de ler e nunca mais se esquece.

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  3. http://www.editoras.com/objetiva/604-9.htm

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  4. Ual!!! Ualll!!!

    Obrigada Max!!

    auhsuahsua Que honra estar nos comunicados do Informação Incorrecta!

    Obrigada,obrigada mesmo. Fiquei muito feliz!!

    Post com áudio foi uma ideia muito boa! Max, adorei ouvir sua voz.

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