05 março 2012

Fortunae plango vulnera

Azo falar de Nova Grande Depressão, os Leitores podem ficar surpreendidos.
Ainda não ficaram envolvidos ou atingidos directamente pelas consequências e pensam que nada disso poderia acontecer.

Mesmo assim poderia ser suficiente pouco.

Noutro dia estava no interior dum supermercado, à espera na fila da caixa. Olhava a minha volta e pensava: tudo isso acabaria no prazo de poucas horas, seria suficiente não ter petróleo. Nada de produtos nas embalagens de plástico, nada de expositores cheios, nada de entregas de mercadorias, nada de electricidade para iluminar ou para fazer funcionar os leitores ópticos. Só escuridão.

Mas, simplesmente, não pensamos nisso.

Nada de novo, em boa verdade: é a História que, como sempre, gosta de repetir-se. Nós, totalmente estupidificados pelas mensagens dos media, não temos olhos para ver.



A queda do Império

Há, por exemplo, semelhanças marcantes entre os tempos actuais e a desintegração do Império Romano.

Os cidadãos romanos tinham ficado acostumados a paz: ao longo de gerações nunca experimentaram a guerra, muito menos participado nela. Estavam convencidos de que os rumores de guerra nas margens do Reno e do Danúbio não passassem disso: ecos de coisas longínquas, coisas com as quais nada tinham em comum. Já nem sabiam onde fossem aqueles dois rios: tinham esquecido o sangue derramado profusamente para a construção do Império Romano, e não querem entender quanto ainda corria para tentar defender as fronteiras cada vez mais insustentável.

Não só. Os cidadãos romanos após 15 gerações estavam acostumados a considerar-se por direito quais senhores do mundo, em que todos os outros eram nada mais de que figuras segundarias. Era um direito adquirido, uma lei pré-estabelecida, quem poderia ter posto tudo em causa?

Não havia romanos a trabalhar nos campos. Os Romanos agora eram pessoas cultas, religiosas, com um nível de vida bastante elevado.

Mais tarde, na balada medieval Fortunae plango vulnera, a moral:

Fortunae rota volvitur;
descendo minoratus;
alter in altum tollitur;
nimis exaltatus
rex sedet in vertice
caveat ruinam!
nam sub axe legimus
Hecubam reginam.


A roda da Fortuna gira/eu desço cada vez mais/outro é levado para cima/lá no topo senta o rei/que tema a ruína!/pois sob o eixo da roda lemos/Hécuba rainha.
A queda do Império (Reload)
Agora observem as imagens à direita: mostram o que acontece na Grécia nestes dias.
Pessoas na fila para comprar batatas por 0,25 Euros ao quilo em vez do 0,93, o preço dos supermercados. Não são cenas do Terceiro Mundo, são fotografias tirada na Velha Europa. 

Washington Post do dia 1 de Março:
Tudo começou na semana passada, quando um produtor da área de Nevrokopi, farto de vender em perda, descarregou 24 toneladas a preços de custo directamente ao consumidor, na cidade de Katerini. Agora tem sido submergido pela procura.

Lefteris Kessopoulos disse na Quinta-feira que foi contactado por grupos de residentes de Atenas, das cidades do norte de Kavala e de Larissa, mesmo de Pyrgos, 1.000 quilómetros ao sul de Nevrokopi.
Estamos a receber telefonemas de toda a Grécia
 Depois de mais de dois anos de profunda crise, imposta para manter o País à tona depois de décadas de gastos governamentais, a Grécia parece estar encaminhada para o colapso social. Os rendimentos caíram drasticamente, uma em cada cinco trabalhadores está desempregado (o dobro dos números pré-crise) e despesas do Estado em sectores cruciais como saúde e educação têm sido cortada.

O País sobrevive com os empréstimos internacionais desde Maio de 2010.
 
Docentes e estudantes da Universidade de Salónica organizaram um grupo de agricultores de Nevrokopi para vender 50 toneladas, na Sexta-feira, no campus. O preço é de € 0,25 ao quilo, quase um terço dos € 0,70 pedidos pelos supermercados.
 
Vendas semelhantes estão programadas em várias cidades ao longo dos próximos dias, enquanto alguns grupos estão a tentar organizar negócios com produtores de azeite na ilha de Creta.
Os agricultores de Nevrokopi dizem que custa cerca de € 0,20 produzir um quilo de batatas, mas que os grossistas só compram por € 0,10-0,12. Perante os prejuízos, muitos produtores dizem que nem conseguem levar os produtos para o mercado.[...]
 
Cada vez mais pessoas têm aparecidos nas cozinhas da igreja ou dos grupos de ajuda locais, e os sem-abrigo tem vindo a aumentar.
No norte da cidade de Drama, perto Nevrokopi, uma associação de consumidores e está a organizar uma venda de 20 toneladas de batatas no Sábado. O líder George Savridis:
É hora de empurrar os aproveitadores para fora do mercado. Desta forma, estamos a ajudar os produtores de batata, mas também os consumidores que estão a ter um momento difícil devido à crise.
Kessopoulos, o produtor, diz que as grandes cadeias de revenda começaram a oferecer aos agricultores preços mais altos, mas a melhor oferta, € 0,17 por quilo, ainda está muito abaixo dos custos de produção.

Esta é Europa, meus senhores, este é o mercado do infinito crescimento.


Ipse dixit.


Fontes: Rischio Calcolato, Washington Post.

1 comentário:

  1. Identificamos um padrão que nos permitirá "prever" alguns acontecimentos: a repetição cíclica da história. Já conseguimos constatar em eventos passados (partindo do pressuposto em que todo evento anterior a este comentário já é passado). Analisando o que temos em mãos, conseguimos fazer sugestões de eventos futuros (sem virarmos astrólogos)?

    ____________
    Mudando de saco para mala, tenho como costume ler artigos com ideias opostas ao que penso. Acredito que, ao estudar ideias opostas as minhas, posso ver onde estão (e estou) errando, ou até usurpar boas ideias perdidas num mar de ideias tolas.

    Assim sendo, costumo ler os artigos do Paul Krugman, traduzidos em toda segunda-feira no jornal Gazeta do Povo, aqui da minha cidade. Como sabemos, Krugman é um economista ganhador do Nobel e também colunista do NYT. E também amigo de todos os elitistas, sejam dos trilaterais ou dos Bilderbergs.

    Em seu artigo "O que aflige a Europa?", Krugman conceitua duas visões que seriam as respostas para todos os problemas da Europa: a visão republicana e a visão alemã. Os republicanos dizem que a Europa está falindo porque os estados investiram muito para manter o estado de bem-estar social. Já a visão alemã diz que a irresponsabilidade fiscal foi a responsável por este rebuliço.

    No artigo (link no fim do comment), Krugman cita motivos coerentes para desmistificar a visão alemã e republicana, além de o próprio aparentar ser contra a falta de soberania dos estados integrantes da moeda euro. O último parágrafo diz o seguinte: "Na próxima vez em que você ouvir alguém trazendo à tona o exemplo europeu para exigir a destruição de nossas redes de segurança social ou cortar despesas diante de uma economia em profunda depressão, eis o que você precisa saber: essas pessoas não têm ideia alguma do que estão dizendo."

    Apesar deste cara ser filho das principais instituições podres, neste artigo ele me parece muito coerente, e deixo a pergunta no ar: será que Krugman anda lendo o Informação Incorrecta? Esse artigo me faz crer que ultimamente ele parece estar alinhado a informação alternativa......

    link: http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?tl=1&id=1230115&tit=O-que-aflige-a-Europa

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