10 abril 2012

Grécia: tudo normal

Grécia? Pois é, Grécia.
Se os órgãos de comunicação fossem coisas sérias, falariam dalguns dos problemas que atravessam o País helénico.

Claro, não puderam evitar a história do reformado grego, o ex-farmacêutico que deitou-se fogo na Praça Syntgama, farto de ter de procurar no lixo algo para comer.
Mas além destes acontecimentos de qualquer forma "espectaculares" e "mediáticos "(pois os media gostam de histórias "fortes"), há outras realidades que continuam ignoradas.

Nomeadamente, na Grécia acontece algo nunca visto num País ocidental desde a Segunda Guerra Mundial. E na Grécia não houve guerra, não nos últimos tempos: houve, e ainda há, o Fundo Monetário Internacional, a União Europeia. Há bancos.

A pesquisa "A Condição da Infância na Grécia 2012", assinada pela Unicef e pela universidade de Atenas, relata que no País são agora 439.000 as crianças que vivem abaixo da linha da pobreza, em condições desnutridas e insalubres. E com o termo "pobreza" é considerado o rendimento mínimo que uma família de quatro pessoas tem que ganhar todos os meses para pagar a renda e as necessidades básicas como alimentação, transporte, vestuário e educação.

Estas crianças vivem em famílias que representam um quinto das famílias de todo o País.
Neste quinto, 21,6% têm uma dieta pobre em proteína animal, 37,1% não têm aquecimento adequado em casa, 27,8% vivem em casas húmidas e 23,3% naquelas definidas como "más condições ambientais."

Embora os números oficiais falem de 21% dos gregos que vivem na pobreza (isso é, com um rendimento inferior a 470 Euros por mês), o número real já tocou (e talvez ultrapassou) 25%, que significa um quarto dos Gregos pobres.

Em números absolutos, dos 11,2 milhões de gregos, dois milhões e 800 mil não têm o suficiente para viver. Mas, de acordo com uma pesquisa da Sociedade Grega para a Luta Contra a Pobreza (EAPN), devido ao agravamento da crise, a Grécia poderia em breve atingir até 30% da população abaixo da linha da pobreza. Previsões recentemente confirmadas por um estudo da Fundação para a Pesquisa Económica e Industrial (Iobe), um prestigiado think tank.

Nos últimos meses, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (Elstat), mais de 400.000 famílias ficaram sem rendimentos, porque nenhum membro trabalha, enquanto mais de 60.000 famílias têm recorrido ao tribunal para consolidar ou renegociar as dívidas, pois demasiado pobres para poder pagar as prestações.
Acontece quando a política de austeridade corta salários e reformas.

O relatório também cita vários casos de crianças que desmaiam nas aulas por causa da desnutrição. Estes casos foram conhecidos com a notícia, em Dezembro, de Maria Iliopoulou, directora do orfanato em Atenas, que denunciou ter registado 200 casos de crianças desnutridas, sendo as famílias delas incapazes de alimenta-las. A mulher afirmou que os professores do Instituto por ela dirigido ficavam nas filas diariamente para buscar um prato de comida para os alunos mais necessitados.

Afirma a Iliopoulou:
Em muitas escolas de Atenas, a situação é ainda mais dramática porque algumas crianças desmaiam nas aulas por causa da fome.

O Ministério da Educação, que no início tinha definido a queixa como "propaganda", foi forçado a reconhecer a gravidade do problema. Assim decidiu distribuir aos estudantes de famílias pobres vales-alimentação com os quais poder comer no refeitório das escolas.

Mas há mais: na Grécia está de volta o trabalho infantil.
A pesquisa conclui citando uma estimativa UNICEF do Provedor de Justiça das crianças, segundo o qual na Grécia há mais de 100.000 menores que trabalham para contribuir para os orçamentos das famílias pobres.

Tudo isso enquanto o governo Papademos se prepara para divulgar o plano de recapitalização dos bancos helénicos: serão precisos cerca de 50 biliões de Euros, entregues pela dupla UE-FMI, para evitar o colapso do sistema bancário grego.

Sinceramente: podemos deixar falir os bancos? Claro que não. Porque, é explicado, se cair o sistema bancário, cai tudo.
As famílias, pelo contrário...


Ipse dixit.

Fonte: Il Sole 24 Ore

16 comentários:

  1. Anónimo10.4.12

    Excelente video!

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=D_v5qyvLh68

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  2. maria10.4.12

    Olá Anônimo: realmente perfeito o vídeo que o Anônimo recomendou. Não deixem de ver!

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  3. maria10.4.12

    Olá Max: triste, por demais triste. Eu sei que é pior ficar na miséria depois de ter vivido bem, do que sempre ter sido miserável. Mais triste ainda constatar que se continua sem nada fazer, simplesmente deixando a ciranda do enriquecimento seletivo acontecer.A cada império que se estabelece, muitos ricos são produzidos, e os anteriores consolidam suas fortunas, e assim milhões de pobres são necessários ´para alimentar a produção de ainda maiores fortunas. Parece que agora é a vez da Europa meridional produzir aquilo que no Brasil, o inesquecível, genial humorista Chico Anísio descrevera com perfeição:
    "...Ele tem 11 anos, mas parece menos.Pesa 30 quilos, mas parece menos.É brasileiro, mas parece menos.É um menino normal, ou seja: subnutrido,desses milhares de meninos que não pediram para nascer.Ao contrário, nasceram para pedir.Calado demais pra sua idade,sofrido demais pra sua idade,com idade demais pra sua idade.É, como a maioria, um desses meninos de 11 anos que ainda não tiveram infância. (...)Sequestrado não foi porque é um menino que nasceu sem resgate.Como vocês veem, é um menino comum, desses que desaparecem às dezenas todos os dias..."

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  4. Não é só a grécia Max. Faz uma visitinha aqui ao distrito de Braga ou do Porto e vais ver que as condições são iguais ou piores do que na Grécia!!

    A idéia de que se tem de reduzir déficit e dívida como condição de retomada é um disparate. O corte nos gastos públicos reduz a demanda, o emprego, o consumo interno e a própria receita fiscal, aumentando a relação déficit-dívida/PIB. A medida é, pois, contraproducente. Assim, independentemente do nível do déficit e da dívida, o primeiro movimento sempre terá de ser no sentido de aumentá-lo a fim de estimular o consumo, o emprego e o investimento. O movimento seguinte será no sentido da redução da relação déficit-dívida/PIB. É nesse ponto que entra em jogo a articulação tesouro nacional/banco central, da qual os países do euro estão excluídos.

    Em tese, se reduzirem déficits e dívidas, os países do euro teriam melhores condições de empréstimos no mercado privado. Isso é uma falácia. É a especulação que comanda o processo, mantendo os governos como reféns. Diante dessa situação, um plano para resgatar a Europa implicaria, antes de mais nada, mudar a forma de atuação do BCE. Os países endividados seriam autorizados a aumentar temporariamente seus déficits e sua dívidas, até encontrar o ponto do crescimento sustentável, enquanto o BCE, que acaba de disponibilizar para os bancos privados empréstimos de 1,3 trilhão de dólares, garantisse liquidez também aos governos, para que não fiquem como reféns do mercado em sua política de retomada.

    Não é preciso dizer que a alternativa é caótica: a proposta de Merkel, em vez de mudar o BCE, é reforçar sua linha ortodoxa e mudar o sistema fiscal europeu no sentido de reduzir todos os tesouros nacionais à política de cortes nos gastos públicos. Em suma, fazer da Europa uma Magna Grécia!

    J. Carlos de Assis Economista, professor de Economia Internacional da UEPB, presidente do Intersul e autor, junto com o matemático Francisco Antonio Doria, de “O universo neoliberal em desencanto”, recém-lançado pela Civilização Brasileira.

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  5. voz a 0 db10.4.12

    o ET veio ver o progresso da nossa espécie... sinal que já cá tinha andado pois já conhece o conceito de "escravos"...

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  6. É verdade... quando vi que escreves-te sobre a Grécia... ainda pensei que ias escrever sobre isto...

    É muito bom... Agora em caso de greve primeiro alugamos uns bófias para irem dar porrada e lançar "gás de choro" nos outros bófias... Fenomenal!

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  7. Pena que esta visão do paraíso estar excluída do contrato de aluguer... óóóóóóóóó

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  8. maria10.4.12

    “Não se trata de qualquer um pegar no telefone e pedir um polícia de aluguer”, é o que diz a notícia sublinhada como "isto" no comentário do Voz. E eu fico imaginando que não será qualquer um mesmo. Serão, como em todo mundo privatizado, aqueles que podem pagar, tem status, tem poder, influência política e negócios...
    Abraços

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  9. maria10.4.12

    Olá Voz: "o Et conhece o conceito de escravo". Logo, não é a primeira vez que passou pela terra. Comentário a altura do teu alcance. Juro que me passou desapercebido.Preciso ler menos coisas e prestar mais atenção no que leio. Abraços

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  10. FlávioAugusto11.4.12

    Olá, Max. Ontem o Nassif publicou um post que relata as possíveis origens da crise grega.

    Em resumo, fala que a origem da crise está na gastança do Estado, que seria uma espécie de mãe generosa para os gregos, e na falta de seriedade na fiscalização dos impostos. Isso procede??? Será que você poderia falar alguma coisa a respeito, já que eu tenho poucas informações da Grécia.

    O link do post é este: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/as-origens-da-crise-na-grecia

    Por favor, assinem a petição para que a Copa do Mundo de 2014 seja transferida para a Inglaterra. O Brasil agrade! Vamos mandar os mafiosos da Fifa tomar o dinheiro dos ingleses.
    http://www.petitiononline.com/Copa2014/petition.html

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  11. maria11.4.12

    olá Flavio: fui atras, pelas coisas escritas pelo Nassif mesmo,e não encontrei.Acho estranho que o Nassif possa ter escrito algo como descrevestes. Mas aqui mesmo,no botequim do Max, terás resposta as tuas dúvidas. Basta procurar pelo muito que já foi escrito pelo Max sobre Grécia. Abraços

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  12. Olá Pessoal,
    Anónimo,
    Esse vídeo é mesmo excelente, de forma que não resisti em divulgar! Pelos vistos, não fomos só nós aqui que gostamos... já circula na internet. Isso é que foi um achado! Obrigada. :)

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  13. Como é que é? Copa do Mundo na Inglaterra!?! Não pode... não, não...

    Se há coisa que caracteriza os Animais Humanos é "Só se aprende com os erros... cometendo-os"

    E como tal, vocês brasileiros, não pensem que fogem à regra... Lá por terem visto o fiasco absoluto, analítico, sintético que são as obras do betão e aço para mega eventos da treta, digo, desportivos, e outros do género, isto não basta para vocês serem capazes de evitar o erro... TÊM QUE FAZER... só assim vão aprender que não deviam ter feito... é estranho, mas entranha-se muito bem, especialmente passados uns anitos!

    Que tenham um campeonato do mundo de futebol cheio de turistas (afinal andam a limpar as favelas para quê?!?) e de dívida!
    Já agora que o Brasil ganhe (com ou sem ajuda dos árbitros! de preferência com que é para eu me RIR), é o mínimo que se pode esperar para um tal investimento financeiro... que está a dar trabalho (escravo) a tantos!

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  14. FlávioAugusto12.4.12

    Maria, só uma observação. Não foi o Nassif que redigiu o texto. No blog do Nassif, apenas alguns posts são deles. Uma parte é de leitores ou os textos são sugeridos por leitores.

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  15. FlávioAugusto12.4.12

    Caro voz a 0 db, Copa do Mundo não dá trabalho a ninguém. Os estádios que estão sendo construídos ou reformados são faraônicos. O Brasil não precisa de estádios. O Brasil precisa de escolas, muitas escolas. E as que existem estão todas caindo aos pedaços. Precisam de reformas urgente, mas estão gastando o dinheiro nos estádios.

    E pior é que o Brasil nem tem time para ganhar coisa nenhuma. Neymar é uma invenção da publicidade e da Globo. De uns tempos para cá, só tem perna de pau no time do Brasil. Então para que gastar dinheiro com Copa do Mundo??? Só quem ganham são os mafiosos da Fifa e os políticos do Brasil, que encontraram no evento mais um jeito de desviar boa parte do dinheiro. Se a reforma de um estádio custe R$ 2 bilhão de reais, pode ter certeza que R$ 1 bilhão ficará nas mãos dos políticos.

    Essa na verdade é a Copa do Mundo. Por isso eu gostaria muito que ela fosse transferida para a Inglaterra. Se Portugal quiser, também pode se candidatar.

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  16. FlávioAugusto... agora é que fiquei espantado... O Brasil é mesmo doutro mundo... "Copa do Mundo não dá trabalho a ninguém" - "Os estádios que estão sendo construídos ou reformados..."... Como é que então, se não é com trabalho, conseguem vocês "construir" ou "reformar" estádios novos ou já existentes?
    Não me digam que fizeram um acordo com o ET que nos vieo visitar para ver o nosso progresso... Progresso!!! Brasil... Ordem e Progresso... pronto não precisas de responder! Já vi tudo!

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