22 março 2012

Porque o micro-crédito não funciona

Enquanto os novos iPad da Apple desligam para arrefecer (mas a Apple avisa: não utilizar com mais de 35ºC) e quem pagou até 800 Dólares percebe agora ter adquirido uma frigideira de escassas prestações,  vamos tratar de assuntos bem mais importantes.

Por exemplo: o micro-credito.

A solução de Yunus

Trinta anos atrás, pensava-se que fosse esta a solução perfeita para o desemprego e a pobreza nos Países em desenvolvimento: a concessão de micro-crédito aos pobres, utilizado para implementar pequenas actividades comerciais.

Esta micro-finança está intimamente associada ao Dr. Muhammad Yunus, economista do Bangladesh treinado nos Estados Unidos e Prémio Nobel da Paz em 2006. Já tratámos dele no artigo O chacal, enquanto em Outros chacais vimos o suspeito modus operandi de muitas agências de micro-crédito. Mas não é das desventuras pessoais ou empresariais que vamos tratar aqui: agora o assunto é a mesma ideia de micro-crédito.

Celebrando a auto-ajuda e os empresários em nome individual (e, implicitamente, desacreditando outras formas de acção colectiva tais como as cooperativas, por exemplo), os promotores da comunidade internacional de desenvolvimento neoliberal observaram com amor o fenómeno da micro-finanças.

O Banco Mundial, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional e outras instituições começaram a promover esta ideia e  insistiram em converter o negócio da micro-finanças num business. E o resultado foi que a micro-finança se tornou rapidamente o perfil mais comum da comunidade internacional de desenvolvimento, o mais generosamente financiado e aquele que deveria ser a política económica e social mais eficaz.

Infelizmente, é agora claro que Yunus estava errado. Os últimos trinta anos têm, de facto, demonstrado que o micro-crédito é parte do problema, não conseguindo uma redução sustentável da pobreza nos Países em desenvolvimento. E não há nenhuma evidência de que o micro-crédito tenha tido um impacto positivo no bem-estar dos pobres, dado que desde 1990 este sector tem sido cada vez mais marcado por níveis espectaculares de ganância, exploração, abuso de poder e o caos no mercado, semelhante ao estilo de Wall Street.

As micro-finanças tem sido fortemente impulsionadas pela publicidade, com o apoio oferecido por celebridades e um fluxo constante de declarações "milagrosas" por parte de Yunus e dos seus seguidores. Mas a realidade é bem diferente.

Os crescimentos artificiais . E insustentáveis.

Os problemas da micro-finança são muitos e profundos. Primeiro, desde o início pensava-se que não importa quantas micro-empresas conseguem sobreviver com a micro-finança, pois a demanda local teria aumentado automaticamente para absorver a oferta adicional de bens e serviços. Yunus foi claro sobre este ponto. Mas esta interpretação é fundamentalmente errada: a demanda não aumenta, se não de forma artificial.

E o aumento (artificial também) da oferta reduz drasticamente os benefícios para o emprego e renda. Acumular cada vez mais micro-empresa numa mesma área, geralmente leva aos despedimentos. E graças à criação de novas micro-empresas, as pessoas mais pobres, que já lutam para sobreviver, têm que lidar com a redução das receitas, dos lucros e dos salários.

A oferta adicional também tende a deprimir os preços dos bens e dos serviços locais, afectando negativamente todas as pequenas empresas, aqueles que são novas e aqueles já presentes. Em suma, a comunidade de micro-empresários pobres no final paga a conta com rendimentos mais baixos por causa do pouco trabalho que é criado na comunidade local através de micro-crédito.

Para agravar o problema há as falência das micro-empresas. As empresas mais pequenas e médias têm um alto risco de fracasso. Isto significa que, a longo prazo, a micro-finança sustentável cria muito menos trabalhos do que geralmente pensamos. O fracasso muitas vezes significa que os pobres sofrem a perda de recursos valiosos, às vezes os únicos recursos duma inteira família.

As falências e o crédito "fácil"

Muitas vezes as famílias investem tudo o que possuem (que é pouco) para pôr a funcionar a nova empresa e tentar reembolsar o crédito. adiar a cobrança de uma renda para tentar pagar micro-empréstimos. E se a jovem empresa não funcionar, a miséria será ainda mais profunda. Normal que os relatórios de quem apoiar o micro-crédito evitem falar disso: o Banco Mundial, por exemplo, não gosta lembra tais pormenores que não são episódios isolados. Bem pelo contrário, é o aspecto mais conhecido pelos jovens novos empreendedores.

Porque as falências das micro-empresas são tão difundidas, até ser o principal desfecho da aventura micro-empresarial? A reposta é simples: além das óbvias dificuldades que todos podemos experimentar perante uma nova aventura, sobretudo num sector de elevado risco como é o do comércio em áreas extremamente pobres do planeta, não podemos esquecer que a maior parte dos fundos da micro-finança não vai alimentar o desenvolvimento das micro-empresas, mas vai apoiar a mero consumo.

Com um crédito "fácil", mas com taxas de juros geralmente muito elevadas (um banco de micro-crédito mexicano, Compartamos, pede aos seus clientes pobres uma taxa de juros anual equivalente a 195%...), no final o pobres emprega uma grande parte da sua renda simplesmente para pagar os juros. O objectivo dos bancos e agências que disponibilizam não é o sucesso da micro-empresa mas conseguir um novo cliente, o futuro micro-empreendedor.

Esta psicologia contribui para o surgimento dum esquema bem pouco saudável num número crescente de Países em desenvolvimento, com os pobres que ficam presos nas redes dos novos micro-créditos que são necessários para pagar os já existentes. O exemplo mais dramático dessa tendência destrutiva vem do estado indiano de Andhra Pradesh, em 2010, tendência que acelerou o colapso da maior parte do sector de micro-finança.

As experiências africanas e americanas

O micro-crédito segundo Benetton...
O micro-crédito pouco pode fazer para o desenvolvimento dum inteiro País: qualquer nação precisa de um sector industrial transformador próspero, baseada numa massa crítica de empresas que têm a capacidade de atingir um patamar de eficiência usando tecnologias avançadas, desenvolver a capacidade de inovação, de planeamento, que se ligue produtivamente com outros sectores (com os subcontratos, com a cooperação entre grupos), que possa exportar.

Com estes requisitos pode existir um aumento da produtividade e, a longo prazo, também a redução da pobreza. Está e a experiência das economias desenvolvidas e das economias mais dinâmicas do Sudeste Asiático. No entanto, devido ao aumento da exposição à micro-finança, muitos Países em desenvolvimento foram conduzidos no sentido oposto.

A experiência da África e América Latina ilustra a imensa escala do problema. A África já tem mais micro-empresas per capita do que qualquer outra região do mundo e a utilização rápida e crescente da micro-finança continua a aumentar. Mas a África continua presa na pobreza, porque desenvolveu um sector industrial apenas superficial, estruturalmente incapaz de dar origem a um aumento da produtividade.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sugere a mesma dinâmica para explicar porque na história recente da América Latina seja possível observar níveis elevados de pobreza e de desemprego. Ao longo de demasiado tempo a América Latina tem dedicado muitos dos escassos recursos financeiros às menos produtivas micro-empresas e pouco nas pequenas e médias empresas manufactureira.

A ideia não é implementar grandes empresas o facilitar o surgimento de corporações. A riqueza dum País como a Italia, por exemplo, nunca residiu em empresas como a Fiat, mas pode ser encontrada na miríade de pequenas e médias empresas, muitas vezes com condução familiar, produtivas e capazes de instaurar ligações com outras empresas (fornecimento/venda/distribuição).

Obviamente as escolhas políticas vão na direcção da micro-finança. E já isso deveria fazer reflectir. Banco Mundial, USAID, as instituições do BERD e outros ainda estão a planear ajudar os jovens das várias Primaveras Árabes com programas de micro-finança.

Também a Comissão Europeia, com um novo fundo comunitário, espera salvar as micro-empresas afectadas pela recessão: enquanto quase todos os Países da UE estão a assistir a uma contração drástica do sector das micro-empresas, devido à queda na procura local, a grande maioria dos micro-empresários dificilmente será capaz de identificar novas fontes de rendimento nomeio duma economia tão deprimida. Na Grécia, por exemplo, o colapso dramático na procura de bens fez com que mais da metade da micro e pequenas empresas (cafés, pequenas lojas, vendedores de souvenirs, bares, etc.) não estão em condição de pagar os salários e despedem os funcionários ou fecham.

A mesma espiral descendente está presente na maioria dos Países europeus. É uma cruel ilusão esperar que novas micro-empresas possam criar raízes nas mesmas comunidades.

...e que tal uma cooperativa?

A micro-finança tem sido considerada ao longo de muito tempo uma intervenção eficaz guiada pelas leis do mercado, o que poderia reduzir drasticamente a pobreza e, ao mesmo tempo, promover um desenvolvimento "de baixo para cima". Mesmo os apoiantes de longa data agora aceitam que esta ideia não funciona.

Nesta fase final, temos uma necessidade urgente de compreender as desvantagens da micro-finança e começar a ré-direccionar os escassos recursos para uma melhor utilização, especialmente com cooperativas de crédito, bancos de desenvolvimento locais, bancos éticos, e assim por diante. Somente desta forma, as comunidades serão poupadas perante os danos causados ​​pelo sector financeiro.


Ipse dixit.

Relacionados:
O chacal
Outros chacais

Fonte: Global Labour Column

3 comentários:

  1. Anónimo22.3.12

    Crédito leva a dívida.
    E claro que alguém que promove um sistema baseado em dívida tem de ganhar um prémio nobel. Nem foi da economia, foi da paz, vejam bem!

    (se eu estiver errado, por favor, Max, apague esta mensagem)

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  2. voz a 0 db22.3.12

    Desde quando podemos esperar solução vinda de economistas?

    ResponderEliminar
  3. maria22.3.12

    Resumindo, Max: o objetivo é o endividamento, a instituição do homem/mulher bancarizado, da sociedade endividada. o Brasililil atual é o típico exemplo. O cidadão brasileiro compra um poleiro, do tamanho de uma caixa de fósforos e com uma resistência e durabilidade comparável a tal caixinha para pagar por 30 anos, usando uma terça parte do orçamento, sem possibilidade de transferir a dívida. Ele esquece que vai ter 2 ou 3 filhos, que não vão caber no poleiro de jeito nenhum, que pode se divorciar nesse tempo, ter oportunidade de emprego noutro lugar etc. Aí ele orgulhosamente abre conta no banco, arranja meia dúzia de cartões de crédito e compra toda sote de bugiganga podre que se desmancha antes de pagar as "suaves" prestações. Para culminar ele arranja um microcrédito para abrir um negócio idiota qualquer, sem a menor noção de gerenciamento (se tivesse não faria tanta idiotice!)que vai falir daqui a um ano. Para isso ele emprega toda a renda da família do casal por muitos anos, e esquece que os custos de tudo vai arrebentar com o seu orçamento e que os bancos vão engolir o tal desgraçado vivo. Eis o retrato da "nova" classe média brasileira em "ascensão". Abraços

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