19 dezembro 2011

Mercúrio

A fascinante Christine Lagarde, ou talvez o gato nevrótico que utiliza como cabelos, avisou: Depressão. Não é novidade: já a fascinante Angela Merkel tinha avisado acerca do regresso da Depressão e de todos os medos relacionados.

Uhhh...a Depressão...

Há diferença entre "recessão" e "depressão": a primeira é cíclica, implícita no sistema capitalista; a segunda não, é um evento de longa duração que interessa vários Países ao mesmo tempo. Agora, explicam, estamos numa recessão, que arrisca tornar-se uma depressão.

Remédio? Claro, a Retoma, este Cálice Sagrado que, aos olhos de economistas e políticos, deveria resolver todos os problemas. A Retoma tinha sido anunciada já nos últimos meses de 2008, pouco depois da crise eclodir, e pontualmente se apresenta para depois esvaecer, qual cruel miragem.

Agora, uma pergunta: como podemos definir uma recessão que demora anos, com aumentos significativos do desemprego, apertos financeiros, quedas de produção, crises bancárias, falências de inteiros Estados, reduções do comércio internacional, sinais de deflação? E nem podemos esquecer a crise das "tigres asiáticas", último motor da economia mundial ainda em marcha significativa.

Resposta: podemos defini-la como depressão.


Mentira

Mesmo assim, a grande mentira da Retoma vive e prospera. É a Retoma que um dia chegará, de repente tornará as nossas economia produtivas como uma vez, assumirá todos os desempregados enquanto um novo Sol resplenderá por cima das nossas cabecinhas.

Mentira? Sim, mentira. Porque, como já amplamente demonstrado, estamos perante duma crise sistémica. Algo que atinge as fundamentas do nosso sistema económico. E apresenta algumas particularidades, como por exemplo uma verdadeira guerra entre ricos e pobres.

Comunistas de todo o planeta, chegou a hora de festejar? A luta de classe triunfou?
Não, meus senhores, deixem Marx descansar em paz: aqui não há uma classe trabalhadora que quer apoderar-se dos meios de produção. Mesmo que conseguisse, isso seria totalmente inútil, pois repetimos: não será a produção a resolver esta crise.
E não importa nas mãos de quem podem ficar as máquinas: a ideia de que um aumento da riqueza individual (mesmo que seja de todos) possa solucionar a actual depressão não passa duma quimera.

Cada vez mais parece evidente que uma revolução não deverá verter na posse dos bens mas numa total revisitação da nossa sociedade tal como foi pensada e gerida. O mundo de Marx e de Adam Smith já não existe: é tempo de evoluir e quem não perceber isso ficará como parte do passado, não do presente.

Não temos "patrões" que desfrutam pobres trabalhadores: os novos "patrões" nem têm meios de produção.
17% dos cidadãos da União Europeia vive abaixo do limiar da pobreza. E pior de Portugal há o Reino Unido, com 14 milhões de pobres (22% da população).

Problemas de máquinas? Não, problemas de pensamentos: a liberdade de pensamento é perigosa quando o fim é um grupo de cidadãos utilizados para realizar os projectos da elite. Por esta razão os trabalhadores não são explorados, foram antes anestesiados: aceitaram passivamente a transferência dos meios de produção.

Reparem: a nova elite não explora a classe trabalhadora, simplesmente porque já não há trabalhadores e nada para ser produzido.

A verdadeira guerra civil, que está na base da presente depressão, é entre os fautores do crescimento económico e os que apelam para um refundação da sociedade. São duas estradas opostas, e cada uma das partes tem as próprias ideias distintas.

Distintas? Mais ou menos.

Os que apoiam o crescimento económico têm os sagrados textos dos economistas. São textos embutidos de matemática, e por isso o povo ajoelha-se: quem pode discutir com uma equação?

Resposta: a experiência.

Mercúrio

O movimento do planeta Mercúrio tinha sido estudado com as teorias de Isaac Newton.

Problema: o planeta não conhecia as equações do grande físico inglês e tinha um comportamento diferente do previsto. A solução foi encontrada alguns séculos mais tarde, com a Teoria de Relatividade Geral de Albert Einstein. A explicação é simples: os nossos conhecimentos devem acompanhar a realidade, que está em continua mutação. Cristalizar o nosso pensamento é a melhor maneira para a criação de erros.

Há muitas razões pelas quais seria esta uma altura certa para rever as nossas posições acerca dos princípios económicos. Sem incomodar Mercúrio e o Sistema Solar, há biliões de pessoas que vivem em condições fortemente desfavorecidas ou que até morrem de fome e de doenças, facilmente tratadas no Ocidente. Isso já deveria suficiente para exigir uma profunda revisão dos nossos modelos.

Mas que temos do outro lado?
Uma imensa confusão.

Movimentos desorganizados e extemporâneos, como Occupy Wall Street, cujas origens estão envolvidas nas dúvidas. Movimentos New Age que conseguem ser até assustadores e que, muitas vezes, são utilizados para anestesiar ainda mais as massas. Revoluções pilotadas. Internet que não consegue veicular a raiva e a exigência duma verdadeira mudança.

Por enquanto esperemos. Algo vai acontecer. Não sabemos quando nem onde, mas algo irá mudar e não será preciso esperar muito tempo. Preservar o nosso pensamento, dar o exemplo, falar com o próximo. Organizações em pequena escala. Observar e tentar perceber.

Não é muito? Bah, melhor do que nada, não acham?
Eu acho. E entretanto pode sempre surgir uma ideia qualquer, porque onde há uma mudança há sempre uma ocasião.


Ipse dixit.

1 comentário:

  1. Caramba Max: tu te superas a cada reflexão...eu já ando até tendo ato falho Hi,Hi,Hi....(traduzindo: pequena risadinha)
    Só desejo que essa mudança "que vai acontecer", seja no sentido da refundação da sociedade noutras bases.Desejo, sim, mas não acredito porque a periculosidade da liberdade de pensamento, como dissestes, já foi identificada deste tempos de outrora, e devidamente anestesiada, como também te referistes.
    Resta a experiência como lembrastes, uma arma poderosa dos reles mortais, que pode discutir abstrações ("uma equação"), quando no meu entender, os reles mortais são dotados de liberdade de pensamento. Bah.. (como dirias),é desta trincheira que estamos combatendo, não?

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