23 abril 2012

Demência e pré-crime

A demência avança, inexorável: não conhece feriados nem fronteiras.
Mas tem um País favorito: os Estados Unidos.

Ao entrar no território americano, a demência sente-se como em casa: aí encontra as melhores oportunidades e daí parte para espalhar a própria influência no resto do mundo (que, diga-se, já está amplamente predisposto para uma digna recepção).

A demência tem muitos rostos, a maior parte dos quais se escondem atrás duma farda. Não admira, portanto, que o Homeland Security, o departamento governamental que cuida da segurança dos Estados Unidos, veja uma alta concentração de dementes nas próprias fileiras.

E que fazem os dementes fardados? Trabalham, para que a demência possa iluminar o nosso futuro.
Eis explicados alguns projectos que podemos encontrar na secção Human Factors/Behavioral Sciences Projects (Projectos Factores Humanos / Ciências do Comportamento).

Entre todos, merece destaque o Projecto FAST: Future Attribute Screening Technology, algo que parece saído do filme Minority Report.

O FAST deseja, nada mais nada menos, "prever" futuras acções terroristas (lembrem: tudo é feito para proteger contra os terríveis terroristas). Como? Analisando o comportamento humano, detectando subtis sinais que podem escapar ao olhar humano e que, pelo contrário, são registados pelas máquinas.

Explica a conceituada revista Nature:
Como um detector de mentiras, FAST mede uma série de indicadores fisiológicos, desde a frequência cardíaca até a firmeza do olhar de uma pessoa, para determinar o estado de espírito dele. Mas há grandes diferenças do polígrafo. FAST depende de sensores sem contacto, para que possa medir indicadores de alguém que caminha num corredor de aeroporto, e não depende de perguntas feitas ao sujeito.
Ou seja: uma maravilha, apanhar os terroristas antes que consigam pôr em prática um plano diabólico qualquer.
Na verdade nem todos estão tão convencidos. Tom Ormerod, um psicólogo da Unidade de Perícia de Investigação da Universidade de Lancaster, Reino Unido:
Encham os locais com máquinas que testam e ambos, controladores e passageiros, começarão a fazer as coisas de forma diferente.
Olha, ainda alguém com os neurónios activos...
E como distinguir alterações comportamentais "criminosas" e "inocentes"?
Continua Ormerod:
Mesmo fazer uma varredura do íris ou tirar as impressões digitais é suficiente para elevar a frequência cardíaca da maioria dos viajantes.
E o funcionamento baseia-se na teoria de que alguém que estiver prestes a cometer um acto criminoso tenha "indicadores" físicos, como transpiração, involuntárias contracções musculares, sinais de nervosismo. Será assim mesmo?

Steven Aftergood, analista de pesquisa sénior da Federação de Cientistas Americanos, um think-tank baseado em Washington DC, é pessimista sobre o teste FAST. Acha que irá produzir uma grande percentagem de falsos positivos, as pessoas inocentes serão frequentemente marcadas como potenciais terroristas, gerando uma enorme confusão num lugar movimentado como um aeroporto:
A premissa desta abordagem - que haja uma identificável assinatura fisiológica associada exclusivamente às intenções maliciosas - está errada. Tanto quanto eu saiba, não foi demonstrado e sem isso, a coisa toda parece uma charada.
Mas o Homeland Security Department avança.

Em teste de laboratório, o Departamento tem reivindicado uma precisão de cerca 70%.
John Verrico, porta-voz:
Os resultados ainda estão a ser analisados, por isso não podemos comentar o desempenho. Uma vez que este é um estudo científico em curso, os testes continuarão ao longo dos próximos meses.
Uma precisão de 70% significa 30% de falsos positivos. Quantas pessoas pode significar este 30% num lugar como um aeroporto? Significa que em cada 100 pessoas que transitam, 30 podem continuar a viagem só depois de ser interrogadas?

A única solução, se a intenção do Leitor for visitar os Estados Unidos a partir dos próximos meses, é tomar um ansiolítico antes de aterrar. Fique calmo, não dê nas vistas, fale baixo (mas não demais!), controle os movimentos seus e os da família.

O filho acabou de deixar cair no chão o vosso novo iPhone, que ficou em pedaços? Mantenha a calma, sorria, lembre-se que está no interior dum aeroporto: já não é brincadeira.

E não esqueçam: é sempre para vossa segurança.



Ipse dixit.

Fontes: Nature, Homeland Security Department

4 comentários:

  1. Anónimo23.4.12

    Sabiam que, nas estatísticas dos americanos, quem usar como relógio o simplíssimo CASIO F-91W, tem fortes probabilidades de ser um terrorista?

    E que não se pode usar o telemóvel em alguns aeroportos? Como se para detonar uma bomba por telemóvel tivesse que ser obrigatoriamente de dentro do aeroporto, e os telemóveis não funcionasem fora dele.

    "Minority report" foi uma manobra de preparação, lavagem cerebral e "endoutrinamento"...

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  2. Anónimo23.4.12

    http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2011/04/25/wikileaks-para-eua-portar-um-relogio-casio-e-indicio-de-possivel-ligacao-com-a-al-qaeda.htm

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  3. maria23.4.12

    Ih,ih,ih,ih....Desculpem, mas eu tenho que rir! Eu conheço aquele povo! É assim que eles enlouquecem os seus conterrâneos.Coitados...pobre povo desgraçado, estes americanos!

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  4. Anónimo24.4.12

    Qualquer psicólogo/psiquiatra sabe que os sociopatas/psicopatas enganam o detector de mentiras porque estas pessoas não têm reacções emocionais físicas. Sugiro ainda leitura do livro "O teste do Psicopata".

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