01 fevereiro 2012

Do Proteccionismo - Parte II

Proteccionismo?

Ah, verdade: eis a segunda parte do artigo acerca do pensamento do economista Gael Giraud. Que diz o seguinte: diz que a União Europeia parece promover a economia 'verde', a transformação da economia no sentido ecológico-biológico, mais clean, mais renovável.

Tudo correcto, tudo muito bonito, impossível não concordar. Mas não é suficiente tentar vender alguns carros eléctricos (caros e com prestações ridículas) para tornar-se "verde", é preciso muito mais do que isso. E "muito mais" significa um plano de investimentos abrangentes, com infraestruturas e uma nova filosofia na produção.


Go green!

Podemos quantificar este investimento?
Geraud fala de 600 biliões de Euros, nada mal, sobretudo num continente onde alguns Países estão à beira da falência. Obrigar as empresas europeias a seguir critérios ecológicos numa altura em que as mercadorias delas fadigam cada vez mais num mercado global dominado pelos preços irrisórios da China (que está a borrifar-se, ecologicamente falando), representa meio caminho andado para o suicídio de massa.

Então nada de ambiente? Nada de green?
Giraud propõe uma solução, uma boa solução: uma taxa sobre os produtos importados.
Acrescento eu: dos Países que não se empenham numa produção mais "amiga" do meio ambiente.

Esta taxa poderia constituir uma boa base para a implementação de medidas ambientais eficazes, como por exemplo um apoio para a agricultura sustentável.

Uma Europa assim fortificada exportaria menos?
Então? Qual o problema? História, meus amigos, História. Nem a primeira revolução industrial da Inglaterra, nem os Estados Unidos, nem a Alemanha recorreram às exportações para fazer descolar as próprias economias. O sucesso da Alemanha, por exemplo, que está baseado nas exportações, é o fruto dos desequilíbrios no seio da UE, que penalizam os Países mediterrânicos: não é sustentável a longo prazo, não pode suportar uma competição com a China.

Mais: um cordão de direitos não significa desistir da competição. Pelo contrário, significa restabelecer as condições de concorrência leal no mercado europeu, actualmente não presentes, com as empresas estrangeiras que pretendem continuar a aproveitar o grande mercado europeu.

Porque apesar das dificuldades presentes, o mercado europeu continua a ser rico, até mais rico do homologo norte-americano. E onde há riqueza haverá sempre alguém com a intenção de conseguir um lucro. Por isso: re-localização das empresas, o contrário da diáspora dos últimos anos.

O proteccionismo vai diminuir o custo de vida ou o aumento dos preços dos produtos importados implicará produtos mais caros no geral?

Este é um falso problema: os baixos preços dos telefones celulares ou dos computadores asiáticos são uma ilusão. O que ganhamos na Europa de hoje como consumidores de produtos baratos, perdemos com salários mais baixos, desemprego, perda de capacidade produtiva, do tecido industrial. Os preços mais baratos dos produtos estrangeiros (nomeadamente asiáticos) são o Cavalo de Tróia que mina a civilização ocidental.

A protecção tarifária tornaria possível a recuperação dos salários, agora afectados brutalmente em toda a Europa, incluindo a Alemanha. Além disso, como mencionado acima, as empresas estrangeiras, para evitar as taxas de importação, deslocariam a produção para o interior do mercado europeu, tal como aconteceu com os Blackberry da Argentina ou o iPad, que a chinesa Foxconn concordou produzir no Brasil.

É dito que com taxas de importação haveria retaliações, sobretudo na China, com taxas sobre as exportações europeias. Sim, parece lógico. Mas não seria melhor fazer duas contas para calcular custos e benefícios?

As contas

Giraud tenta isso mesmo, utilizando a França como exemplo.

Em 2008, havia 100.000 empresas francesas que exportavam no exterior. Muitas? Não, não muitas: significa uma em cada 20 empresas, pois as outras 19 trabalhavam para o mercado nacional. Além disso, 1.000 destas empresas sozinhas forneciam 70% do volume do negócios de exportação, e eram os grandes grupos franceses ou os grupos estrangeiros com bases na França. A maioria das pequenas e médias empresas continuava a ter uma exportação muito limitada.

Mais: metade das pequenas e médias empresas exportadoras tinham como mercados-alvo Países da Europa, pelo que nunca poderiam ser prejudicadas por eventuais taxas de exportação. Apenas um quarto exportava para os Países emergentes.
Uma eventual reconversão "verde" criaria lugares de trabalho que facilmente poderiam absorver a perda provocadas pelas exportações.

Realmente penalizado na Europa seria o sector financeiro que, como sabemos, é o sector que impôs as "políticas" em favor daquele que agora passam como o evangelho do bom governo e que a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu quer ver aplicado: inflação baixa (o que é conveniente para os credores financeiros) e salários reais baixos.

Mas o sector financeiro produziu verdadeira riqueza ou, como afirma o economista Krugman, "tem extorquido valor em vez de criá-lo"?
Este sistema parasitário é o mesmo que criou a grande oferta do crédito, pela qual as famílias americanas ficaram endividadas até o pescoço para adquiri uma casa, com as consequências que estiveram na base da actual crise. É o mesmo sistema que agora pretende resolver os problemas com uma inflação artificialmente baixa, com cortes nos salários, com a impressão de dinheiro sem valor, etc. É esta uma verdadeira riqueza dum País ou dum continente qualquer?

Mais uma vez: história. Os Países europeus (e não só) conheceram períodos de crescimento (os "milagres económicos") em tempos de inflação relativa, isso é, não com a inflação controlada. No caso de Italia, por exemplo, o pequeno boom da década dos anos '80 aconteceu com uma inflação de dois dígitos. Inflação não é sempre sinonimo de desgraça, isso só acontece nas mentes doentes dos economistas contemporâneos.

A parede de tarifas permitiria uma flexibilização do salário rigoroso na Europa. Não devemos esquecer que os países europeus reuniram-se os seus períodos de crescimento, mesmo "milagre económico" em tempos de inflação relativa. O retorno financeiro se eles são mecanicamente erosão. Não é dito é um mal absoluto.

Por outro lado, qual o objectivo? Tornar os Países grandes exportadores? E porquê?
Na China, o consumo das famílias é inferior a 35% do PIB nacional, era de 50% em 1998. A massa salarial em 2010 a China foi de 48% do PIB, enquanto que era de 52% em 2001. É claro que as conquistas da China no mercado da globalização não são distribuídas aos seus trabalhadores, os Chineses consomem muito pouco.

É esta a sociedade que desejamos?

Mais humano

Antes da abertura aos mercados mundiais, a China tinha um sistema de saúde, rudimental mas universal: este foi abolido para aumentar a "vantagem competitiva", reduzindo ainda mais os custos de trabalho.

É contra esta lógica aberrante que as taxas de importação deveriam lutar. Não é saudável um mundo onde os Países da OPEP e a Rússia realizam 50% das exportações mundiais (era 27% em 1998): os Países precisam de cuidar do desenvolvimento interno, sem ficar paranóicos com as exportações a qualquer custo.

E sempre em tema de retaliações: já vimos como a China constitui uma taxa de 23% contra as importações de Boeing e Airbus, o Brasil coloca um direito de 30% nos carros importados, o Japão limita a importação de carros estrangeiros. As "retaliações" existem já, mesmo sem proteccionismo.

O proteccionismo foi banido pela globalização, transformado numa espécie de blasfémia. Os resultados estão debaixo dos olhos de todos. Os Estados Unidos, que pensavam ser os grandes favorecidos no novo sistema, descobrem ter perdido a competitividade, em favor dum País que não respeita as condições mínimas de trabalho e de dignidade humana, com a criação duma nova classe de escravos.

Os proteccionismo é actualmente a maneira mais eficaz para apostar numa indústria mais "verde", recuperar a capacidade produtiva do Ocidente, obrigar os Países como a China a adoptar políticas de desenvolvimentos mais humanas.


Ipse dixit.

Do Proteccionismo - Parte I

Fontes: New York Times, ContreInfo, Rischio Calcolato 

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