29 março 2012

Queridos Portugueses...

Queridos Portugueses,

Têm de saber isso: o governo está a enganar e com ele os jornais e os noticiários. Baixam os vossos ordenados, as reformas, tudo vai custar mais, a gasolina e os serviços: já estão mais pobres, e amanhã vai ser pior.
Eis o que acontece.

Quantas vezes já ouviram as palavras "consolidação orçamental do Estado, para voltar a crescer"? Crescer depois, claro, não agora. Agora é só austeridade.

Quantas vezes ouviram dizer que "gastámos demais antes e temos que poupar agora"? E que as contas do Estado têm de ser tratadas? É o que o governo está a fazer agora: gastar menos (os famosos cortes) e taxar mais. Tudo bem. Mas exactamente o quê acontece?

Acontece que o que o governo não gasta (por exemplo nos serviços, nos salários ou nas reformas) terá de ser pago por nós. Nós teremos de gastar as nossas poupanças ou fazer sacrifícios. Menos poupanças, mais dívidas. Simples, não há fuga possível: alguém tem de pagar.

Mas cuidado com a armadilha: pescar nas poupanças significa empobrecer um pouco mais, fazer dívidas significa empobrecer muito. Resultado: milhões de pessoas tornam-se um pouco mais pobres ou muito mais pobres.

Mas o governo que "trata" de Portugal decidiu que, além de gastar menos, vai cobrar mais impostos. Nós, que já somos um pouco mais pobres, como mencionado acima, também teremos de desembolsar mais dinheiro em impostos e taxas: pescar das poupanças que alguém tem, alguém não tem. Ou seja, menos poupança, e muitas mais dívidas. Logicamente, ficamos mais pobres.

Mas o que fazem as pessoas com cada vez menos poupanças ou até com dívidas? Param de gastar nas coisas que não são essenciais. Menos cinema, menos sapatos novos, não mudam de carro (já viram o mercado dos automóveis dos últimos meses?), compram menos casas, menos cosmética, menos vestuário, já não compram carne como antes, bebem menos vinho, acabam com a assinatura das revistas, não reestruturam a casa, saem menos para comer.

Alguém fica contente com isso: ah, finalmente uma vida como nos velhos tempos.

Não, meus senhores, não é como nos velhos tempos. Porque uma vez não havia tantas lojas, tantos "vícios", tantas comodidades. Hoje há.

Isso significa que cada uma dessas renúncias tem um custo: lojas e empresas que fecham. E isso significa salários cortados ou despedimentos, criação de desemprego, e talvez a filha do Leitor, que acabou de licenciar-se, não encontrará trabalho. É como um efeito dominó, no qual cai uma peça e começam a cair todas as outras, em todo o País. Então ficamos ainda mais pobres, o que cria incerteza, cria menos emprego, cria cada vez mais pobreza.

Prestem atenção:começámos com o Governo que fazia o "nosso bem". Onde acabámos? Aqui é onde acabámos:

Massas empobrecidas que gastam menos, tudo isto ameaça lojas e empresas, o que diminui os salários, as reformas e cria mais desemprego. Todos estes gastam ainda menos e a roda começa outra vez, menos dinheiro, menos ordenados, menos trabalho... mas não era "para o nosso bem"?

Ah, mas na televisão disseram que estes são "sacrifícios" necessários, porque depois tudo irá ficar melhor, haverá "crescimento"! Desculpem, queridos Portugueses, mas somos o quê? Uma cambada de atrasados mentais? Como é possível estar melhor se as coisas piorarem? É este um truque do mágico Merlin? O dinheiro irá aparecer nos pomares, misteriosamente?

Deve ser isso. Talvez Passos Coelhos e o seu "Salazarinho" (o Ministro das Finanças) sejam mágicos.

E sim, porque as coisas parecem boas mesmo: Passos Coelho também decidiu que o Estado deixará para sempre de dar-nos mais dinheiro do que conseguir cobrar, e isso é chamado "orçamento equilibrado". Significa que o Estado dará 100 e cobrará 100. Ficamos com zero (para os que têm mais dificuldades: 100 - 100 = 0).

E a ideia é pôr esta regra na Constituição. Então, com o dinheiro zero do Estado, donde chegará o dinheiro para o mágico "crescimento"? Dos cidadãos e das empresas? Mas como? Já estão a ficar mais pobres e é dito que ao longo de 2012 será sempre assim. Como será inventado o dinheiro que já não temos e nem teremos?

Assistam a uma cena: numa sala há o Governo Coelho, na outra os cidadãos, as empresas, o resto do mundo. Então, tanto para resumir os conceitos:
  • Coelho e o seu grupo (no qual podemos inserir também o CDS e o Partido Socialista) cortam os serviços, aumentam as contribuições e nós ficamos mais pobres (e esta é a reorganização da Despesa Pública)
  • Coelho e o seu grupo fornecem aos cidadãos zero dinheiro (e este é o orçamento equilibrado)
  • Nesta altura, os cidadãos e as empresas devem encontrar o dinheiro para melhorar a situação, mas como a economia foi posta de rastos, dinheiro já não há (e este é o crescimento)
Realmente, são precisos anos de formação académica para poder imaginar uma economia como esta, era preciso Salazarinho.

Queridos Portugueses, não é tempo para brincadeiras. Estão a destruir a vida, as nossas vidas, tal como estão a destruir a vida dos vossos filhos. E porquê fazem isso? São doidos? Nada disso, simplesmente fazem o trabalho para o qual serão recompensados, favorecem os negócios dos bancos, das grandes corporações e dos especuladores (que depois são a mesma coisa).

Vejam em quais mãos ficou a dívida pública portuguesa. Não sabem onde procurar? Claro, meus senhores, mais simples defini-los "os especuladores", termo genérico, sem pormenores. Pois sem nomes não há culpados.
Perguntem ao vosso partido quem ficou ao longo destes anos todos com os juros pagos pelo Estado, e não esqueçam que o Estado são vocês.

Ou, em alternativa, escolham a estrada mais simples: pensem que tudo isso é necessário, que foi culpa dos "outros" e que afinal estas são as melhores medidas possíveis. Se querem mesmo ser transgressivos, participem numa inútil manifestação de rua, mas não tentem disfarçar-se de jornalista porque são só porradas: afinal estamos em democracia.


Ipse dixit.

Fonte: Come Don Chisciotte

3 comentários:

  1. Resumindo... não há nada a fazer. Afinal o armamento também não está nas mãos do povo...

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  2. maria29.3.12

    Olá Fada: que há o que fazer sabemos, como sabemos também que não será feito.Aprendi que os humanos se conformam com a pobreza, sempre que veem ou sabem de outros mais pobres do que eles. Isto é típico do "caráter humano". Claro que há exceções, e coincidem com aqueles de caráter diferenciado que não se conformam com a desgraça do vizinho e sabem o que deveria ser feito. A estes resta formarem ilhas de solidariedade, como sempre digo, e viverem o bem comum da melhor forma possível. abraços

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  3. Olá Senhor Max,boa noite!
    Fada e Maria boa noite a vocês também!

    É lamentável ver que com o passar dos dias a situação de vocês portugueses,a nossa(brasileiros) e do restante do mundo está a se arrastar a passos lentos..Como bem disse a Maria sabemos o que temos que fazer,mas sabemos também que não vai mudar em nada por isso não fazemos apenas ficamos a espera do dia seguinte,com a boca aberta cheia de dente( se não for banguelo melhor ainda)a ver as moscas voar e o tempo passar.

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