08 fevereiro 2012

O simpático mundo de Angela Merkel

Acabámos de entrar num novo mundo.

Neste mundo, imaginado pela chancelera alemã Angela Merkel, as pessoas vivem em humildes cabanas, percorrem trilhos que ligam as longínquas aldeias e quando encontrarem um rio...bom, ou voltam atrás ou arriscam a vida, pois de pontes nem a sombra.

Provavelmente são as lembranças da juventude da chancelera, quando com a sua manta vermelha corria feliz entre as árvores da Floresta Negra para alcançar a cabana onde vivia a avó. Preocupa que estas lembranças agora se tornem uma visão económica.

Ao falar aos alunos da Bela Foundation de Berlim, a simpática Angela disse:
Quem já esteve na Madeira, pôde ver para onde foram os fundos estruturais europeus. Há muitos túneis e auto-estradas bonitas, mas isso não contribuiu para que haja mais competitividade
Na opinião de Merkel, os referidos fundos devem servir para apoiar as pequenas e médias empresas, por exemplo, como ficou decidido no recente Conselho Europeu, em Bruxelas, e não mais para construir estradas, pontes e túneis, como sucedeu, na sua opinião, naquela região autónoma portuguesa.


Agora, eu não gosto nada do governador da ilha, Alberto João Jardim, que tem um conceito de democracia bastante parecido com aquele do Don Vito Corleone interpretado por Marlon Brando. Mas se houver uma coisa que Jardim fez foi melhorar as infraestruturas da Madeira.

Podemos discutir acerca das motivações de Jardim, podemos afirmar que com as infraestruturas o presidente recolheu os votos necessários para manter-se em função desde 1978. Mas ninguém pode negar que a Madeira hoje apresenta obra feita: as infraestruturas existem e com certeza facilitam (e de que maneira) a actividade das empresas locais.

Porque nem podemos esquecer que ajudar uma empresa não significa apenas pô-la em condição de produzir: após o processo de produção, é preciso que a mercadoria possa circular e alcançar os mercados.
A bem ver, o único papel determinante dum político neste sentido é assegurar a existência de tais estruturas, pois da produção trata o empresário.

Na óptica da simpática Angela, pelo contrário, a classe política tem o dever de "criar empregos e crescimento económico", como afirmado na proposta apresentada em conjunto com a França no início deste mês. Mas qual o sentido da criação de emprego por parte dos Estados? Como pode um político favorecer o crescimento económico? Porque não podemos ignorar que a simpática Angela é a mesma pessoa que apoia as medidas draconianas na Grécia, com cortes no sector público, nos salários e nas reformas, privatização dos serviços.

Então, Portugal (outro País falido, tal como a Grécia) tem que abdicar das infraestruturas, despedir milhares de trabalhadores e ao mesmo tempo "gerar emprego"? A competitividade não passa pelas infraestruturas fornecidas pelo Estado?

Não seria mal ouvir a descrição deste fantástico mundo que existe na cabezinha da chancelera. De certeza deve ser um mundo bem interessante e até divertido.


Ipse dixit.

Fontes: Público

5 comentários:

  1. Bruno António8.2.12

    Estimado Max, dizer que Alberto Jardim tem “obra feita” é o mesmo que dizer que Isaltino Morais tem “obra feita” e depois? Esquecemo-nos por acaso que essa obra feita esta longe de ser paga e que a demonstração do custo / beneficio com os juros acrescidos esta por demonstrar?
    Cimentar e alcatroar não é sinónimo de desenvolvimento, facilita o desenvolvimento? Com toda a certeza! Mas não estaremos a confundir o essencial que é o desenvolvimento sustentado da economia com os auxílios ao desenvolvimento da economia? Investir mais nas infra-estruturas de apoio ao desenvolvimento, do que investir no desenvolvimento sustentado da economia é um erro, é como começar a casa pelo telhado, que apenas serve desejos populistas, os centros comerciais a estrear e já abandonados que existem na Madeira são disso bom exemplo, tal como os centros sociais ( sem dinheiro para pagar aos funcionários) e marinas que custaram exorbitâncias (mal estruturadas e votadas ao abandono) lamento discordar, isto vai doer…mas a Ângela, com todos os defeitos que possa ter, não esta longe da verdade, o “jardinismo” é um regime ” sui generis “ e um exemplo de como não se deve gerir a coisa publica, as obras foram dirigidas ao turismo e esqueceram todos os outros sectores da economia…o turismo e aos serviços é um bom complemento económico mas ter uma economia baseada no turismo e nos serviços é uma fatalidade á espera de acontecer, a ocultação das contas e o malabarismo financeiro que permitiu essas construções faraónicas são uma traição aos contribuintes. Alem disso a insularidade da Madeira é auxiliada com uma baixa de impostos, facilidades administrativas, e ausência de portagens entre outras. Tenho muita estimação pelos madeirenses, durante quase 3 anos trataram-me com todo o respeito e consideração que não posso nem quero esquecer, tenho lá muitos amigos mas digo-lhes, tal como digo agora, o povo madeirense merecia ser melhor governado.

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  2. Olá Bruno!

    Repito: não tenho simpatia nenhuma por Alberto João Jardim, que considero um oportunista "saloio" e nada mais.

    Mas atenção: a Madeira era o que é hoje antes das obras que o Jardim permitiu? Obras, repare-se, que tiveram a aprovação de Bruxelas ao longo dos últimos anos.

    "a demonstração do custo / beneficio com os juros acrescidos esta por demonstrar?".
    Fico com muitas dúvidas acerca desta afirmação: não tenho dados, mas é simples imaginar que uma localidade bem servida em termos de infraestruturas vê a tarefa das próprias empresas facilitada.

    "Investir mais nas infra-estruturas de apoio ao desenvolvimento, do que investir no desenvolvimento sustentado da economia é um erro".
    Bruno, pode fazer um exemplo de político que investiu no desenvolvimento sustentado? Esta é uma crítica que interessa todas as realidades políticas, não a Madeira me particular.

    "mas a Ângela, com todos os defeitos que possa ter, não esta longe da verdade, o “jardinismo” é um regime ” sui generis “ e um exemplo de como não se deve gerir a coisa publica".
    Concordo, o "jardinismo" não é a maneira de fazer política, mas não é esta a crítica que a simpática Angela fez.

    "As obras foram dirigidas ao turismo e esqueceram todos os outros sectores da economia…o turismo e aos serviços é um bom complemento económico mas ter uma economia baseada no turismo e nos serviços é uma fatalidade à espera de acontecer, a ocultação das contas e o malabarismo financeiro que permitiu essas construções faraónicas são uma traição aos contribuintes".

    Bruno, dizer que o turismo é um bom "complemento" pode ser correcto no caso da Alemanha, mas num País como Portugal é um dos eixos centrais da economia.
    Ocultação das contas, malabarismo financeiro que permite construções faraónicas? Mas está a falar de quê? Da sede da Caixa em Lisboa, ao estilo Antigo Egipto? Ou das contas dos políticos de Portugal continental?

    Onde quero chegar é que não consigo encontrar em Jardim algo de tanto pior quando comparado com os políticos do Continente. Lamento, mas se o País está no estado em que está, a culpa não é exclusivamente de Jardim.

    Mas as críticas da Merkel são graves também por outros motivos (no comentário a seguir por questões de espaço).

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  3. Angela Merkel, longe de convidar para uma economia sustentável, desfrutou uma nova ocasião para difundir as próprias mais recentes ideias, segundo as quais nos Países em dificuldade (como Portugal) os serviços e os investimentos devem ser cortados.

    O dinheiro gasto nas infraestruturas (que depois serão desfrutadas também pelos cidadãos) é torna-do um mero desperdício.

    "Há muitos túneis e auto-estradas bonitas, mas isso não contribuiu para que haja mais competitividade" afirma a chancelera. Além da estupidez da afirmação em si (desde quando novas infraestruturas não facilitam as trocas comerciais?), não explica com quais modalidades a Madeira (por exemplo) poderia ter desfrutado os fundos comunitários para ajudar a economia.

    Porque a ideia de "economia sustentável" aparece no comentário de Bruno, não nas palavras da Merkel. A qual poderia ter feito algo de sério ao falar da Madeira: criticar a existência e pedir o fim da Zona Franca, que torna a ilha num paraíso fiscal.

    Mas a simpática Angela preferiu abordar outros assuntos, os mesmos que gosta de divulgar ao falar da Grécia e dos outros Países em dificuldades: austeridade.

    É esta a maneira para ajudar a economia? Suspeito que na Grécia nem todos estejam de acordo.

    Nem uma palavra referida à vergonha do offshore madeirense: apenas críticas contra as infraestruturas.

    Porquê será?

    Abraço!!!

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  4. Bruno António8.2.12

    Estimado Max: As obras transformaram a Madeira para muito melhor, é inegável, mas o que permitiu as obras não foi a politica de jardim, foi a abundância de dinheiro ( e essencialmente a armadilha da abundância de credito) é fácil governar em tempos de abundância, mas duvido que ele se tenha preparado para um tempo de "vacas magras",mas quem vai pagar não é ele são essencialmente os madeirenses pobres. Exemplo de politico que nos últimos trinta anos investisse a sério no desenvolvimento sustentado...nenhum!!! Houve antes disso mas é melhor nem ir por ai (...) E verdade que boas infra-estruturas facilitam as trocas comerciais, mas e o que é que há para trocar se pouco ou nada se produz? Creio que investir menos em centros comerciais e outras superfluidades e um pouco mais na agricultura e nas pescas teria sido um ponto de equilíbrio que faria agora toda a diferença ( a tal sustentabilidade) o ponto da minha questão é : A Sr.ª Ângela pode ser a encarnação do demónio mas não vou defender a politica de Jardim porque ela o atacou! Embora concorde que o fez pelas razões menos importantes. Criticarei a Sr.ª Ângela por outras razões, não por estas, porque ver a Ângela a atacar o Jardim é no fundo:” ladrão que rouba ladrão” (com o devido respeito) Jardim…( ”roubou = hipotecou” o futuro dos Madeirenses) Não faço futurologia e desejo sinceramente estar errado.
    Um abraço.

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  5. Lolol, tranquilo Bruno, não vou ser eu o advogado de Jardim, cuja figura enerva-me bastante. Até quando ele abrir boca: aí mudo de canal.

    Afinal partilhamos muitas ideias, só que partimos de dois pontos diferentes.

    A ideia de apoiar a agricultura e a pesca encontra-me totalmente de acordo. Aliás, acho que uma das culpas mais graves desta União Europeia foi mesmo ter comprometido estas actividades, talvez de forma irremediável em alguns casos.

    Jardim é parte do sistema (”ladrão que rouba ladrão”, é isso mesmo) do qual infelizmente faz parte a quase totalidade dos políticos não apenas portugueses. E digo "quase" pois tenho sempre a esperança que alguém tenha ainda alguns princípios e um mínimo de dignidade (mas, como dizemos em Italia: quem de esperança vive, desesperado morre...).

    Quanto ao futuro da Madeira: não sei, até quando estiver Jardim não consigo ver grandes mudanças, mas pode ser que o mesmo Jardim venha a ser ultrapassado pelos acontecimentos. É que a situação de Portugal é bastante grave, tal como acontece com outras economias: duvido que o País possa continuar nos actuais moldes sem uma intervenção ao nível da dívida. De certeza não será com a austeridade que será possível sair desta. Mas esta é toda outra história...

    Queria, pelo contrário, desfrutar a ocasião para realçar o seguinte: Jardim foi eleito e reeleito muitas vezes ininterruptamente; Isaltino Morais tem o apoio da população apesar de serem evidentes os repetidos roubos; Fatima Felgueira (o "saco azul") foi também reeleita na altura.

    Cada vez que penso nisso fico espantado. Simplesmente não entendo. Será que temos o que merecemos? É esta uma conclusão profundamente amarga, que nunca gostaria de escrever.

    Abraço!!!

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