25 outubro 2011

A crise dos burros

Uma história não nova.
Mas de vez em quando é bom lembrar certos assuntos.

Um homem de fato e gravata apareceu um dia numa aldeia. De pé, em cima duma velha caixa de fruta, gritou que teria adquirido por 100€ cada burro nas redondezas.

Os camponeses ficaram um pouco surpreendidos, mas o preço era bom e aqueles que aceitaram voltaram para casa com a carteira cheia de notas.

No dia seguinte o homem apareceu outra vez: desta vez oferecia 150€ por cada burro. Lógico, muitos camponeses correram a vender. E no dia a seguinte a oferta foi ainda melhor: 300€ por cada burro. Já eram poucos os burros não vendidos e, acabado o dia, anunciou que na semana a seguir teria pago 500€ em troca de cada animal.

Antes de partir, pegou nos burros adquiridos e entregou os animais ao sócio, com a ordem de vender cada burro em troca de 400€.


Os camponeses fizeram as contas e viram a possibilidade de lucrar 100€ por cada animal. Por isso, ao longo dos restantes dias, compraram os burros por 400€ cada, 4 vezes o preço ao qual tinham sido vendidos os primeiros animais. Por isso tiveram que pedir empréstimos ao banco, pois os camponeses não costumam ser ricos. Mas a operação compensava: afinal eram sempre 100€ de lucros por cada burro.

Uma vez vendidos todos os burros, o sócio deixou a aldeia e, obviamente, nenhum dos dois voltou mais. Tinham ficado com os ganhos e deixado os camponeses cheios de dívidas.

Os incautos tentaram vender os burros, mas o preço dos animais tinha caído e já todos estavam cheios de burros. Por isso o banco pediu à autoridade que os burros fossem apreendidos e alugados aos antigos proprietários para tentar cobrar as dívidas destes.

Mesmo assim, o bancqueiro foi até o Presidente da Câmara em lágrimas, explicando que caso não tivesse recuperado os fundos emprestados teria sido obrigado a exigir o reembolso dos empréstimos feitos à Câmara também.

Para evitar este desastre, o Presidente decidiu dar dinheiro ao banco e não aos camponeses: doutro lado, o banqueiro era também vereador da Câmara e amigo do Presidente.

Mesmo assim, após ter recapitalizado o banco, este não apagou as dívidas dos camponeses ou da Câmara, de maneira que todos ficaram submergidos pelas dívidas.
Ao ver o próprio orçamento prestes a ser reduzido e em apuros por causa dos interesses, o Presidente pediu ajuda às Câmaras nas redondezas; mas todas responderam terem sido vítimas da mesma desgraça.

Por isso foi inaugurado um período de crise: cortes nas despesas (menos dinheiro para a escolas, para os serviços sociais, para o centro de saúde); despedimento dos funcionários públicos e cortes nos ordenados dos que ficavam; mais taxas para todos.

O Presidente explicou que as medidas eram inevitáveis e prometeu moralizar este escandaloso negócio dos burros.

Infelizmente a historia não acaba porque não sabemos o que decidiram fazer os habitantes da aldeia.
O que sabemos é que o Presidente reuniu-se com os homólogos das outras Câmaras e parece que a ideia seja recapitalizar o banco outra vez.
Mas ainda estão a discutir.

Funcionará?

Update: segundo as últimas notícias, a decisão final será tomada na Quarta-feira. É um bom dia, pois não há jogos de futebol na televisão e na Taberna do Zé há Cozido à Transmontana. E todos gostam.


Ipse dixit.

7 comentários:

  1. Hey Max!

    belíssima história e bem real. Realmente, a economia é tão simples que até mete impressão.

    Nós é que somos os burros, mas eu tenho esperança na mudança...muito em breve...


    Abraço,
    --
    R. Saraiva

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  2. Mas ninguem consegue ver a BURRADA que esta sendo feita, ou é tudo combinado e quem (sempre) lucra são os bancos(que não podem perder)pois afinal sua atividade não é de risco.
    Mais uma inteligentíssima postagem do Max. Ainda voltarei ao texto para ver os outros comentários (sempre complementares). E o blog I.I. se firmando mais e mais como espaço de debates inteligentes. Obrigado a todos ,aprendo muito aqui.

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  3. Caro amigo Max,

    eis uma notícia interessante sobre os nossos agricultores aqui.

    Espero que despertemos rápido, pois tudo se afunda cada vez mais rápido...estamos no limiar do abismo.

    Concordo com o SENAM, ii a afirmar-se mais e mais na informação coerente e baseada em FACTOS.


    Grande abraço,
    -- --
    R. Saraiva

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  4. Ricardo25.10.11

    Lindo... o problema é que se formos debater com alguém sobre economia, expondo algo simples como essa história, vão alegar que somos burros que não é tão trivial e bla bla bla...

    Estou meio revoltado... acho que merecemos essa desgraça toda mesmo... eu fico impressionado como coisas como cenas do Kadafi ençangüentado atrai tanto as pessoas... todos são psicopatas... ninguém quer saber da política da Líbia... quer ver o velho sendo espancado até a morte... pqp... as pessoas são doentes... somos animais muito mais irracionais do que imaginamos...

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  5. Por que este fdp deste presidente não imprimiu dinheiro para dar ao povo? acho que tem maracutaia por ele ser amigo do dono do banco heim!!
    Conto tão velho quanto atual...

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  6. Olá Max: genial a história dos burros. Obrigada e abraços

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  7. Anónimo25.10.11

    Esopo, Saraiva e amigos,

    Outra ótima fábula, sem moral da estória, ao menos por enquanto. Nestas fábulas de Max, invariavelmente a moral da estória costuma decepcionar.

    Quanto ao teu link Saraiva, fazer o que? A Monsanto não joga pra perder. Falo desta satanice por que creio que seja ela por trás da planificação agrícola mundial. Ela suas assemelhadas. O negócio é extinguir o pequeno agricultor, ou fazê-lo trabalhar pra estas aberrações e aos poucos se endividar, até que não haja outra alternativa a não ser deixar o campo livre para suas sementes patenteadas. Os agricultores que se ligam à uma Monsanto só podem fazer uso de sementes chamadas suicidas. Aqui no Brasil para se conseguir as tais sementes através de financiamento do Banco do Brasil, só mediante a apresentação das notas fiscais de compra dos venenos agrícolas. Ué, mas os trangênicos não vieram para acabar com os agrotóxicos? Aumentar a produção por cada hectare? Os caras mentem, mentem, mentem e ninguém questiona merda nenhuma. Nem me refiro aos entreguistas das três esferas de poder, porque estes estão nas folhas de pagamento de alguma ou de muitas das corporações listadas no artigo mais abaixo, "O Emaranhado", falo das pessoas, do cidadão. O triste é que todo ser humano já ouviu muitas vezes na vida a expressão do Juvenal: "Pão e Circo". Tenho a impressão de que as pessoas pensam que é uma coisa circunscrita àquela época. Se esquecem que esta corja busca inspiração até nos primórdios de nossa existência. De fato esfregam todas as vilânias possíveis e inimagináveis na nossa cara e sabem perfeitamente, que não temos capacidade de reação. Estamos dopados e doentes. Dopados e doentes por causa deles. A fé no semelhante e a credulidade foi nosso engano. Nos esquecemos que existem outros que se apartaram da humanidade e que vêm à todos como seus inimigos, impecilhos na sua trajetória e que com muito boa vontade nos têm como seus escravos.

    Walner.

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