26 outubro 2011

O Dia dos Dias: o haircut das Mentes Pensantes

É hoje. O Dia dos Dias.

O Dia da Super-Reunião das Mentes Pensantes.
O Dia do qual sairá o futuro das próximas duas ou três semanas.

Toda Europa está com a respiração suspensa.

O que é perigoso, pois alguém pode esquecer-se de voltar a respirar.
Além disso, se todos voltassem a respirar ao mesmo tempo, poderia haveria um vendaval.
Que, combinado com a chuva de hoje, teria efeitos devastadores.


Caso Italia

A agenda prevê a reunião dos 27 chefes de governo do Euro mais a dos 17 chefes de governo da Zona Euro.

Objectivo: aumentar o EFSF (o fundo para os resgates), recapitalização dos bancos (que estão sem dinheiro, dizem eles), ajudas para os Países em dificuldades (isso é: falidos. Casos Grécia, Portugal, Irlanda). Mais outros e eventuais.

Resumindo: adiar ao longo dalguns tempos a fase explosiva da crise sistémica.
E quem paga entretanto? Eh, difícil imaginar...
Em qualquer caso: uma boa ocasião para impor um pouco mais de austeridade.

A situação é perigosa pois nos últimos dias a condição de Italia piorou:
  • a Italia é demasiado grande para falir e, ao mesmo tempo, demasiado grande para ser resgatada.
  • a Grécia já caiu, mas se for a Italia a cair, cai o Euro também.
  • o Banco Central Europeu e a União Europeia querem medidas à moda grega para a Italia, porque se cair a Italia cai o Euro também e o Euro tem de resistir quanto mais possível para satisfazer as necessidades dos bancos e dos poderes globais.
  • Berlusconi estaria pronto a implementar as tais medidas gregas, mas o aliado de governo ( Lega Nord) recusa.

Depois há a eterna tragédia grega. Que está longe de ser resolvida.

Caso Grécia

Fala-se dum haircut, isso é, um corte no total da dívida. 20, 30, 50%?
Não é este o ponto.

Em primeiro lugar: deveria ser um corte com base voluntária. E aqui surge um problema do qual ninguém fala.

Admitimos que os bancos decidam abdicar duma parte do crédito. Mas abdicariam de quê?
Na enorme panela da dívida grega há de tudo um pouco, incluído obrigações (Títulos de Estado, para simplificar) detidos por privados cidadãos, pequenos investidores.

Pessoas que se calhar escolheram investir as poucas poupanças em Títulos de Estado "porque um Estado dá mais garantias". Ou porque aconselhados pelo funcionário do próprio banco.

O problema é que o único investidor privilegiado é o Fundo Monetário Internacional (FMI) e em breve, talvez, o Banco Central Europeu (BCE). Todos os outros investidores não gozam de privilegio nenhum.

Já ao longo do ano passado a situação da Grécia era, evidentemente, de falência (ou default, o sentido é o mesmo): demasiada dívida, poucas receitas, impossibilidade de pagar.

O resgate concedido pela Dupla Maravilha, FMI e BCE, piorou as coisas pois, de facto, aumentou (brutalmente) o montante em dívida. A ideia era "Tá bom, vamos ganhar alguns tempos, depois algo irá acontecer, talvez, quem sabe, sei lá...".
E Informação Incorrecta dizia: "Melhor o default, olhem que é melhor o default...".

Passado um ano, mais ou menos, a situação é a mesma. Aliás, um pouco pior.

Pois entretanto, como vimos, a Grécia está sempre prestes a falir, mas na grande panela da dívida entraram dois jogadores (FMI e BCE) que têm (ou terão, no caso do Banco Central Europeu) o estatuto de "Privilegiados". Isso significa que todos os outros investidores foram de facto "despromovidos" quais investidores de "Serie B".

Hoje, com 50% da dívida grega nas mãos da Dupla Maravilha, um haircut de 50% atingiria apenas os Títulos não privilegiados. Mas como os Títulos não privilegiados são a metade da dívida total da Grécia, eis que o tão publicitado "haircut voluntário de 50%" na verdade seria de 25% (a metade da metade).
Corte todo nos ombros dos investidores não privilegiados, tais como o pequeno investidor.

Corte obviamente insuficiente perante o abismal buraco das contas de Atenas.

Pergunta: mas os bancos que, eventualmente, sugeriram os Títulos gregos como investimento não são responsáveis? Não teriam o dever de reembolsar os clientes que em boa fé acreditaram nas palavras dos funcionários?
Afinal falamos de Títulos que foras adquiridos quando a situação da Grécia não era esta, pois estava bem camuflada.

Resposta: não. A não ser que seja possível demonstrar a atitude fraudulenta dos bancos, como por exemplo ter sugerido os Títulos de Atenas quando já a situação helénica parecia desesperada.

Caso contrário é o pequeno investidor que arrisca e o banco nada tem a ver com isso. De facto, o investidor privado assinou um contrato com o Estado da Grécia, tendo actuado o banco simplesmente como intermediário (e tendo por isso ganho as comissões).

Uma vez celebrado o contrato, o problema é entre investidor e Atenas.
Atenas não tem dinheiro? Então diz: "Meu caro investidor, não tenho dinheiro, lamento, game over".
E o banco? O banco diz: "E eu que tenho a ver com isso? Game over".

Isso tanto para lembrar o que significa este "corte voluntário de 50%". E tanto para lembrar também que a Grécia já ultrapassou o ponto de não retorno.

Em qualquer caso vai ser um dia interessante. Numa tarde, as Mentes Pensantes têm que acordar-se acerca de assuntos sobre os quais não conseguiram encontrar um acordo em mais de um mês.
E tudo simplesmente para adiar o inevitável.

Divertido.


Ipse dixit.

Fontes: Informazione Scorretta, Bimbo Alieno.

4 comentários:

  1. "Toda Europa está com a respiração suspensa" devido ao mau cheiro que sai da sala da reunião!

    Quanto à reunião é sempre de rir o facto de ser unânime a decisão de desperdiçar mais de 100MM€ na recapitalização da Banca Comercial, é natural esta decisão nem sei porque foi metida na agenda!... Mas para dar cabo de uns míseros 35.3MM€ andam à pancada (este valor é os 10% que resulta da diferença entre rasgar 50% ou 60% dos papéis da dívida grega)...

    E por falar em cheiros manhosos! O Ministro das Finanças da Colónia da Europa (tcp Portugal) afirmou hoje mesmo que o gráfico que está no relatório do OE2012 e que mostra que as garantias do estado ao BPN já passam os 8.000 milhões €uritos parece que está errado porque a série corrente não aguentou com a pedalada e não teve em linha de conta o grau de inclinação da tangente ao pente que passou a 5 mm da cabeça do técnico de informática com a direcção de SSO... trá lá lá lá lá... que tal!?

    ResponderEliminar
  2. A esta hora já se sabe que o fumo ainda não é da cor desejada (tipo a cena dos papas!)ihih...

    Certo certo é que virão mais destas fedorentas reuniões! Tirando a parte de dar os 100MM€ à Banca Comercial a outra conclusão a que chegaram é que precisam de outra reunião... típico...

    ResponderEliminar
  3. Anónimo26.10.11

    A Europa transformou-se num 'pardieiro muito mal frequentado'. A frase não é minha, mas assenta que nem uma luva. O que me deixa perplexo é a quantidade de cidadãos que ainda não consegiu perceber o que se está a passar. Mesmo com toda a contra-informação que se vê diariamente nos media, as coisas ficaram claras para a 'malta' não ver. Esta gente toda anda a pensar em quê?

    ResponderEliminar
  4. Uma MANADA em pânico e a mugir para todo o lado NÃO PENSA... apenas reage!

    ResponderEliminar

Printfriendly

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...