15 fevereiro 2012

Entrevista: Soros, o filantropo - Parte I

É sempre interessante ler uma entrevista de George Soros.

Vergonhosamente rico (Forbes calcula uns 14.000 milhões de Dólares), a vida dele dava para escrever um livro. Um livro do horror.

Mas nós gostamos dele assim, criminal, um dos mais iluminados exemplos de especulador, amigo da família Rockefeller, talvez traficante de estupefacientes (como afirmado pelo porta-voz do Parlamento dos Estados Unidos, Dennis Hastert), corruptor, membro do Council on Foreign Relations, do Open Society Institute, apoiante dos movimentos revolucionários da Ucrânia, Geórgia e Bielorrússia, e, naturalmente, filantropo. O homem que arruinou o Banco de Inglaterra.

Como afirmou o economista Paul Krugman em 1999:
Ninguém que tenha lido uma revista de negócios nos últimos anos pode ignorar que nesses dias existem investidores que não apenas movimentam dinheiro em antecipação duma crise como também fazem o melhor para desencadear a crise, para se divertir e obter lucros. Estes novos actores na cena ainda não têm uma definição, eu proponho o termo "Soroi ".


Não há dúvidas: George Soros é uma pessoa simpática.
Então vamos ler esta entrevista, publicada pelo jornal alemão Der Spiegel ainda nesta semana, na qual fala-se de Europa (primeira parte) e de outros assuntos (segunda parte). Mas não esperem de encontrar um monte de disparates. Pelo contrário: há afirmações sabias por aqui. É esta a grande capacidade dos criminais das pessoas simpáticas como Soros.

Entrevista comprida? Sim, e vais ser divididas em duas partes.
Vale a pena: afinal Soros é um dos poucos que realmente decide o rumo das nossas vidas.
Parte 1
Angela Merkel conduz a Europa na direcção errada

Spiegel: A chanceler alemã, Angela Merkel, é elogiada em todo o mundo como "a Senhora Europa" e na Alemanha é mais popular do que nunca nas sondagens, graças à sua recusa em comprometer mais dinheiro nas operações de resgate do Euro. Porque acha que as políticas delas estão erradas?

Soros: Eu admiro a Chancelera Angela Merkel pelas suas capacidades de liderança, mas está a conduzir a Europa direcção errada. Para resolver a crise do Euro precisamos duma política em duas fases: a primeira das quais é de austeridade e de reformas estruturais, como a Alemanha fez em 2005; em seguida, os programas de estimulação económica. Sem a capacidade de fornecer mais incentivos na Europa, muitos Países europeus serão empurrado na espiral deflacionária da dívida. E isso seria extremamente perigoso.

Spiegel: As novas directrizes de austeridade em Países como Espanha, Itália ou Grécia, parecem muito difícil de implementar?

Soros: Estas medidas criam um círculo vicioso. Os Países deficitários devem melhorar a posição competitiva em relação à Alemanha, o que irá reduzir os seus défices orçamentais e os salários. Numa economia fraca, as margens de lucro vão cair ainda mais. Isso resultará em menores receitas fiscais e em necessárias medidas adicionais de austeridade, criando um círculo vicioso.

Os mercados não corrigem os seus próprios excessos. Ou há uma procura demasiado forte ou demasiado fraca. Isto é o que disse o economista John Maynard Keynes, embora algumas pessoas na Alemanha não querem ter isso em conta. Mas Keynes explicou isso muito bem: quando houver deficiência na procura, é precisa a intervenção do governo para estimular a economia.

Spiegel: No final, dado que o País economicamente forte, seria a Alemanha a fazer a maior contribuição para os programas de recuperação económica. Muitos Alemães já não acreditam que seja a coisa justa. Porque os Alemães hoje devem continuar a dar mais dinheiro aos Países que têm flagrantemente violados os critérios de estabilidade do Euro?

Soros: A posição de Berlim é legítima. Mas não muito correta, porque a Alemanha foi um dos primeiros Países a quebrar as regras da Zona Euro.

Spiegel: A Alemanha violou o limite de 3% do défice orçamental um par de vezes, enquanto a Grécia tem sistematicamente mentido sobre o próprio orçamento. Realmente acha que os dois possam ser comparados?

Soros: Os Alemães não são inocentes. Todos têm quebrado as regras do Pacto de Estabilidade, o que significa que não existem mecanismos eficazes de aplicação das regras existentes.

Spiegel: Porque acha correcto fornecer mais dinheiro aos Países em crise?

Soros: Nós fazemos uma distinção entre a Grécia e o resto da Zona Euro. A Grécia é um caso especial, aquele em que tudo o que poderia ter dado errado aconteceu. Os Gregos abusaram de todas as maneiras possíveis dos benefícios de ser um País membro da União Europeia.

Quando o (ex) primeiro-ministro Georgeos Papandreou foi eleito com um programa de reforma e revelou os abusos do governo anterior, teve de pagar altas taxas de juros para salvar a Grécia. Ele fez o seu melhor, mas não foi suficiente e, desde então, a dinâmica política deteriorou-se irremediavelmente. As poderosas lobbies económicas, que possuem muitos jornais, querem pagar os juros em Dracma. O resto da Europa tem-se comportado muito melhor. A Espanha, por exemplo, encerrou o boom imobiliário com um rácio de endividamento menor e agora tem um sistema bancário controlado melhor do que a Alemanha.

Spiegel: O governo alemão argumenta que é apenas através da aplicação de altas taxas de juros que os Países em crise podem ser induzidos a empreender as reformas difíceis mas necessárias. Por outro lado, se outros Estados fornecerem ainda mais ajuda, as taxas de juros baixam e também a "pressão" sobre os Países que devem implementar as reformas. O que há de errado com isso?

Soros: Hoje o maior problema não é o fracasso dos políticos gregos ou italianos, mas o "peso" das taxas de juros elevadas. O exemplo da Grécia mostra isso. A Alemanha tem tratado mal a operação de resgate, forneceu ajuda com taxas de juros elevadas que levaram ao aumento do endividamento grego. É por isso que hoje a Grécia não pode ser salva.

Spiegel: Mas foi precisamente a abundância de "dinheiro barato" a causa da última crise financeira. Não corremos o risco de repetir o erro cometido com mais biliões de dinheiro novo nos Países em crise?

Soros: Eu sei que soa como se fosse exactamente o mesmo erro. Mas compararmos a situação dos mercados financeiros globais a um carro que desvia. Quando um carro deslizar, primeiro é preciso orientar a direcção no sentido do deslize. E então, depois de recuperar o controle, podemos corrigir a direcção. Vivemos 25 anos de economia global em expansão. E então a queda do Outono de 2008. Os mercados financeiros efectivamente entraram em colapso e tinham que ser reanimados com uma intervenção maciça do governo.

A crise do Euro é uma continuação directa ou uma consequência directa da queda de 2008. Esta crise ainda não acabou e por um longo tempo teremos que investir mais dinheiro público para parar o deslize. Só depois será possível mudar de direcção. Caso contrário, iremos repetir os erros cometidos na América ao precipitar na Grande Depressão de 1929. Angela Merkel simplesmente não entende isso.

Spiegel: Por meio dos seus fundos investiu biliões nos mercados financeiros. É legítima a suspeita de que os seus aconselhamentos para sair da crise tente mais salvaguardar os seus interesses.

Soros: Olhe, eu entendo as suspeitas, e penso que a sua é uma pergunta legítima. No entanto, eu casei-me com o princípio de que dar conselhos não é em prol dos meus interesses pessoais, mas interesses comuns. E acho que é especialmente verdadeiro neste assunto.

Spiegel: Mas "empurra" para reduzir as taxas de juro ou para o acesso ao "dinheiro barato", por exemplo. Ambos os casos iriam ajudá-lo enquanto investidor.

Soros: Isso é verdade. Mas ajudaria todos os investidores e permitiria proteger o sistema financeiro mundial. Neste sentido, preocupo-me com os meus próprios interesses. Mas também estou aposentado e não acho que vou continuar a gerir a finança ao longo de muito tempo ainda. No entanto, acho que entendo o sistema financeiro melhor do que muitas pessoas que estão agora no governo. E então, como cidadão, parece-me normal tentar dar conselhos.

Eu não estou a dizer que apoio as políticas que me fazem ganhar. Colocar o bem público na frente dos meus interesses privados é uma questão de princípio para mim.


A segunda parte da entrevista? Fica neste link.


Ipse dixit.

2 comentários:

  1. pai natal15.2.12

    a ultima frase da primeira parte da entrevista é simplesmente uma pérola...

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  2. rafael15.2.12

    hehe, o sr. soros parece um cara bonzinho afinal!

    max queria pedir uma ajuda, estou a procurar um artigo q se bem lembro foi postado nesse blog, nele, um pensador dizia q as medidas de austeridade nunca vao promover o resgate da economia, sera q alguem lembra?

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