09 agosto 2011

Quando Obama fala...


Ontem o simpático Obama falou.

E era um discurso esperado após o downgrade de Standard And Poor's.
O Presidente não traiu as expectativas: quem estava à espera dum discurso em perfeito estilo Obama, isso é, genérico e recheado de boas intenções, não ficou desiludido. E os resultados estão à vista.

Mas vamos com ordem: antes o discurso.

O discurso de Obama

O nosso problema não é confiança no nosso crédito. 
(Tradução): O nosso problema é confiança no nosso crédito.

Os mercados continuam a reafirmar o nosso crédito como estando entre os mais seguros do mundo.
Acabei de ouvir o Primeiro Ministro do Canadá que, apesar do ataque de gargalhadas, conseguiu dizer que o nosso crédito é o melhor do mundo.

O nosso desafio é a necessidade de controlar o deficit a longo prazo. 
Não conseguimos controlar o deficit. 

Na semana passada chegámos a um acordo que fará cortes históricos na Defesa e na despesa interna. 
Até aceitámos todas as condições dos Republicanos, mas não há nada para fazer.

Contudo, não há muito mais que podemos cortar nas duas categorias.
Mas agora reparei que alguém entre vocês ainda tem alguns trocos guardados. 

O que temos de fazer agora é combinar estes cortes na despesas com dois passos adicionais: uma reforma fiscal que pedirá a quem pode que pague a sua quota-parte e ajustes moderados aos Programas de Segurança Social como a Medicare.
Por isso eis o meu plano: aumentamos os impostos e cortamos no serviço de saúde, que tal?


Proceder a estas reformas não exige decisões radicais, exige bom senso e compromisso.
Se alguém tiver algo em contrário, lembro que temos 20.000 soldados democraticamente prontos nas ruas. 

Não precisamos que uma agência de rating nos diga o que fazer
A nossa economia afunda, não é preciso que uma agência de rating explique isso, sou parvo mas não até este ponto. Acho.

A boa notícia é que os problemas podem ser rapidamente resolvidos e nós sabemos o que devemos fazer para os resolver
A boa notícia é que, logo encontrada a solução, vamos pôr remédio: se ainda não fizemos nada é porque não encontrámos a solução.

Os mercados vão continuar a subir e a cair. Mas somos os Estados Unidos.
Ainda não percebi porque os mercados continuam a subir e a cair, parece uma coisa bastante complicada. Mas uma coisa sei: os Estados Unidos continuam a descer. 

A resposta da Bolsa

E hoje eis a reacção dos mercados: afinal um discurso do Presidente é sempre um discurso do Presidente.
Diário de Notícias:
Wall Street fechou hoje com quebras superiores às que ocorreram na Ásia e na Europa. O índice Dow Jones caiu 634,76 pontos, a maior queda diária desde dezembro de 2008, durante a crise financeira do subprime.
Em termos percentuais, o crash bolsista foi de 5,55% no Dow Jones, 6,66% no S&P 500 e 6,9% no Nasdaq (o índice para as empresas tecnológicas). Comportamento similar, hoje, só o da bolsa de Atenas que caiu 6%.
Este crash em Wall Street era previsível depois da descida do rating da dívida americana, mas, durante o fim de semana, muitos analistas não o estimavam tão elevado e procuraram "desdramatizar" a situação.

Só para rir um bocado, eis o quadro geral das Bolsas:

Nasdaq (EUA): -6.90%
Dow Jones (EUA): -5.55%
Frankfurt (Alemanha): -5.02%
Paris (França): -4.68%
Londres (Reino Unido): -3.39
Lisboa (Portugal): -3.13%
Madrid (Espanha): -2.44%
Hong Kong (China): -2.82%
Milano (Italia): -2.30%
Tokio (Japão): -2.18

A situação pior é sem dúvida a dos Estados Unidos: além da Bolsa ter perdido muito terreno, há outros sinais pouco risonhos.

Um entre todos: Bank of America a pique (-20%). 

Pode não ser uma surpresa: este banco encheu-se de títulos tóxicos (só em 2008 adquiriu 4,1 biliões de Dólares de autêntico lixo da colapsada Countrywide Financial) e cedo ou tarde alguém apresenta a conta...mesmo assim, falamos do primeiro banco dos Estados Unidos.

Um segundo aspecto que é preciso considerar é o seguinte: este crash de Wall Street acontece na altura em que os lucros das empresas americanas alcançam os máximos. Algo não funciona no mecanismo, é evidente.

Começou uma nova crise?
Resposta: não, a crise de 2008 nunca tinha acabado. Resta perceber se estamos a entrar numa nova fase (como a segunda recessão duma crise em "W"), ou se há algo mais. É só esperar para ver. 

Coincidência

Uma coisa não é possível ignorar.

Standard And Poor's baixou o rating dos Estados Unidos ao fim duma semana extremamente negativa nas Bolsas de todo o mundo. Era óbvio que o downgrade provocasse uma ulterior queda em Wall Street e, de reflexo, nas outras Bolsas.

A agência poderia ter esperado algumas semanas (esperou demais até hoje, uma ou duas semanas que teriam mudado?), até as águas acalmarem.  Mas preferiu avançar e criar muito problemas em Washington.

Mas com certeza foi uma simples coincidência...


Ipse dixit.

Fonte: Diário de Notícias.

2 comentários:

  1. Como diria Wittgenstein, não existe filosofia, apenas problemas de linguagem. Como são espertos as pessoas que fazem os discursos de presidentes... Eles conseguem camuflar a fala para falar a mesma coisa sem o impacto. Parabéns ao nosso tradutor Max.

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  2. Anónimo9.8.11

    hahahaha
    Gostei da tradução!

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