31 janeiro 2012

Do Proteccionismo - Parte I

A Apple "terceiriza" ainda mais: desloca a produção para Países onde a mão de obra é mais barata. Até o New York Times agora está preocupado com o que a globalização tem feito para os Americanos.

Praticamente todos os 70 milhões de iPhones e os 30 milhões de iPad vendidos são fabricados fora dos EUA. A Apple ainda tem 43.000 funcionários nos EUA, mas paga outros 700.000 trabalhadores não-americanos que dependem de sub-fornecedores, empreiteiros e projectistas. Todos estrangeiros, que vivem, residem, produzem no estrangeiro.

Agora, outros postos de trabalho estão prestes a emigrar, para não voltar, chora o New York Times. Que apresenta uma investigação da qual emergem algumas realidades que até agora ficaram ocultadas. E não por mero acaso, mas por clara vontade de não encarar determinados assuntos.

Em 2011, a Apple "extraiu" 400.000 Dólares de puro lucro de cada um dos seus trabalhadores, mais do que as várias Goldman Sach, Exxon ou Google. Apenas pequenas migalhas deste titânico lucro voltaram nos bolsos dos trabalhadores: na verdade, o trabalho é pago cada vez menos.


Um chá e um biscoito

Da investigação aprendemos quanto custa produzir um computador que depois será colocado no mercado com um preço de 1.500 Dólares: e quanto custa? 22 Dólares se for produzido nos Estados Unidos, 6 Dólares se for produzido em Singapura, 4,85 Dólares em Taiwan.

Sobre o preço final de 1.500 Dólares, o custo da mão de obra é risível, no entanto a diferença é suficiente, de acordo com o dogma liberal, para justificar a deslocação da produção.

Mas o que alarma o New York Times é a descoberta de que agora nem sequer é o custo de produção a verdadeira razão da deslocalização. Pelo contrário, o que conta agora é a velocidade e a qualidade dos trabalhadores chineses empregados na montagem, a rede global e integrada dos sub-fornecedores, a velocidade e a capacidade de adaptação em resposta aos pedidos da Apple.

O jornal cita um exemplo: algumas semanas antes do lançamento do iPhone, Steve Jobs percebe que a tela de plástico é facilmente riscada e exige imediatamente uma tela de vidro. Não é um pormenor: há dificuldades técnicas no cortar o vidro temperado em rectângulos com cantos arredondados, problema que uma empresa chinesa se oferece para resolver. É preciso redesenhar o componente no último minuto, criar uma nova linha de montagem.

Solução: um telefonema da China, meia-noite na hora local.
Relata o New York Times:
Um chefe acorda 8.000 trabalhadores deitados nos dormitórios da empresa, a cada um deles é dada uma chávena de chá e um biscoito, são enviados para os lugares de trabalho dentro de meia hora e começam uma jornada de trabalho de 12 horas para aplicar o vidro com os cantos arredondados. Dentro de 96 horas, a empresa produz 10.000 iPhones por dia.
Exulta um executivo da Apple:
A inteira cadeia de abastecimento está agora na China. Você precisa de mil selos de borracha? São produzidos na empresa faz o lado. Quer um milhão de parafusos? É a fábrica na rua ao lado. Quer que os parafusos sejam um pouco "diferente"? Leva apenas três horas.

E tudo feito muito bem, com grande qualidade e flexibilidade, trabalhando duro e com muitos ou poucos homens quanto forem necessários.

Conclui outro gerente da Apple (todos anónimos, por prudência, para não ser demitidos dum dia para outro):
Não podemos ser criticados pelo facto de usar trabalhadores chineses, os EUA pararam de produzir pessoas com as qualidades necessárias.
É esta, finalmente, a súbita consciência de que a deslocalização, subproduto inevitável da globalização, tem causado uma perda de conhecimento, de know-how e de base industrial do País que está a tornar-se irreversível.

Nunca mais haverá trabalhadores dos EUA "ideais" para este Capitalismo que aloja os dependentes nos dormitórios corporativos para acorda-los no meio da noite, para começar um turno de 12 horas, alimentados com um chá e um biscoito; porque os trabalhadores americanos já não são capazes de fazer aquele trabalho.

China sem regras

Obviamente, o jornal não chega a dizer explicitamente que esta capacidade dos trabalhadores chineses e asiáticos e a integração industrial não são eventos naturais: foram "cedidos" pelo ex- Primeiro Mundo com a força da globalização.

É a consequência de ter admitido a China no mercado global apesar da inobservância das condições ditadas pela WTO (World Trade Organization, a Organização Mundial do Comércio), as mesmas regras que têm de ser respeitadas nos outros Países. Estas regras são uma moeda livre de flutuar, condições "decentes" de trabalho, adesão ao Protocolo de Kyoto contra a  poluição, a ausência de direitos aduaneiros.

São as regras que a maioria dos outros Países "evoluídos" têm que respeitar, enquanto a China pode não ligar aos problemas da poluição, pode ficar com os escravos nos dormitórios, violar o salário mínimo e distorcer o valor da sua própria moeda para que este possa ficar artificialmente baixo.

O jogo é injusto, não é leal. Mas desafiar estas falta de regras significa evocar uma palavra demoníaca, uma palavra tabu: proteccionismo.

Em 2009, a França foi ameaçada de sanções por parte do Comissário Europeu para a Concorrência, Neelie Kroes, por ter condicionado o apoio público para a sua indústria automobilística; na prática, a França concedeu o apoio em troca da certeza de que as empresas não iriam a deslocalizar a produção. Na prática, uma medida para proteger o trabalho domestico. Horror.

Na mesma altura, Pequim impôs um direito de importação de 23% sobre a importação de aviões de médio alcance, forçando a Airbus e a Boeing a fabricar aeronaves na China e, portanto, a criar aí instalações, treinar novos dependentes, contactar novos fornecedores. Na prática, retirando parte da produção dos Países ocidentais. Até que um dia aparecera um Steve Jobs "aeronáutico" com olhos amendoados e será a China a produzir com capital chinês. Porque este é o objectivo final.

Pagar a China com a mesma moeda? Introduzir impostos sobre os produtos importados? Não, não é possível, não se faz, não fica bem. É proteccionismo, o que é mau. Sim, mas não é o que fazem os Chineses? É, mas eles são Chineses.
Haverá sempre um economista pronto a explicar que foi o proteccionismo económico a causar a Grande Depressão de 1929-39 (o que, dito entre nós, é falso). E o dogma continua, explicando que o proteccionismo é uma tentação que deve ser rejeitada, pois seria a descida ao inferno da pobreza e da ruína económica. Seria o fim dos exportadores ocidentais.

Mas é verdade?

Os três pontos de Giraud

Recentemente, o Mercosul (o mercado comum, que combina os Países sul-americanos, incluindo Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, mais Venezuela, Bolívia e Equador como associados), tem introduzido medidas para proteger o mercado interno contra a mercadoria de baixo preço da China e dos EUA, ambos acusados ​​de manter artificialmente desvalorizadas as suas moedas.

O Brasil, por exemplo, impôs direitos aduaneiros de 30% nos carros importados do estrangeiro. Vale a pena notar que são Países em crescimento, onde o proteccionismo não leva à ruína mas, pelo contrário, cria fenómenos de re-localização.

A Argentina, colocando impostos sobre os Blackberry importados, tem "convencido" a empresa produtora, a multinacional RIM, a produzir na Argentina.

Um economista francês, Gael Giraud do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique, Centro Nacional para a Pesquisa Científica), tenta avaliar os custos e os benefícios duma barreira em torno dos direitos aduaneiros da União Europeia, um mercado de 495 milhões de habitantes, o maior e (por enquanto) mais rico mercado do mundo. Antes de perder mais capacidades e tecido industrial, Giraud propõe a imposição de barreiras comerciais em favor dos bens da UE, contra serviços e capitais de Países que:
  • não cumprem as condições dum trabalho "decente", de acordo com a definição de dignidade elaborada pela Organização Internacional do Trabalho (órgão da ONU)
  • não cumprem os acordos de Kyoto sobre a poluição (que as empresas europeias estão obrigadas a cumprir pela Comissão Europeia
  • toleram ou mantêm instituições que permitem a fuga dos imposto, como no caso dos paraísos fiscais, nos termos da "opacidade financeira" definida pela Tax Justice Network.

Há portanto uma tentativa de apoiar os impostos "punitivos" não já com base nos interesse das lobbies, mas segundo critérios "objectivos" como definidos por respeitadas organizações internacionais.

E Giraud não pensa nas barreiras como uma conveniente protecção trás da qual continuar a sobreviver com uma indústria cada vez menos competitiva e obsoleta. Não, os impostos devem ser acompanhados por um gigantesco plano de mutação das nossas indústrias e da agricultura:
Precisamos de uma revolução industrial não menos fenomenal do que a do século XIX.
O que faz todo o sentido.

E que mais? Calma, o resto amanhã.


Ipse dixit.

Fontes: New York Times, ContreInfo, Rischio Calcolato

3 comentários:

  1. E VIVAM AS MANADAS DE ESCRAVOS... Pois sem elas NADA DISTO ERA POSSÍVEL... será?
    Além do mais... se nós não andarmos a mudar de telefones portáteis e computadores como quem muda de meias, o que seria das crianças africanas?

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  2. maria31.1.12

    Já viram como é fácil saber para onde se voltam as hostes da democracia imperial, agora bem instaladas no Africom?
    Agora o "mal" virá da África.
    Será preciso em nome da paz, contra o terrorismo e pela "segurança" do povo americano, terminar de abatê-la. A Libia já foi, a Somália vai morrer de fome mesmo, ainda tem petróleo estatal na Nigéria...logo vamos a luta contra o terrorismo africano!!
    El jefe de AFRICOM: EE. UU. es el blanco de islamistas africanos
    Los tres principales grupos terroristas de África fortalecen sus vínculos para organizar atentados contra EE. UU. Así lo afirmó el jefe del Comando de Estados Unidos para África (AFRICOM). (notícia colhida no RT Moscou)
    Desculpa, Max, o comentário fora de lugar...mas não resisti deixar aqui esta "pérola" do general norte americano para o entendimento dos frequentadores do Botequim do Max.

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  3. Anónimo3.2.12

    Se Karl Marx visse esses números quando criou o conceito de MAIS VALIA...

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