23 fevereiro 2012

A carta aberta de Mikis Theodorakis

Grécia? Ok, Grécia.

A Grécia está salva, pelo menos ao longo das próximas duas horas, depois não se sabe. Aliás, sabe-se muito bem: a Grécia irá falir, mas não digam isso em Bruxelas porque ficam doidos.
Pelo contrário: é preciso dizer que sim, Atenas atravessa uma altura um bocado complicada, mas com o resgate recentemente aprovado o sol voltará a brilhas sobre a Acrópole.

Que entretanto terá falido, mas este é outro assunto.

Mas não estamos aqui para falar da "ajuda" da Zona Euro ("ajuda" com juros, tanto para não esquecer): falemos da Grécia mas do ponto de vista grego.

Mikis Theodorakis é um compositor grego (Zorba o Grego), famoso também por causa do seu empenho na vida política de seu país. Durante a ditadura militar dos coronéis (1967-1974) foi preso e torturado, enquanto a música dele era proibida. Na altura, escreveu as canções com base nos poemas do patriota grego Alexandros Panagulis. Ponto de referência para a opinião pública de Esquerda, Theodorakis por um tempo fica ao lado do centro-direita, voltando a reconciliar-se com a Esquerda apenas depois da saída de Papandreou.

Aqui a opinião dele.
Lembro que os artigos apresentados nem sempre reflectem a opinião de Informação Incorrecta.


 A conspiração internacional contra a Grécia
Há uma conspiração internacional que visa apagar o meu País. É iniciada em 1975, contra a civilização neo-grega, continuou com uma distorção sistemática da nossa história e da nossa identidade cultural contemporânea e está agora a tentar apagar-nos até fisicamente, com fome, desemprego e miséria.Se o povo grego tomar medidas apropriadas, o perigo do desaparecimento da Grécia é real. Eu vou colocá-lo dentro dos próximos 10 anos.
De nós, permanecerá apenas a memória da nossa civilização e as nossas batalhas pela liberdade.


Até 2009, o problema económico não era grave. As grandes feridas da nossa economia eram os gastos exagerados para a defesa do País e a corrupção de políticos e jornalistas. Para estas duas feridas, no entanto, foram também co-responsáveis ​​Países estrangeiros. Tal como a Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos, que ganharam biliões de Euros com a venda anual de material de guerra.

Esse hemorragia quebrava o País e não permitia crescer, enquanto oferecia uma grande riqueza aos Países estrangeiros. O mesmo aconteceu com o problema da corrupção. A empresa alemã Siemens mantinha um departamento que tratava da corrupção dos nossos políticos, a fim de melhor colocar os seus produtos no mercado grego. Consequentemente, o povo grego foi vítima deste dueto de ladrões, gregos e alemães, que ficaram ricos.

É óbvio que estas feridas possivelmente poderiam ter sido evitadas se os dois partidos no poder, filo-americanos, não tivessem acolhido elementos corruptos dentro das suas fileiras, que, para cobrir a hemorragia da riqueza (produzida pelo trabalho do povo grego) para os cofres dos Países estrangeiros, assinaram empréstimos exagerados, com o resultado que a dívida pública aumentou para 300 biliões de Euros, ou seja, 130% do PIB.

Com este sistema, as forças estrangeiras mencionadas acima, ganhavam duas vezes. Da venda de armas e dos seus produtos antes, com as taxas de juros depois. Porque, como vimos, o povo é a principal vítima em ambos os casos.
Um exemplo irá convencer. As taxas de juros para o empréstimo de 1 bilião de Dólares contraído por Andreas Papandreou em 1986 da França tornaram-se 54 biliões de Euros e foram finalmente pagas só em 2010!
Jean-Claude Juncker [primeiro-ministro do Luxemburgo, ex presidente do Conselho Europeu, ndt] disse um ano atrás que havia notado esta grande fuga de dinheiro da Grécia causada pela enorme despesa na compra de armas da Alemanha e da França. Tinha percebido que os nossos fornecedores estavam a levar-nos directamente para uma catástrofe, mas confessou publicamente que não reagiu para não afectar os interesses dos Países amigos!

Em 2008 houve a grande crise económica na Europa. Era normal que tivesse consequências também na economia grega. O padrão de vida, bastante alto (estávamos entre os 30 Países mais ricos do mundo), permaneceu inalterado. Houve, no entanto, o crescimento do débito público. Mas a dívida não leva necessariamente à crise económica. As dívidas dos grandes Países como EUA e Alemanha são contados em triliões.
O problema era o crescimento económico e a produção. Por esta razão, foram contraídos empréstimos com taxas de juros até 5%. Esta era a exacta posição em 2009, até que em Novembro tornou-se primeiro-ministro Georges Papandreou. Para entender o que acham hoje da política catastrófica dele os Gregos, são suficientes esses dois números: nas eleições de 2009, o Partido Socialista teve 44% dos votos, hoje em dia as projecções apontam para 6%.

Papandreou poderia ter enfrentado a crise económica (que reflectia aquela da Europa) com empréstimos de bancos estrangeiros com a taxa usual, ou seja, abaixo de 5%. Se ele tivesse feito isso, não teria havido problema para o nosso País. Na verdade, teria acontecido o contrário, pois estávamos numa fase de crescimento económico.
Papandreou, no entanto, tinha começado a sua conspiração contra o seu próprio povo desde o Verão de 2009, quando se tinha encontrado secretamente com o Sr. Strauss-Kahn para trazer a Grécia sob a "protecção" do FMI (Fundo Monetário Internacional). A notícia desta reunião foi publicado directamente pelo presidente do FMI.

Para passar sob o controle do FMI, foi necessário distorcer a real situação económica do nosso País e permitir o aumento das taxas de juro dos empréstimos. Isso começou com o aumento médio da "falsa" dívida interna, de 9,2% para 15%. Por este crime, o Público Ministério Peponis pediu, há 20 dias, a acusação de Papakostantinou (ministro da economia) e Papandreou. A campanha sistemática na Europa de Papandreou e do Ministro da Economia durou 5 meses, para convencer os Europeus de que a Grécia estava pronto para a fundar-se, como o Titanic, que os Gregos são corruptos, preguiçosos e, portanto, incapazes de lidar com os problemas do País. Após cada declaração, as taxas de juros subiram, ao ponto de já não ser capazes de obter quaisquer empréstimos; portanto, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu vestiram a roupa de nossos salvadores, quando na realidade foi o início da nossa morte .

Em maio de 2010 foi assinado (por parte de apenas um só ministro) o famoso acordo de resgate. A lei grega, nestes casos, requer, por um acordo muito importante, o voto favorável de pelo menos três quintos dos parlamentares. Esse primeiro acordo é, portanto, ilegal. A troika que manda hoje na Grécia age de forma totalmente ilegal. Não só para o direito grego, mas também para o europeu.

Desde então, se os passos que levam a nossa morte são 20, já estamos até mais da metade. Imagine que com este segundo acordo, para a nossa "salvação", oferecemos a estes senhores a nossa integridade nacional e os nossos bens públicos. Ou seja, portos, aeroportos, estradas, electricidade, água, riqueza mineral, mais monumentos nacionais (como a Acrópole de Olympia, Delphi, o Epidauro...). etc. etc; e com estes acordos abdicámos de eventuais recursos.

A produção parou, o desemprego aumentou para 20%, 80.000 lojas foram fechadas, milhares de pequenas fábricas e centenas de indústrias ficaram sem trabalho. Um total de 432.000 empresas desapareceu. Dezenas de milhares de jovens licenciados deixam o País todos os dias, imerso numa escura Idade Média. Milhares de cidadãos, uma vez ricos, espreitam nos caixotes do lixo e dormem nas ruas. Enquanto isso, repetimos que estamos vivos graças à generosidade dos nossos "salvadores" europeus, dos bancos e do Fundo Monetário Internacional. Na verdade, cada resgate com destino a Grécia volta para trás sob forma de incríveis novas taxas de juros.

E já que há necessidade dum Estado que funcione, com hospitais, escolas etc., a troika carrega de novas taxas as camadas mais débeis da sociedade, o que provoca fome. Uma situação semelhante à fome generalizada que tivemos no início da ocupação nazista, em 1941, com 300.000 mortes em 6 meses. Agora vamos reviver a mesma situação. Se pensarmos que a ocupação nazista custou 1 milhão de mortes e a destruição total do nosso País, como podemos aceitar as ameaças da Merkel e a intenção de instalar um novo gaulaighter ... e desta vez com a gravata ...

E para provar quanto ricos e quanto trabalhadores forem os Gregos, que tinham conhecimento da exigência de liberdade e amor à sua terra natal, há o exemplo de como reagiram à ocupação nazista de 1941. Quando a SS e a fome mataram 1 milhão de pessoas e a Vermacht sistematicamente destruía o País, a produção agrícola e roubava o ouro dos bancos gregos, os Gregos criaram o movimento de solidariedade nacional que alimentou a população, criaram um exército de 100.000 resistentes que forçaram os Alemães a estar presente de forma contínua com 200.000 soldados. Ao mesmo tempo, os Gregos, através do trabalho, conseguiram não apenas sobreviver, mas desenvolver, em condições de ocupação, a nova arte grega, especialmente literatura e música.

A Grécia tinha escolhido o caminho do sacrifício pela liberdade e pela sobrevivência. Fomos atacados sem razão e respondemos com solidariedade e resistência, e ganhámos. A mesma coisa que devemos fazer agora com a certeza de que o vencedor final será o povo grego. Esta mensagem envio à Sra. Merkel e ao Sr. Schäuble, declarando que permaneço sempre um amigo do Povo Alemão e admirador da sua grande contribuição à ciência, filosofia, arte e especialmente a música! E talvez o melhor exemplo disso seja que todo o meu trabalho musical foi entregue a 2 grandes editoras alemãs, Schott e Breitkopf, com as qual tenho uma óptima cooperação.

Ameaçam mandar a Grécia fora da Europa. Mas se a Europa não quer a Grécia uma vez, nos não queremos esta Europa de Merkel e Sarkozy 10 vezes.

Hoje é Domingo, 12 de Fevereiro. Estou a preparar-me para juntar-me com Manolis Glezos, o herói que derrubou a suástica da Acrópole, dando assim o sinal para o início não só da resistência grega contra Hitler, mas sim europeia. As praças e as nossas ruas ficarão cheias de centenas de milhares de cidadãos que irão expressar a raiva contra o governo e a troika. Ontem ouvi o nosso Primeiro-Ministro, o banqueiro, dizer que "chegamos à hora zero." Quem, no entanto, trouxe o País à hora zero em dois anos? As mesmas pessoas que em vez de estar na prisão, agora pedem para que os parlamentares assinem o novo acordo, pior que o primeiro, que será aplicado pelas mesmas pessoas com os mesmos métodos! Porquê? Porque assim manda o FMI e o Eurogrupo, caso contrário há a ameaça da falência. ...

Estamos a observar o teatro de paranóia. Todos estes cavalheiros, que, em essência, nos odeiam (Gregos e estrangeiros), que são os únicos responsáveis ​​pela situação dramática, ameaçam, dão ordem com o único objectivo de continuar o trabalho destrutivo, ou seja, até o nosso desaparecimento final.

Sobrevivemos durante séculos, em condições muito difíceis e é certo que se tratados com a violência, se levados com a força até o penúltimo passo antes da morte, os Gregos, não apenas irão sobreviver, mas irão renascer. Neste momento, toda a minha força é para a união dinâmica do povo grego. Estou a tentar convencê-los de que a troika e o FMI não são uma rua com sentido único. Que existem outras soluções. Também temos de olhar para a Rússia, para a cooperação económica, para a exploração das nossa riqueza mineral, em condições diferentes, em favor dos nossos interesses.

Quanto à Europa, proponho interromper a compra de armas da Alemanha e da França. E devemos fazer tudo que pudermos para obter o nosso dinheiro, que a Alemanha ainda não devolveu desde a guerra. Esta soma é agora de quase 500.000.000.000 €!

A única força que pode conseguir estas mudanças revolucionárias é o povo grego, unido numa grande frente de Resistência e Solidariedade, para livrar-se da troika (FMI e os bancos). Entretanto, devem ser considerados nulos todos os acordos ilegais (empréstimos, taxas de juros, impostos, etc.). Naturalmente, os seus colaboradores gregos, que já estão condenados na consciência popular como traidores, devem ser punidos.

Para a União de todas as pessoas estou a dedicar todas as minhas energias e acho que, no fim, iremos conseguir. Eu fiz a guerra com armas na mão contra a ocupação nazista. Eu conheci os subterrâneos da Gestapo. Eu estava condenado a morte pelos Alemães e estou vivo por milagre. Em 1967 fundei o PAM, a primeira organização de resistência contra os coronéis. Tenho agido ilegalmente contra a ditadura. Fiquei preso pela ditadura. No final, sobrevivi e ainda aqui estão.

Hoje tenho 87 anos e é muito provavelmente não serei capaz de ver a salvação da minha amada Pátria. Mas vou morrer com a minha consciência tranquila, porque ainda faço as minhas batalhas com os ideais de liberdade até o fim.

Fonte: Megachip
Tradução: Informação Incorrecta

1 comentário:

  1. maria24.2.12

    Encontrei um apelo bem interessante aos explorados povos da Europa meridional...explorados povos da Europa!? Nunca pensei, nem no meu mais remoto pesadelo, um dia escrever isso!
    ¡Es el Modelo de Dominio Neocolonial del Poder Privado, estúpido!
    ¿O usted cree que salo se trata de mala suerte, pésimo juicio y casualidad que un país tras otro -Grecia, Argentina, España, Italia, Portugal, Brasil, Méjico, Islandia, Irlanda, Rusia, Malasia, Ucrania, Indonesia, Corea del Sur, Tailandia, Francia, hasta EE. UU. y el Reino Unido– siempre, siempre toman demasiado dinero prestado de los banqueros para luego "descubrir" que no pueden pagar sus deudas y que – simétricamente- los mismos bancos globales –CitiCorp, HSBC, Deutsche, Commerz, BNP, Goldman Sachs, Bank of America, JPMorganChase, BBVA- siempre prestan demasiado dinero a esos países para luego "descubrir" que no pueden cobrar sus "deudas" en el plazo pactado?
    ¡No! Justamente, ese es el camino dorado que conduce a la Ciudad Esmeralda de "reestructuraciones de deuda", "refinanciamientos" y "mega canjes de bonos de deuda" que hacen que las mismas crezcan exponencialmente, hipotecando el futuro de generaciones enteras 20, 40 años en el futuro. Ello les depara gigantescas ganancias a los mega bancos y a todos esos simpáticos políticos, periodistas, multimedios, traders y brokers sin cuya ayuda y colaboración este fraude no podría realizarse.
    Se trata de un modelo. El mismo exige que esta infernal maquinaria siga rodando y rodando y rodando. A medida que esta Máquina Monstruosa avanza, pisotea, destruye, aplasta y aniquila a todo lo que encuentra en su camino: puestos de trabajo, trabajadores, servicios de salud, pensiones, sistemas educativos, seguridad nacional y prácticamente todo lo humano de este mundo. A los parásitos tecnócratas usureros que la conducen, nada les importa esta destrucción, pues carecen de toda ética; no tienen moral alguna, sea cristiana, musulmana o budista. Solo adoran a su dorado ídolo de la codicia y avaricia, solo les interesa el dinero, dinero y más dinero. Se trata de lo peor de la esclavitud al Poder del Dinero que impera en este terrible Siglo XXI
    Artículo completo en: http://actualidad.rt.com/mas/blogs/salbuchi/blog_36624.html?bn1r
    Abraços

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