27 fevereiro 2012

O petróleo - Parte III: O fim do petróleo

Vimos o petróleo biogénico, o petróleo abiogénico; vimos a teoria de Hubbert e o pico do petróleo.
Mas que aconteceria se o ouro negro acabasse?

Ao deixar uma grande cidade qualquer, atravessamos quilómetros de bairros dormitórios: aglomerados crescidos à volta das cidades, onde as pessoas voltam à noite para descansar.
Muitas vezes são lugares anónimos, com péssimos serviços e preços baratos, muito mais baratos do que os homólogos da cidade.
Tudo isso desapareceria se o petróleo acabasse.

O Capitalismo globalizado, o actual sistema de consumo ilimitado, propiciou altas concentrações de pessoas nas grandes cidades, muitas vezes mal planeadas em relação às necessidades básicas dos cidadãos. Um êxodo rural que é bem documentado, o desenvolvimento paralelo da Revolução Industrial, que ocorreu na segunda metade do século XX.


Esta migração favoreceu o crescimento das cidades ao redor do mundo: o surgimento de aglomerações, megalópoles, as chamadas comunidades-dormitório e até mesmo a presença de periféricos bairros marginais, onde sobrevivem os "párias" do sistema.

Na verdade, o estereótipo da grande cidade, com estradas congestionadas por carros, arranha-céus e lojas cheias de estilo, é um dos protótipos que a indústria cinematográfica e os meios de comunicação alimentaram como um símbolo de progresso. É um dos padrões da globalização: uma definição de como cada um de nós deve viver para ficar rico, civilizado, ocidental.

Naturalmente não passa disso, dum protótipo: os habitantes da zona de Lisboa podem visitar um bairro como  Baixa da Banheira para perceber qual a realidade. Nada de lojas com estilo, nada de arranha-céus: sobra apenas o trânsito e prédios que caem em pedaços, numa zona cujo crescimento ignorou os elementos básicos para que um lugar possa ser definido como "habitável".

Mas sem recorrer a exemplos extremos como Baixa da Banheira, é suficiente observar as muitas localidades perto de Lisboa: Loures, Odivelas, Cacém, Rinchoa, Massamá, São Marcos. Todas as grandes cidades do mundo têm bairros como estes.

São "cidades nas cidades", que podem entrar em colapso de repente, quase dum dia para outro.
Mas um passo de cada vez.

Porque sai água?

Espreitemos as notícias dos últimos meses: Iraque, Líbia, Irão. Que têm em comum estes Países? O petróleo. Não apenas o petróleo, claro, há muito mais do que isso. Mas sabemos que a corrida para a posse das maiores explorações petrolíferas não é coisa nova.

Em ordem cronológica, temos Líbia e Irão que, além do ouro negro, têm outra riqueza: o gás. Pode ser este um dos novos objectivos do Império? Pode bem ser, sobretudo se a teoria do Peak Oil estivesse certa. E o gás pode ser , com algumas limitações, o próximo "petróleo", indispensável para que os Estados possam continuar a fornecer os serviços básicos: como um bom hospital, como uma rede eléctrica, uma escola funcional.

Coisas que encontramos nas grandes cidades. Não que nas aldeias não existam: só que numa aldeia é normal ter o ensino básico, um hospital no raio de poucas dezenas de quilómetros, uma ligação internet mais fraca.

E aqui encontramos um paradoxo: no contexto duma possível crise energética, o nosso estilo de vida pode mudar radicalmente dependendo do lugar onde vivemos. De repente, o que antes oferecia oportunidades, conforto e escolha, pode tornar-se um problema, um beco sem saída. O Estado social entra em risco e, talvez, terá de ser profundamente redefinido.

Pensemos nas "pequenas" coisas do mundo urbano de hoje. Porque há as sedes das grandes empresas internacionais nas nossas cidades? Porque temos a fibra óptica? Porque podemos comprar frutas da Ásia ou porque ao abrir a torneira sai água? Estamos todos urbanizados, adaptados ao que a cidade oferece, sem parar para pensar acerca da razão de tudo isso, porque as coisas são assim.

Parar e pensar significa ficar preocupado: porque este mundo urbano é intolerável castelo de papel construído com energia abundante e barata. E esta energia tem um nome: petróleo.

O mundo do petróleo e o tecno-optimismo

As pessoas pegam no carro para ir trabalhar, e pegar no carro significa utilizar petróleo.
Os alimentos vêm de longe, como muitos outros produtos, chegam a bordo de camiões ou de navios de grande porte que percorrem as vias marítimas. Isso é: petróleo.

Tudo este crescimento, neste estranho período da história humana, é possível graças aos produtos petrolíferos, abundantes e baratos. Por enquanto. Mas se assim deixasse de ser?

O nosso tecno-optimismo não deixa ver outra das possibilidades: as metrópoles tornadas insustentáveis, sem possibilidade dum adequado abastecimento. Nada de água, nada de roupa, nada de comida ou serviços básicos.  Para que isso aconteça não é precisa uma guerra: é só deixar acabar o petróleo.

A Agência Catalana del Agua (Espanha) tem a responsabilidade de sanear as águas da Catalunha. Mas em tempos de crise já não há o dinheiro suficiente para adquirir os produtos químicos derivados do petróleo e utilizados nas obras de saneamento: Esa interrupción podría incidir "de forma especial en el saneamiento de las aguas residuales" y crear una eventual situación que comportaría graves afecciones en los ríos y abastecimientos, "poniendo en riesgo la salud de la población" é possível ler no relato do diário La Vanguarda. E volta o espectro da cólera, algo esquecido ao longo de muito tempo.

Vimos quais os pontos fracos das grandes cidades. Mas que dizer das aldeias? Ou das ilhas?
Na verdade a situação não tão melhor, porque também aí a vida foi adaptada aos recursos energéticos abundantes e baratos: quem cultiva hoje em dia sem máquinas agrícolas, sem pesticidas, sem anti-parasitários? Quem vive sem electricidade? Sem aquecimento? Sem telefones? Sem internet? Resposta: poucos, muito poucos.

O petróleo, com os seus produtos derivados, tomou conta da nossa sociedade, não apenas nos grandes aglomerados urbanos mas até nas campanhas, onde deveria ser mais próximo o contacto com soluções naturais.

E tudo isso sem considerar um outro aspecto: as guerras. Porque passar dum sistema baseado nos hidrocarbonetos para outro (mas qual?) requer tempo, e em caso de crise petrolífera final  seriam as necessidades impelentes a ditar as escolhas políticas e militares.

Países com reservas de petróleo, para os quais a guerra é hoje algo de distante, podem tornar-se um possível alvo amanhã, com consequências catastróficas que é possível apenas vislumbrar.

E sem pensar em choques entre Nações, podemos pensar nas revoltas que surgiriam por causa da escassez de géneros de primeira necessidades. Pensemos por exemplo na falta duma coisa tão simples como o pão. No post anterior vimos como a simples subida do preço dum metal como o cobre (que ainda não está acabado) pode determinar roubos e até mortes. E o cobre não está na base da nossa sociedade, tal como acontece com o petróleo.

Cidades mais pequenas

Mas esquecemos o assunto violência por enquanto e vamos falar de assuntos mais próximos.
Discutir qual poderia ser o volume ideal de pessoas que vivem numa cidade pode ser inútil: a natureza humana e o nosso mundo heterogéneo encontrarão soluções diferentes nos vários casos. Em cada região, dependendo do estilo de vida dos cidadãos, será possível acomodar um número determinado de pessoas, com mais ou menos dignidade.

As grandes cidades serão provavelmente divididas em distritos ou bairros mais independentes, mais ou menos capazes de gerir a própria condição de forma autónoma. Neste aspecto, muito dependerá da capacidade de cooperar para resolver os problemas ligados à comida, aos serviços, ao trabalho.

Normal será a redução de habitantes das grandes cidades, dada a reduzida capacidade destas em proporcionar elementos básicos pela sobrevivência da pessoas. O que cria um grande problema: qual o destino de quem decidirá abandonar as cidades? "A campanha" parece ser a resposta mais óbvia, como se isso fosse simples...
Também normal prever a desertificação de áreas que hoje conseguem acomodar grandes comunidades apenas graças aos serviços como a distribuição de água potável. Mas este é apenas um dos problemas: o tratamento das fossas sépticas será também uma prioridade.

Um cenário demasiado pessimista? Ou distante no tempo?

A verdade é que ninguém tem a resposta definitiva: ninguém sabe ao certo se o petróleo for um recurso limitado ou não, ninguém sabe ao certo quanto petróleo estará disponível ao longo de quanto tempo. A única coisa que sabemos, com certeza absoluta, é que o nosso mundo é actualmente indissoluvelmente ligado ao petróleo a aos derivados dele. E que o fim deste recurso significaria o fim do mundo tal como conhecido até hoje, pois uma fonte de energia tão barata, tão difundida e com as mesmas potencialidade ainda não existe (nem o gás).

Então, que fazer? Afinal poucos tratam destes problemas, escassas são as notícias nos media; e isso apesar destas considerações nascer duma pergunta simples e natural: e se o petróleo acabasse?

A solução é complicadamente simples: mudar os nosso hábitos. Começar a reestruturar as cidades, os serviços, enfatizar a procura de fontes de energias alternativas, reaproximar-se dos princípios básico da Natureza. Os mesmo que o Homem utilizou ao longo de milhares de anos para viver, antes da exploração do petróleo.

Como afirmado: complicadamente simples.


Ipse dixit.

Relacionados:
O petróleo - Parte I
O petróleo - Parte II

Fontes: La Vanguardia, CrashOil

4 comentários:

  1. Anónimo27.2.12

    Parabens por este artigo.

    Ultimamente tenho orientado o meu pensamento no sentido de simplificar o meu modo de vida. Mas está dificil de me libertar do sistema ao ponto que eu desejava. Há que resolver antes os compromissos pendentes, e a época actual não o facilita.

    Nasci numa aldeia pequena, e apesar de viver fora dela há mais de 3 décadas conheço e compreendo o significado de uma vida mais simples. Este é para mim o aspecto mais positivo do eventual fim do petróleo. A grande dúvida reside nos aspectos negativos de um evento desta magnitude.

    Abraço
    Krowler

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  2. Anónimo27.2.12

    sr. max,
    penso que se deveria incluir na equação a inflexão da curva do crescimento populacional no mundo todo.
    logo haverá menos gente que agora.
    ai conheceremos uma mudança mais importante, para a qual não se está preparado.
    o modelo que conhecemos está centrado no crescimento populacional. como será na hora que diminuirem as pressões sobre os recursos do planeta?
    emerson57

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  3. Bruno António1.3.12

    Parabéns Max , uma boa reflexão sobre o petróleo, algo que quase tratamos como banal, julgamos um dado adquirido e mais uma das nossas comodidades, na verdade esta é a comodidade maior, uma raça de outro planeta poderia facilmente descrever-nos como “ o bichinho do petróleo” pois neste mundo tudo assenta no petróleo, um outro assunto que me desperta tanto ou mais interesse é : as alternativas ao petróleo e as suas reais possibilidades…tenho pesquisado em vários sites e blogs mas não parece haver consenso, apenas um, de que, não há uma credível alternativa ao petróleo, de facto o petróleo merecia ser adorado como um deus …

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  4. Caro Max,

    Muito bom artigo. Penso que o problema é real, e há muita gente preocupada com o assunto. O problema não é tanto o desaparecimento do petróleo, mas a escassez de petróleo barato. Cada vez é mais pesada a relação custo-benefício da extracção do ouro negro. Quando deixar de haver petróleo barato, toda a nossa economia vai implodir. Quando é que atingiremos o ponto crítico? Há quem o preveja para daqui a dez ou vinte anos...

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