19 abril 2012

Economistas: opiniões à venda

Os economistas. Eles sabem.
Ou pelo menos tentam saber. E prever.

É possível fazer previsões acertadas o mundo da economia? Sim, com certeza: só que os resultados dependem da vontade do pesquisador. Sobretudo, depende do que desejamos prever.

Se os nossos rendimentos dependem de uma ou mais empresas envolvidas no grande Circo da Economia, pode ser que as nossas observações não sejam tão imparciais.

Afinal, se temos uma palavra influente, uma nossa previsão pode encaminhar os mercados na direcção que é a pretendida pelo nosso dono. O mercado é composto por empresas; atrás das empresas há homens; e os homens podem ser enganados.

Agora, imagine o Leitor que isso aconteça não com um mas com mais economistas de renome. Um quadro assustador, onde a economia é analisada, explicada, ensinada, difundida e prevista por pessoas que têm fortes interesses no mundo económico. Pessoas que podem ser pagas pelos bancos. Pessoas que sentam nas administrações de corporações.

É este o sentido dum óptimo artigo de Renaud Lambert publicado no Le Monde Diplomatique, e traduzido na versão brasileira também, cujo título é "Os economistas engajados".

Vale a pena fazer copy-paste, pois este é um artigo que bem explica o quadro geral.
E vale a pena ler tudo, embora seja comprido: após isso, é provável que da próxima vez que o Leitor ouvir um "respeitado economista" falar, perguntará: "Mas quem é este gajo? Quais interesses defende?".

(Nota: já faz isso? Leia na mesma para confirmar as suas opiniões!).

Boa leitura!

Os economistas engajados

Chama-se “efeito Drácula”: como o célebre vampiro dos Cárpatos, os arranjos ilegítimos não podem resistir à exposição à luz do dia. A controvérsia diz respeito ao conluio entre economistas e instituições financeiras.

Muitos professores universitários convidados pelas mídias para esclarecer o debate público, e também pesquisadores apontados como conselheiros pelos governos, recebem, na verdade, algo dos bancos ou das grandes empresas. Um especialista pode, “com toda a independência”, exaltar a desregulamentação financeira quando ele ocupa simultaneamente um cargo de administrador de um fundo de investimento?

Essas ligações perigosas, fontes de conflitos de interesses, não são secretas. Mas seus beneficiários bem que evitam fazer publicidade a respeito. Antes do cataclismo de 2008, cada um tirava seu proveito do equívoco: os jornalistas exibiam seus especialistas considerados neutros, que embolsavam os dividendos de sua onipresença sob a forma de notoriedade crescente e de dinheiro no bolso. Mas, depois do colapso de 2008, os economistas e seus conhecidos estão na berlinda.

O efeito Drácula deve-se então a essa forma intelectual de prevaricação? Bastaria torná-la pública para vencê-la? Essa é a aposta da prestigiosa Associação Norte-Americana de Economia (American Economic Association, AEA).

Desde o começo deste ano, os artigos publicados nas revistas científicas por membros da associação devem revelar os eventuais conflitos implicando seus autores. Os economistas deverão assim identificar e mencionar “as ‘partes interessadas’ que lhes tenham pago uma remuneração financeira importante, quer dizer, um valor total superior ou igual a US$ 10 mil, ao longo dos três últimos anos” (comunicado do dia 5 de janeiro de 2012). A medida se aplicará também às somas recebidas pelos “próximos”.

Encabeçando algumas das mais influentes revistas da disciplina, a venerável AEA – perto de comemorar seu 130º aniversário – não está mais sujeita a caprichos. Sua decisão tocou os espíritos.
Depois do sucesso do documentário Inside Job, de Charles Ferguson, a irritação se tornou palpável. Os emolumentos de alguns conselheiros próximos ao presidente Barack Obama implicados na liberalização do setor bancário tinham levantado questionamentos na opinião pública.

Como Lawrence Summers, diretor do Conselho Econômico Nacional (National Economic Council), remunerado em US$ 5,2 milhões, entre 2008 e 2009, pelo fundo especulativo D. E. Shaw e em até US$ 135 mil por suas conferências, mais frequentemente organizadas por empresas financeiras – sem contar seus freelances (generosos) no Financial Times. A cólera cresceu também dentro da profissão.

Durante 2011, explica-nos George DeMartino, da Universidade de Denver, “uma série de estudos científicos demonstrou que os conflitos de interesses constituem mais a regra do que a exceção”. Em 3 de janeiro de 2011, por iniciativa dos professores Gerald Epstein e Jessica Carrick-Hagenbarth, uma carta aberta soava o alarme, pedindo que a AEA reagisse. Ela foi assinada por mais de trezentos economistas, entre eles George Akerlof, laureado com o prêmio do Banco da Suécia em Ciências Econômicas em memória de Alfred Nobel, e Christina Romer, antiga conselheira do presidente Obama. Doze meses depois, eles foram ouvidos.

Mas o eco desse movimento ético tem dificuldades para atravessar o Atlântico. No Le Monde do dia 1º de fevereiro, o economista Olivier Pastré esbravejou contra os projetos de saída da moeda única europeia. Ele se fixou uma missão: “explicar aos franceses mais frágeis e mais submissos à desinformação quais são os riscos de um abandono do euro”.

O jornal apresenta o autor como “professor de Economia da Universidade Paris 8”, mas Pastré preside também o banco tunisiano ImBank. E pertence aos conselhos de administração do banco CMP, da Associação de Diretores de Banco, assim como do Instituto Europlace de Finanças. E, no entanto, é o “professor da universidade” que intervém todo sábado de manhã na rádio France Culture durante o programa A economia em questões, do qual é coprodutor.

Quando 2 + 2 são 5

“Este é um exemplo perfeito do tipo de situação que nos levou a reagir”, comenta o professor Michael Woodford, membro do comitê diretor da AEA, quando lhe contamos o caso. A associação exorta “o conjunto dos economistas a aplicar os mesmos princípios para todas as publicações: jornais acadêmicos, editoriais, artigos de imprensa, comentários difundidos na rádio ou na televisão”.

“No caso”, continua Woodford, “parece-me que os leitores têm o direito de saber se o especialista em questão defende uma análise ou os interesses da instituição para a qual trabalha.” Pastré garantia, em seu artigo de 1º de fevereiro, que na hipótese de uma saída do euro os bancos “veriam o custo de sua dívida a curto e longo prazo explodir”, alarmando-se com uma eventual “baixa de sua rentabilidade”.

Para Patrick Artus, responsável pela pesquisa econômica para o banco Natixis e administrador da Total, a tese defendida por Woodford “tem sentido nos Estados Unidos e no Reino Unido. Mas não creio realmente que ela pudesse ser aplicada na zona do euro”, pois “o número de economistas ligados às finanças aqui é muito pequeno com relação ao mundo anglo-saxão”. Um pequeno grupo, talvez... mas muito representado entre os especialistas midiáticos.

Três de novembro de 2011. O jornal matinal da rádio France Inter analisa os objetivos do G20 que vai acontecer em Cannes. Quem ele convida? “Jean-Hervé Lorenzi, presidente do Círculo dos Economistas.”

Raramente apresentada, essa associação reúne Patrick Artus, Jean-Paul Betbèze (economista-chefe no banco Crédit Agricole), Laurence Boone (economista-chefe no Merrill Lynch), Anton Brender (economista-chefe do Dexia Asset Management), Olivier Pastré etc.

Alguns dias depois, na mesma rádio pública, o programa Le Téléphone sonne [O telefone toca] “faz uma análise” da reunião. No microfone, “Jean-Hervé Lorenzi, presidente do Círculo dos Economistas”. É também com esse título que Lorenzi, entre outras coisas conselheiro do candidato socialista à presidência, François Hollande, analisa o mercado imobiliário em Les Echos, a queda das bolsas na rádio Europe 1 ou o “fabuloso destino da França” na rádio RTL 5.

No entanto, esse cartão de visitas omite alguns detalhes. Lorenzi tem cargos nos conselho de administração da empresa PagesJaunes, da Associados em Finanças, da Associação Francesa das Operadoras de Celular (Afom), da seguradora ligada ao banco BNP Paribas-Assurance. Ele é também censor do grupo de crédito Euler-Hermes, membro dos conselhos de vigilância da Companhia Financeira Saint-Honoré, do instituto de pesquisa de opinião BVA, do Grupo Ginger e conselheiro da diretoria da Companhia Financeira Edmond de Rothschild.

Já Christian Saint-Etienne se apresenta como professor do Conservatório Nacional de Artes e Profissões (Cnam) na rádio France 24 e como economista e analista político nas colunas do Point− nunca como conselheiro científico do Conselho Estratégico Europeu SA, um gabinete de conselho em gestão de patrimônio. Elie Cohen, também conselheiro de Hollande, é orientador de pesquisa no Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS) e professor na Sciences Po na rádio France Inter ou no Le Figaro− nunca membro do conselho de administração das empresas PagesJaunes ou da EDF Energies Nouvelles.

Jacques Mistral? Economista nas colunas do Le Mondee na rádio France Culture, ou diretor de estudos econômicos no Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri) no programa C dans l’air(canal de televisão France 5) − e não administrador da BNP Paribas Assurance. Daniel Cohen, conselheiro de Martine Aubry, mostra-se mais discreto sobre seu título de senior adviser do banco Lazard – que aconselha, por exemplo, o governo grego na renegociação de sua dívida – do que quando se trata de lembrar sua qualidade de professor de Ciências Econômicas na Escola Normal Superior e na Universidade Paris 1.

Marcando presença nos conselhos de administração de grandes empresas (35 mil euros por mandato, em média, para as empresas do CAC 40 e a metade para as outras empresas cotadas, segundo os dados do Instituto Francês de Administradores – IFA), nas conferências privadas (para as quais Lorenzi, por exemplo, cobra 6.600 euros), na redação remunerada de relatórios... Assim como seus colegas norte-americanos, os economistas franceses “dispõem de inúmeros meios para ganhar muito, muito dinheiro”, observa DeMartino. “Eles sabem, portanto, melhor que outros que nada é gratuito, que todo benefício implica um custo. E o custo, neste caso, é a perda da independência.”

“Acho que isso tem um resquício dos anos 1930”, protesta Lorenzi. “A questão é saber se a maneira como você ganha sua vida influencia seu julgamento. E não é o caso.” No fim das contas, pode-se argumentar que 2 + 2 são 4 trabalhando tanto para uma universidade como para um banco? “Sem dúvida nenhuma”, responde Woodford com um sorriso. “Mas a maioria das questões às quais um economista é confrontado trata de julgamentos mais sutis. E não se deixem enganar: nossos debates têm um impacto direto sobre alguns interesses privados.”

Seria preciso concluir, com a professora Deirdre McCloskey, da Universidade de Illinois, que pode acontecer de “economistas se comportarem como advogados, defendendo tal ou tal ponto de vista, independentemente dos fatos”? Ou – para dizer com outras palavras – que, interessados no resultado, eles tentem às vezes convencer que 2 + 2 são 5?

Diretor do documentário Inside Job, Ferguson encontrou o economista Frederic Mishkin, da Columbia Business School:
Ferguson: − Em 2006, você coescreveu em um estudo do sistema financeiro islandês:“É um país evoluído, dotado de excelentes instituições. Pouca corrupção, Estado de direito, economia convertida à liberalização financeira. Regulação e vigilância prudenciais de qualidade”.
Mishkin: − Aí estava o erro [em 2008, a economia islandesa afundava]. Descobriu-se que a regulação e a vigilância prudenciais não eram satisfatórias.
− O que o fez acreditar no contrário?
− Utilizamos as informações de que dispomos. E a opinião geral dizia que a Islândia tinha excelentes instituições e era muito evoluída.
− Quem lhe disse isso? Que pesquisas você realizou?
− Falamos com pessoas, confiamos no Banco Central, que, no fim, não estava à altura.
− Por que você confiou no Banco Central?
− Utilizamos as informações que temos.
− Quanto você ganhou com isso?
− Eu fui pago... o valor é público.
(Mishkin recebeu US$ 124 mil da Câmara de Comércio Islandesa para redigir o estudo.)
− Em seu currículo, o título do relatório “Estabilidade financeira na Islândia” foi mudado para “Instabilidade financeira na Islândia”...
− Oh... eu ignoro a razão, mas... talvez seja um erro de digitação.

Advogado devotado ao cliente ou cientista equivocado, a diferença se revela por vezes tênue. Como nota DeMartino, “os economistas gozam de um privilégio que as outras profissões não conhecem: ninguém lhes pede prestação de contas de seus erros”. E, no entanto, eles os cometem.

No dia 17 de agosto de 2007, a crise do subprimeacabava de começar do outro lado do Atlântico. Elie Cohen já anunciava o fim: “Em algumas semanas”, garantia, “o mercado vai se reformar, e os negócios vão voltar como antes” (LeMonde.fr, 17 ago. 2007).

Seis meses depois, no canal Direct 8, Alain Minc, banqueiro de negócios e conselheiro de Nicolas Sarkozy, entusiasmava-se com a “inacreditável plasticidade do sistema”: “Dir-nos-iam que ele seria regulado de tal forma que evitaríamos uma crise, que poderia ser até mesmo do tamanho das grandes crises financeiras que conhecemos no passado! No fundo, ainda é um universo muito flexível”. Veredicto? “A economia mundial é bem administrada” (8 jan.).

No mesmo ano, Lorenzi anunciou que “[sua] convicção é clara”: “O diagnóstico dos bancos centrais foi rápido, justo e seguido de efeito. Em uma crise do mercado interbancário, eles souberam com talento se esquivar da catástrofe; no caso, evitaram aos Estados Unidos a falência dos bancos hipotecários e permitiram que grandes estabelecimentos bancários verdadeiramente em perigo reintegrassem, sem risco de liquidação, uma parte de seus produtos titularizados”.

Pouco depois que essas palavras foram impressas, o banco Lehman Brothers sucumbiu, levando com ele uma parte do sistema financeiro mundial. Quanto a Artus, redator fanático de Flash Economiedo Natixis (cinco artigos por dia em média), ele alardeava em Challenges, no dia 28 de agosto de 2008 (duas semanas antes do crash!): “O caso dos subprimes é passado”.

Mais tarde, ele iria protestar contra a ideia de que os bancos paguem mais impostos e continuem a financiar as economias fragilizadas pela crise. “Não podemos pedir tudo para os bancos”, dá como título o empregado do Natixis em seu Flash Economie de 18 de agosto de 2011.
 Nem de esquerda nem de direita: banqueiro

Poderíamos nos perguntar sobre a relação entre tais erros de julgamento e as remunerações que os autores recebem. Ou exigir, juntamente com Epstein, que os economistas sejam “responsáveis perante seus colegas, a imprensa, os estudantes, os cidadãos”. Mas devemos fingir espanto quando um banqueiro defende os interesses dos banqueiros?

Pois é bem nesses termos que Lorenzi, por exemplo, encara sua atividade: “Eu sou o que se chama de senior banker”, explicou ele recentemente. “Tento, de modo geral, desenvolver negócios correspondentes às diferentes atividades da Companhia Financeira Edmond de Rothschild.” Pastré e ele têm essa missão no espírito, quando, em seu livro Direita contra esquerda? Os grandes casos que farão a eleição presidencial, publicado em 2012, intimam os leitores a “renunciar às ilusões sobre o Estado protetor”, a “fazer enfim a aposta audaciosa em favor do mercado” e, principalmente, a evitar “os julgamentos apressados” contra a indústria bancária.

“No fim”, temia em novembro passado Jean-Pierre Jouyet, presidente da Autoridade para os Mercados Financeiros (AMF) e antigo secretário de Estado encarregado dos negócios europeus de Sarkozy, “os cidadãos vão se revoltar contra a ditadura de fato [dos mercados]”. Mas os “mercados” não exercem já sua influência até no seio da AMF, que deveria regulá-los? Pois quem aconselha a autoridade presidida Jouyet? Os mesmos: Artus, Olivier Davanne (cogerente do Groupama Invest), Olivier Garnier (diretor-adjunto do banco Société Générale), Ruben Lee (presidente-diretor-geral do Oxford Finance Group), Pastré etc.

De volta aos Estados Unidos, onde Ferguson entrevista John Campbell, diretor do Departamento de Economia de Harvard:
Ferguson: − Um pesquisador de medicina escreveu um artigo que diz: “Para curar essa doença é preciso prescrever tal medicamento”. Revela-se que esse médico recebe 80% de seus ganhos do fabricante do remédio. Isso o incomoda?
Campbell: − Acho que, é claro, é importante revelar... mas, ah... ah... É um pouco diferente do que estamos evocando aqui, porque... ah...

A pertinência da analogia também não salta aos olhos de Barbara Frugier, adjunta à diretora de comunicação da AMF. “Escute, eu não conheço a indústria farmacêutica”, interrompe. Antes de continuar: “Não vejo bem aonde você quer chegar. É normal, em minha opinião, que a gente se informe com os especialistas”.

No entanto, segundo o site da Autoridade, a instância encarregada, entre outras coisas, de controlar o orçamento da instituição e de fixar as regras internas e gerais é, contrariamente ao Conselho Científico, “submetida a regras éticas e de prevenção de conflitos de interesses”.

Quando foi promovido do segundo cenáculo ao primeiro, em junho de 2011, o economista Christian de Boissieu, que também é presidente do Conselho de Administração Econômica (CAE), foi então convidado a deixar suas funções de conselheiro do fundo especulativo HDF Finance, de Ernst & Young, assim como seu cargo no comitê de auditoria do banco Neuflize OBC, do qual ele permanece membro do conselho fiscal. “Enquanto espero para deixar este conselho em breve”, explica, “eu me deporto (eu saio da sala e não participo de forma alguma das deliberações) quando se trata, na AMF, direta ou indiretamente desse banco.”

Louváveis, as disposições da AMF e de Boissieu não constituem uma reprovação implícita aos que não tomam medidas similares? Começando, por exemplo, pelas mídias.

Jornalista na rádio France Info, Jean Leymarie recebeu Lorenzi nos dias 16 de dezembro de 2009, 24 de novembro de 2010 e 29 de junho de 2011.
Conhecia as funções de seu convidado no seio da empresa Rothschild?
“Sim, claro!”
E, no entanto, ele não as evocou no ar?
“Nossos ouvintes não são idiotas. Eles sabem.”
Mas como saberiam se seus colegas também adotam geralmente a mesma conduta, mesmo que eles não ignorem em nada os múltiplos cargos de seus convidados?

Foi com conhecimento de causa que Jean-Marc Sylvestre convidou Lorenzi para evocar os perigos de uma maior regulamentação do setor bancário, no canal LCI (24 abr. 2010); que Yves Calvi deu a palavra a Godet e Saint-Etienne para explicar a inevitabilidade das políticas de rigor em seu programa C dans l’air, no canal France 5 (9 nov. 2011); ou que o Financial Times abriu suas colunas para Summers para tirar as consequências da “crise do capitalismo” (8 jan. 2012). É preciso ouvir atentamente as respostas quando fazemos tais perguntas a tais convidados?

A informação dos franceses não sofreria talvez uma amputação severa demais se a imprensa consagrasse mais espaço – algumas linhas, alguns segundos no ar – a uma apresentação completa de seus especialistas: “Seria tão simples que eu me espanto que não seja o caso”, responde-nos o economista Hubert Kempf, presidente da Associação Francesa de Ciências Econômicas (Afse), tido como “ortodoxo”. Sua organização pretende interpelar seus membros com relação ao conflito de interesses?

“Organizaremos talvez uma mesa-redonda durante nosso próximo Congresso”, em julho de 2012. E a Associação Francesa de Economia Política (Afep), criada há dois anos para promover mais pluralismo no seio da profissão? “Ainda não formalmente, mesmo que a questão seja, a priori, um consenso aqui”, indica-nos Nicolas Postel, secretário da associação. “Mas”, acrescenta, “considerar que o problema se limitaria à questão do conflito de interesses constitui, para mim, um erro.”

Privatização do expertise

Outro caso.
Na edição de 14 de fevereiro, o Le Monde publicou, no caderno “Internacional”, uma análise da crise grega. A jornalista Claire Gatinois citou diversos economistas, todos diretamente ligados ao mundo das finanças. Não há conflito de interesses aí: as funções estão claramente identificadas.

Christopher Probyn? “Economista-chefe do State Street, grupo financeiro sediado em Boston” (citado três vezes).
Natacha Valla? “Economista do Goldman Sachs” (citada três vezes).
Jésus Castillo? “Economista do Natixis.”
Sem contar os “especialistas da UBS”.
Sem dúvida, ela estima que os “economistas de banco” são os mais bem posicionados para analisar uma crise como a que balança a Grécia. “Por que seriam?”, objeta Postel. “Num assunto como esse não esperamos das mídias um relatório supertécnico de mecanismos financeiros obscuros, mas uma interrogação fundamental sobre o statusda dívida do país: é legítima? De onde vem? E, nesse plano, os economistas de banco não são necessariamente os mais competentes.”

Podemos imaginar um economista do Goldman Sachs afirmando que a crise grega vem antes de mais nada de uma dívida ilegítima que não deveria ser paga? “Não”, admite Gatinois, “isso me parece bem pouco provável.” “Para este artigo”, explica ela, “eu pensei que era interessante questionar os economistas de banco, mais liberais, para mostrar que eles também se preocupam com a situação grega.” Tratava-se, em suma, de apresentar, só uma vez, claro, o ponto de vista liberal.

Esse tipo de reflexo profissional parece mais frequente na grande imprensa do que a ideia de entrevistar, por exemplo, representantes sindicais – que são, ao menos, tão informados sobre os mecanismos e consequências do drama social em curso quanto os economistas liberais.

Em outubro de 2011, por exemplo, Gatinois deu a palavra a quarenta economistas, grupos de economistas ou similares. Vinte e nove trabalhavam diretamente para bancos ou instituições financeiras. Três se expressaram em nome de sindicatos. Entre 1º de setembro de 2008 e 31 de dezembro de 2011, o Le Mondecitou Artus – responsável pela pesquisa para o banco Natixis – em 147 artigos. Mais vezes que Jacques Attali (132 artigos) e que Alain Minc (118). E muito mais que Jean Gadrey (5 artigos sobre questões econômicas) e Frédéric Lordon (4). Proporções similares a essa são observadas nos jornais Libération ou Le Figaro, assim como na maioria das revistas.

Nessas condições, a transparência pode ser suficiente para influenciar a tendência natural dos profissionais das finanças a defender... os interesses das finanças? No fim de nossa conversa, Gatinois solta: “Reconheço que, de fato, não apresento todos os pontos de vista”.

Links:
O artigo original: Les économistes à gages sur la sellette, Le Monde Diplomatique, Março de 2012.
Versão portuguesa: Os economistas engajados, Le Monde Diplomatique Brasil, Março de 2012

2 comentários:

  1. maria19.4.12

    Mas isso é o lugar comum da intelectualidade (não apenas na área econômica), se vender pelo melhor preço, submeter-se aos interesses do comprador, e de lambuja,ocultar a identidade do dono, fingindo participar apenas de "angelicais" confrarias universitárias, onde se um ou um grupelho afirma o contrário do outro ou do outro grupelho, trata-se de contendas acadêmicas, baseadas em teorias científicas díspares, ou no máximo entre especialistas com ideologias diferentes. Nisso só acredita quem nunca viveu, de olhos bem abertos, em semelhantes antros da delinquência acadêmica, as universidades contemporâneas, e seus centros de excelência investigativa. Abraços

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  2. maria19.4.12

    Olá Max: esquecendo o partido e as eleições presidenciais (se te fizer gosto) que tal discutir essa proposta em termos de saída, quem sabe, exequível para a Europa meridional?
    "A proposta passa pela constituição da VI República Francesa, mas não fica apenas entre portas. Rejeição do Tratado de Lisboa e do Pacto Orçamental; um Banco Central Europeu sob controlo democrático que empreste o dinheiro - a juros baixos, ou mesmo sem juros, - aos Estados e não aos bancos como faz atualmente. A criação de um fundo europeu de desenvolvimento social, ecológico e solidário para repartir os financiamentos entre os países do Euro na medida das suas necessidades. A renegociação e anulação parcial da dívida dos Estados. O que se leva a votos é uma outra França e uma nova arquitetura para a Europa, uma nova cultura política. Num momento de recomposição agressiva do capitalismo é também esta solidariedade entre os povos que está a encher as ruas." Abraços

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