06 março 2012

Uma voz de Homs

Falar do que realmente acontece na Síria é inútil.

Nenhum blog ou grupo de blogues poderá alguma vez contrastar a vaga dos media mainstream e as palavras, mesmo de quem está na Síria e pode ver o que se passa, ficam como os delírios de maníacos que desejam ver o podre onde podre não há.

Hoje, por exemplo, há um vídeo que percorre as capas dos diários online, um vídeo do alegado hospital de Homs. Vamos ler o que escreve o Diário de Notícias:

Um vídeo feito às escondidas por um empregado do hospital militar de Homs, na Síria, mostra o que parecem ser pacientes sírios torturados. O vídeo foi emitido pelo canal britânico de televisão Channel 4.
As imagens foram captadas por um empregado do hospital que aceitou ser entrevistado por um jornalista francês identificado como Mani. Nessa entrevista, ele explica que viu pacientes serem torturados pelos próprios médicos com choques elétricos. Outros são mesmo feridos propositadamente para que não se consigam mover. "Operam sem anestesia, acorrentam os doentes às camas, negam-lhes água. Atam-lhes o pénis para os impedir de urinar", contou.
O canal inglês admite que não há possibilidade de confirmar estas informações. As imagens mostram apenas os pacientes de olhos vendados e acorrentados às camas. Numa mesa vê-se um cabo elétrico. Alguns doentes mostram feridas no peito que parecem ter sido provocadas por espancamento.
Claro? Não há possibilidade de confirmar as informações, mas fica na primeira página o vídeo onde aparecem doente com feridas que "parecem" ter sido provocadas por espancamento, vídeo supostamente gravado no Hospital de Homs. Depois, claro, há as palavras do jornalista francês, do qual nem o nome é revelado. Uma lição de jornalismo.


Depois há o Público:
O Exército sírio bombardeou hoje um importante ponto de passagem usado por refugiados sírios – nomeadamente pessoas feridas – na sua fuga para o Líbano, indicaram à AFP fontes de uma ONG síria e militantes no terreno.
Uma ONG síria. Óbvio. Nós sabemos qual o papel das ONG envolvidas, mas quantos leitores da imprensa sabem disso?
É um deja-vu: como na Líbia, há o Mal (o regime) que age mal e o Bem (militantes, ONG, inermes cidadãos) que agem bem. Podem as forças do Bem agir mal? Não, está fora de discussão.

Silvia Cattori é uma jornalista que não se limita a traduzir os despachos das agências internacionais ou os comunicados das ONG. Prefere falar com os protagonistas e tem numerosos contactos em Homs. Custa um pouco mais de fadiga do que ficar sentado atrás do ecrã da redacção, mas os resultados são diferentes.


Silvia Cattori: Num artigo do passado 04 de Fevereiro, o jornalista da AFP, Khaled Soubeih, afirma que, de acordo com activistas anti-regime "durante a noite, as forças do regime bombardearam com morteiros e tanques vários distritos rebeldes como Baba Amro, Bab Dreib, Bab Sebaa, Bayada, Wadi Araba, e especialmente Khaldiyé". O Conselho Nacional da Síria (CNS) fala de 260 mortos e centenas de feridos. Isto é o que aconteceu na noite entre Sexta-feira 3 e Sábado 4 de Fevereiro de 2012?

Resposta: Atiram de todos os lados... querem matar... Os tiros mataram 20 soldados que estavam no nosso bairro [Hadara, ndt]... São eles que atiram e nos bombardear. Está a ouvir? Eles estão a bombardear o nosso bairro agora [11,40 horas de Domingo, 5 de Fevereiro]. Eles atiram e matam tão descontroladamente os alauítas e os sunnitas dos bairros que controlam.

SC: Mas quando diz "ele" está a referir-se a quem?

Resposta: Eu falo da oposição armada contra Bashar [o presidente sírio, Bashar Assad, ndt].

SC: Nós vimos imagens que mostravam os adversários na frente de dezenas de corpos cobertos com lençóis brancos e disseram que tinham sido mortos no distrito de Khaldiyé. Assim, na sua opinião foram os corpos dos civis e soldados mortos por grupos armados?

Resposta: Sim, foram mortos por eles. Entre esses corpos, os moradores do nosso distrito têm reconhecido pessoas que tinham sido raptadas, alguns há muito tempo. Muitas pessoas têm sido raptada, isso tinha começado em Abril.

SC: Entre os corpos tem sido reconhecido alguém que você conhecia? O Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Alain Juppé, falou de 100 crianças mortas em Homs no outro dia .. 

Resposta: Parentes do meu bairro reconheceram, entre os cadáveres, cerca de vinte homens que tinham sido sequestrados,tinham sinais de tortura. Não puderam ver todos os corpos. Não viram mulheres ou crianças entre os mortos. Viram os corpos dos homens, das pessoas desaparecidas, parentes, que tinham definitivamente vestígios de tortura antes da morte: asseguraram que esses homens foram tomados há muito tempo, que pareciam terem sido executados, não morto nos bombardeios.

SC: Sabe quantas pessoas foram sequestrada por esses grupos armados desde Abril? 

Resposta: Não sabemos exactamente .. mas muitos homens desapareceram. Entre eles está o meu primo. Ele foi sequestrado há 15 dias. Não temos mais notícias. Existem famílias aqui que têm filhos, pais, tios, sequestrados. Estima-se que 400 pessoas foram levadas, desapareceram.
Conheço outro caso recente. O irmão de um amigo. Ele saiu de carro em 24 de Janeiro e não foi visto desde então. A família dele ouviram 4 dias atrás os sequestradores que exigiram um resgate, uma quantia grande. Aconteceu que o dinheiro foi perdido, o mediador foi morto na rua ..

SC: Mas aqui dizem que é o exército que estupra, tortura crianças... O leitor pensará que talvez seja o exército a raptar as pessoas? 

Resposta: O que você diz não é o que vemos aqui. Os opositores estão armados, sequestram, torturam e matam crianças, depois podemos ver nas imagens de Al Jazeera. Atribuem os crimes ao exército sírio. A destruição, os mortos e os feridos ...a responsabilidade recai sobre a oposição armada.

SC: Falando dos 260 civis mortos [nota: segundo o correspondente árabe da BBC, os mortos na verdade foram 50, ndt], "incluindo centenas de crianças e mulheres" que morreram sob as armas do exército, no subúrbio de Khaldiyé Assad, em Homs, na noite de Sexta-feira, 3 de Fevereiro e que assustaram o mundo, algo não está certo. Entre os corpos em Khaldiyé não é possível observar mulheres ou crianças. Vemos jovens cujos corpos apresentam sinais de tortura. Não parecem ter sido mortos nos confrontos, no bombardeio. Tudo isso confirma o que acabamos de dizer, que os assassinatos são obra de grupos armados. É importante esclarecer este ponto, se o que você diz for verdade - que os corpos mostrados são aquelas pessoas que os adversários tinham raptado e executados - isso acusa aqueles que, como Obama e Sarkozy, apoiam os opositores, porque querem encobrir as atrocidades dos rebeldes. Há imagens de edifícios que foram bombardeados? 

Resposta: Sim. Bombardearam Hadara, o nosso bairro (onde foi morto Gilles Jacquier, ndt] na Sexta à noite. Os tiros vieram de Baba Amro, Bab Dreib, Bab Sebaa, Khaldiyé ...em todas as direcções. Mas não tiro a partir dos locais onde havia as forças armadas que estão aqui para proteger o nosso bairro. É um bairro pequeno o nosso.

Silvia Cattori: Mas, então, o que os sírios contavam por telefone ao jornalista da AFP não é verdade?

Resposta: Não, não é verdade. Eles têm armas pesadas. Eles tomaram o controle de Baba Amro, Bab Dreib, Bab Sebaa, Bayada, Khaldiyé ... Destroem, matam, atingem. Estão a bombardear agora ... São eles (os grupos armados islâmicos) que explodem prédios, ameaçam as pessoas em todos os lugares, não só no nosso bairro. Há tiros neste momento, vindo de diferentes partes. Os locais chamam o exército para obter ajuda.

SC: Está com medo agora? 

Resposta: Sim, estamos apavorados. É muito perigoso para nós.

SC: É difícil entender como esses grupos podem "controlar" a população de inteiros bairros da cidade de Homs? 

Resposta: Eles entraram nos bairros, instalaram-se com o terror, mantêm a população sob ameaça, forçam os moradores a cooperar para ter "protecção", forçam os habitantes a fechar as suas lojas, as escolas...

SC: Qual é a parte mais difícil para vocês?

Resposta: Você não pode sair, não pode ver outras pessoas, vive no medo permanente que uma bomba vai cair e mate. Já não estamos seguros... Eu não posso ir ao trabalho, lá fora, há o bombardeio contínuo. Somos mortos logo ter posto fora a cabeça, a casa do meu vizinho foi destruída ...

SC: Desde quando a situação se tornou insustentável? 

Resposta: Durante os últimos dois dias as coisas estão a piorar, mas a situação começou a deteriorar-se na última semana.

SC: Tem a impressão de que a administração de Assad faz o que é necessário para proteger? 

Resposta: Eles fazem o seu melhor num ambiente muito difícil.

SC: Os jornalistas dos grandes media falam de manifestações pacíficas, uma revolução que promete democracia ... 

Resposta: Não, não há protestos pacíficos por parte deles. Todos os eventos são violentos, incitam a violência.

SC: O que você diz sugere que aqueles que os políticos e os meios de comunicação qualificam como "militantes pró-democracia", na verdade, são grupos armados que aterrorizam a população. Como você se sente quando ouve Alain Juppé et Gérard Araud, embaixador francês na ONU, concordar com estes opositores armados que matam, sequestram e matam? 

Resposta: O que eu sinto? Tristeza. Estou muito triste pelo meu País, o meu povo ... nunca paro de perguntar-me por que mentir...estamos aqui, perante do desconhecido...Agradeço a Rússia e a China que colocaram o veto no Conselho de Segurança. Se deixassem fazer o que os outros querem, o que aconteceu na Líbia aconteceria aqui também, mas muito pior ... Gostaria de dizer aos jornalistas e políticos que com as suas mentiras, a sua parcialidade em favor da oposição armada que aterrorizar, destroem o espírito e, especialmente, a alma da nossa juventude.

SC: Obrigado por concordar em responder às nossas perguntas. Faremos o nosso melhor para espalhar o seu testemunho. Por motivo de precaução não podemos indicar o nome do nosso correspondente. Esta entrevista não poderia ter sido possível sem o valioso apoio do Rim, uma jovem síria.

Assim, outra voz sem nome. O que realmente se passa na Síria?


Ipse dixit.

Fontes: Diário de Notícias, Público, Silvia Cattori

6 comentários:

  1. Pena que testemunhos como este nunca chegarão em lugar algum pela descrença causada pelas grandes agências de notícias internacionais.

    Cattori fala sobre oposição armada. Daonde surgiram essas armas? Será que a Al-Qaeda está infiltrada na Síria, tal como estava na Líbia?

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  2. Anónimo6.3.12

    Estes relatos acima, apresentando uma versão contrário à dos meios de comunicação ocidentais, não vão ter eco na Europa e USA, mas pelos vistos na China e Russia já não será bem assim.

    Quanto ao fornecimento de armas à 'resistência armada' naturalmente que os fornecedores serão aqueles quem têm interesse na queda do regime Sirio. Quem serão eles? Eu aposto nos suspeitos do costume(Os mesmos da Libia).

    Krowler

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  3. Bom, ainda mais curioso é o seguinte.
    Se no local onde imperam as milicias anti-bashar os jornalistas não conseguem penetrar nem fazer o seu trabalho por causa da censura...como explicar esre video num hospital controlado pelo regime?
    Ah pois é...é como a fraude nas eleições russas....todos falam falam falam, mas factos, tá quieto!!

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  4. Olha o Streetwarrior!!! Então?

    Ainda não acabei de ver o vídeo que lá tens, mas já passei as duas horas!

    É muito interessante... Pena é que daqui por uns anitos quando as placas fizerem a sua magia... a maior parte dos alinhamentos vai à vidinha... De resto estou a gostar bastante!

    Abr

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  5. Anónimo8.3.12

    Tambem ví o video. Achei graça a um doente acorrentado e sem quaisquer marcas da corrente na perna. Outros pormenores interessantes saltam à vista, enfim, parace que por aqui a rapaziada vai acreditando nestas coisas.

    abraço
    Krowler

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  6. Anónimo8.3.12

    Streetwarrior está de volta a ativa pelo que parece.

    Tomara que continue com suas iniciativas em seus blogs, admiro sua coragem, assim como Max. Parabéns.

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