12 janeiro 2012

Desaparecimento do Euro: manual de sobrevivência

Diz Bruno:
[...] sinto necessidade de recorrer ao seu discernimento em algo que presumo ser de interesse geral; trata-se dos possíveis planos de contingência pessoais perante a possibilidade (apenas a possibilidade) de fim da moeda única. Seria útil possuir economias em moedas estrangeiras estáveis? Seria útil reduzir as economias confiadas aos bancos ao nível da liquidez mensal? Seria útil aumentar os stocks pessoais de alimentação de longa validade e energia contando com uma possível inflação generalizada? Por exemplo; a Grécia que esta á nossa frente para a descida ao fundo do poço, como se tem eles organizado para fazer frente á adversidade, sinto que olhar a Grécia é olhar o nosso futuro, que ensinamentos pode-mos colher dali para o nosso futuro?
Podemos falar sobre isso?

Claro  Bruno, podemos falar de qualquer assunto. O problema, eventualmente, podem ser os resultados, e recorrer ao "meu discernimento" é meio caminho andado para a desgraça (entre as outras coisas: não sou economista!)...mas vamos em frente.


O que aconteceria se amanhã o Euro desaparecesse? Esquisito mas não há hipóteses sérias acerca disso porque ao longo destes anos a ideia prevalecente foi "O Euro veio para ficar, ámen". Mas agora as coisas mudaram, então que fazer?


Seria útil possuir economias em moedas estrangeiras estáveis?

Sim, mas antes disso seria útil saber quais moedas podem ser consideradas "estáveis". Hoje vivemos num mercado global e a finança é das coisas mais globalizadas: alguém espirra na Bolsa de Hong Kong e todos tremem em Wall Street.

No caso específico, falamos duma espécie de cataclismo: se o desaparecimento do Euro fosse devido a uma profunda crise bancária, as consequências seriam medíveis em todos os mercados do planeta. Os principais bancos têm ramificações em todos os continentes. Sem entrar na fanta-finança, não é difícil imaginar os efeitos sobre os depósitos de dezenas (ou até centenas) de milhões de pessoas, ninguém pode considerar-se imune.

E para perceber isso é só lembrar o que aconteceu com os subprimes dos bancos americanos em 2008: a crise começada aí ainda aqui está, quem sofre é a economia global, não apenas aquela de Washington.

Como sugere Maria: ouro. Não será muito original, mas é a única coisa acerca da qual podemos ter certezas. O ouro sempre foi o melhor bem-abrigo e tal continuará a ser.

Dinheiro? O dinheiro é papel, vale até quando valer o sistema que reconhece o valor imprimido, depois volta a ser o que era: papel. A não ser que sejam moedas de ouro e prata...

Nos bons tempos idos teria dito: o Franco suíço. Continua  a ser mais seguro do que o Euro, sem dúvida, mas não podemos esquecer que um dos maiores bancos europeus, o UBS, tem sede em Zurich, tal como o Credite Suisse, enquanto o BSI é ligado ao grupo italiano Generali. Eu continuo a pensar que também em caso de crise a Suíça teria os instrumentos para dormir de forma (relativamente) tranquila, mas nunca se pode dizer.


Seria útil reduzir as economias confiadas aos bancos ao nível da liquidez mensal?

Ainda pior. Em caso de crise a liquidez entregue mensalmente seria a primeira a desaparecer. Nestes casos deveria ser o Estado a intervir para garantir os depósitos dos privados, mas aqui o Estado em questão seria Portugal e está tudo dito, é só ver o que aconteceu com o banco privado que faliu e que foi nacionalizado nos últimos tempos: os clientes tiveram que fadigar não pouco para obter algumas das poupanças deles.

Eu não tenho preparação suficiente para dar conselhos nesta área, e em qualquer outra altura teria ficado calado. Mas nos próximos tempos a estar em risco serão mesmo as instituições bancárias, pelo que desta solução não gosto.
Mas atenção: estou convencido de que a crise dos bancos será algo de curta duração, pois em breve a máquina do crédito voltará à normalidade; não por causa duma fenomenal capacidade de recuperação dos bancos, mas porque as pessoas continuarão a trabalhar, produzir, comprar... Por isso, a solução da liquidez mensal pode não ser aconselhável agora, mas as coisas podem mudar no prazo de pouco tempo.


Seria útil aumentar os stocks pessoais de alimentação de longa validade e energia contando com uma possível inflação generalizada?

Um mínimo de stock deveria estar sempre presente. Boa parte de Portugal é uma zona de alto risco sísmico, pelo que ter algumas latas de reserva é mais do que uma boa ideia (há sempre a possibilidade do terremoto engolir a casa com anexas latas, verdade, mas enfim, um pouco de optimismo...).

Preparar-se para uma eventual crise económica?
Olhem, eu sou bastante inconsciente neste aspecto: quando houve a greve dos auto-transportadores, por exemplo, eu não fui ao supermercado para comprar 36 garrafões de água. Porquê? Não sei, se calhar é pelo facto de não ser um pessimista, talvez seja pelo facto de que afinal estamos na Europa e não no deserto do Sahara. Mas não passei a sede.

Preparar-se para algo pior? Mas neste caso falamos de carestia. Então seria precisa também uma caçadeira, um revolver, arame farpado à porta, foguetes para fazer sinais, um refugio debaixo da casa, um sistema de comunicação rádio...vale a pena? Não.

Preparar-se para encarar possibilidades negativas é bom e pode salvar a vida em determinadas circunstâncias (ver caso do terremoto e das latas), mas não podemos tornar este um pesadelo. Aliás, sugiro ter a atitude oposta.

O paradoxo e o jogo

Paradoxo? Dum lado estou a prever uma crise bancária e do outro digo "Tá bom, não faz mal"?
Não é bem assim, o que digo é diferente.

Nos últimos 12 meses fomos continuamente feitos alvos duma autêntica lavagem cerebral. Entrevistas, reportagens, aprofundamentos, tudo feito à sombra duma terrível ameaça: Portugal vai falir. Nos últimos tempos tudo isso até piorou: agora é o governo que diz que os próximos tempos serão muito difíceis e convida os cidadãos a abandonar o País (sic!).

Pensamos nisso: mas é normal? Mas quando se viu um Primeiro Ministro que passa o tempo a desmoralizar os cidadãos? Porquê apesar das frases de circunstância ("Todos juntos podemos ultrapassar as dificuldades"), as mensagens enviadas são aterradoras, tal como as medidas tomadas. E isso não é normal.

No plano europeu a situação não é melhor: os líderes do Velho Continente falam do Euro como algo de estável, mas ao mesmo tempo, em quase cada discurso, há uma referência para as terríveis consequências em caso de morte da moeda única.

Por todos os lados circulam mensagens desta natureza, de forma constante. Mas paramos um segundo e vamos ver quem são estas fontes. Basicamente uma: os políticos, sejam eles locais ou europeus. São as mesmas pessoas que prometem na altura das eleições. São as mesmas pessoas que gozam de privilégios desconhecidos ao comum cidadão. São as mesmas pessoas que criaram, com a cumplicidade, a crise na actual vivemos.

Então eis que surge uma dúvida: mas será que o desaparecimento do Euro implicaria esta espécie de apocalipse? Ou será que estas pessoas pintam de preto a alternativa para defender a horta deles?

Não estou a dizer que uma crise bancária seja algo de leve. Não estou a dizer que uma explosão da Zona Euro seria uma brincadeira. Mas recuso aceitar este clima de "ou assim ou morte".

Weimar, Buenos Aires...

Como sempre: a História.

No passado podemos encontrar Estados que enfrentaram períodos conturbados, até particularmente graves.
Maria, no comentário, fala de hiperinflação, o que faz lembrar a Alemanha nos anos após a Primeira Guerra Mundial. Mais recentemente, temos o exemplo da Argentina.

Nestes casos as dificuldades foram graves, sem dúvida: mas a Alemanha não desapareceu, nem a Argentina. Os Estados, com as instituições deles, continuaram. Nem consigo lembrar dum Estado "desaparecido" por causa duma crise financeira, talvez nunca houve: porque (e aqui está o fruto da lavagem cerebral) não podemos confundir a finança com o Estado.

Embora profundamente interligados, não é correcto identificar a Bolsa Valores dum País com o mesmo País. É isso que os políticos estão a fazer para alimentar o pesadelo, é isso que temos de evitar: as actuais turbo-finanças, na verdade, já pouco têm a ver com a realidade dum País (nota: estou de propósito a "mergulhar" tudo na mesma panela: finança, Bolsa, moedas...).

Não houve mortos de fome; talvez o peso médio dos habitantes diminuiu, mas não havia esqueletos nas ruas ou cidadãos a cavar poços para encontrar água.

O caso da Grécia: será que Atenas representa uma ante-visão de Lisboa? Têm muito em comum: Estado falido, governo nas mãos das instituições europeias, impostos que aumentam, economia deprimida, produção (já por si escassa) em queda, despedimentos, desemprego, preocupação e medo.

Atenas será o futuro de Lisboa? Começo a pensar que a resposta seja "não". Não por Portugal ser "melhor" do que a Grécia, pois não é, mas talvez porque faltará o tempo para que Portugal mergulhe no caos da Grécia: é provável que aconteça alguma coisa antes disso, e esta "coisa" pode bem ser uma profunda crise bancária e/ou o desaparecimento da moeda única.

Vida

Mas admitimos que a minha previsão esteja errada (pois de facto posso bem estar completamente errado), que não haja nenhuma grande crise dos bancos e/ou desaparecimento do Euro. Que fazer? Resposta: nada. É "tarde demais", como foi dito nos últimos tempos, só uma série de fortes decisões dos cidadãos poderia mudar alguma coisa, mas isso não irá acontecer.

Não é uma resposta tão optimista? Não, não é: mas há um tempo por cada coisa. Houve o tempo no qual teria sido possível alterar o rumo dos acontecimentos, escolhemos fechar os olhos, agora a realidade apresenta a conta. É na ordem das coisas, acção = reacção.

Continuo a pensar que, com ou sem apocalipse banqueiras, com ou sem desaparecimento do Euro, nós temos a obrigação de não cair no mórbido jogo de quem conduziu o(s) País(es) até este ponto: não vou passar os próximos meses num pesadelo sem fim, com a espada de Dámocles em cima da cabeça, sempre à espera da catástrofe. E convido os Leitores a ter a mesma atitude.

Há coisas demasiado bonitas na vida para deixa-las estragar por uma cambada de criminais institucionalizados.


Ipse dixit.

3 comentários:

  1. Anónimo12.1.12

    Gente...a melhor maneira de ter dinheiro sem ter que o confiar aos bancos é...guardá-lo debaixo do colchão! lol

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  2. Anónimo12.1.12

    Caro Max: Muito obrigado pela honra que me foi concedida em responder completa e prontamente a minha questão, era esse tipo de raciocínio que me estava a faltar, foi extremamente útil esse ponto de vista.
    Quanto ao facto de não ser economista significa isso que não se tem o “canudo” ? Os conhecimentos estão ao alcance de qualquer um que os procure ( como o é o teu caso) tenho assistido com enorme deleite a inúmeros autodidactas a fazer “ xeque-mate “ a orgulhosos portadores de “canudos” , a América pode ter sido no passado o pais das oportunidades…mas este pais é agora o das “novas oportunidades” e dos oportunistas também…não creio em “canudos” apenas em provas dadas.
    Um abraço.

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  3. Bruno António12.1.12

    Ops...esqueci-me de assinar o comentario anterior:

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