16 abril 2012

O fogo!

Diz Daniela:
Caro Max, já que estamos em período Pascoal, que tal espiritualizar o II, gostaria de saber sobre o Fogo Sagrado que aparece no Santo Sepulcro, nas cerimonias antigas até os dias de hoje, na religião cristã ortodoxa, que é uma divisão do catolicismo que conhecemos...ESTE FATO É POUCO CONHECIDO OU DIVULGADO,SERIA VERDADEIRO OU FALSO ? UM ISQUEIRO LEVADO PELOS RELIGIOSOS ATÉ A TUMBA?
Antes demais: muito obrigado Daniela!
Depois: confesso a minha ignorância, pois nunca tinha ouvido falar do Fogo Sagrado. Então fui pesquisar.
E o resultado é o seguinte.

a descida do Fogo Sagrado é um dos maiores milagres que se repetem até que o nosso tempo e acontece no Sagrado Sepulcro, em Jerusalém, em ocasião do Sábado Santo, mesmo antes do dia de Páscoa. É um milagre muito antigo, acerca do qual já falavam São Gregório de Nissa (394 d.C.), São João de Damasco (780 d.C.) e o historiador da igreja Eusébio de Cesaréia (século IV d.C.).

O que acontece é o seguinte:
Na véspera da Páscoa, o Patriarca Ortodoxo de Jerusalém entra no túmulo com as velas apagadas, após a remoção de todos os paramentos, excepto o "sticario" (uma túnica comprida). Depois de algumas horas de oração, aparecem faiscas, como pequenas gotas brilhantes.

O Patriarca recolhe as gotas e acende as velas. De repente o fogo propaga-se no resto da igreja, queima ao longo de 33 minutos e tem uma particularidade: não queima (assim dizem).

Dito assim parece simples, mas não é.
Em primeiro lugar: antes de começar as orações, o Patriarca é analisado pelas autoridades civis da Turquia e de israel, de forma que o religioso não possa trazer para o interior da Basílica substancia ou objectos suspeitos. A túnica dele é analisada ao pormenor.
Mais: também o Santo Sepulcro é analisado antes do começo da função religiosa e são postos selos em lugares críticos, com o carimbo das autoridades civis.

Eis o vídeo do momento alto da celebração deste ano, quando o Patriarca "encontra" o Fogo:



Explicações? Pessoalmente não sei.
Simples pensar em qualquer truque utilizado. Pode ser, não seria o primeiro caso.

Em Napoli, Sul Italia, a cada ano o sangue de São Januário (San Gennaro) contido em duas ampolas torna-se líquido e desde a Idade Média este foi considerado um milagre, algo que não era possível repetir.
Na realidade milagre não é: estudiosos italianos demonstraram que era possível obter o mesmo efeito com os seguintes ingredientes:
  • cloreto férrico, sob forma de molisite, um mineral encontrado nas área vulcânicas (e perto de Napoli há o vulcão Vesuvio);
  • carbonato de cálcio (cascas de ovos);
  • cloreto de sódio (ou sal comum);
  • água
Todos materiais amplamente disponíveis desde os tempos mais antigos.

Uma outra possível explicação foi avançada pela revista científica Nature (Working bloody miracles, 10 de Outubro de 1991), , segundo a qual na origem do "milagre" estaria a tixotropia, a propriedade com a qual determinados materiais "quase-sólidos" podem tornar-se líquidos se submetidos à solicitações mecânicas. É o caso do ketchup.

Portanto, um exemplo de "milagre" com muitas, mas mesmo muitas dúvidas...

E no caso do Fogo Sagrado?

O facto dos fieis afirmarem que o "fogo não queima" é um exagero: nos vídeos disponíveis na internet é possível observar que ninguém fica com as mãos acima do fogo por mais de alguns instantes. Isso não é milagre nenhum, podem experimentar o mesmo efeito com qualquer vela na vossa casa. Aliás, não experimentem, não quero ficar com a caixa de correio cheia de mensagens tipo "Caro Max, escrevo do Centro Queimados do hospital da minha cidade....".

A seguir: a única pessoa que consegue ver a geração espontânea do fogo é o Patriarca, eventuais câmaras não são admitidas no Sepulcro (na zona onde supostamente aparecem as "gotas de fogo"). E preparar uma vela para que esta possa ligar-se "espontaneamente" após alguns tempos não requer uma licenciatura.

A propósito: em 2008, o físico russo Andrey Volkov entrou no Sepulcro em ocasião das cerimonias pascoais e, em incógnito, efectuou algumas medições. O que encontrou foi um forte espectro de actividade electromagnética, com um maior impulso na frequência das ondas compridas ao aparecer do fogo. Ou seja: uma descarga eléctrica de muito baixa amperagem, de grande efeito psicológico mas tal da não constituir um perigo físico. E tal descarga seria também responsável pela energia azul que aparece nas paredes do Sepulcro.

Volkov acredita que na base do Fogo Sacro exista uma tecnologia baseada na electricidade: uma substancia capaz de reter a carga eléctrica que depois pode de facto tornar-se uma chama (o Patriarca utiliza algodão para recolher as pequenas "gotas" de fogo e o algodão é altamente inflamável).

Dúvida: tecnologia eléctrica na altura do Império Romano, quando o fenómeno começou a verificar-se? Resposta: sim, pois os Romanos bem conheciam tal energia.

Sei que nos livros escolares este assunto é tabu, mas os historiadores Plínio e Tito Livio, por exemplo, falam do Rei Numa Pompilio que conhecia o segredo para capturar o relâmpago e armazena-lo; Sérvio Tullio acreditava que os antigos não levavam o fogo aos altares, enquanto eram capazes de trazer o fogo directamente do céu com a oração.

Há o mistério das lâmpadas que não ardiam e que não eram alimentadas por combustíveis; e há também as mais recentes descobertas da Domus Aurea, da qual será preciso falar um dia.

E qual a posição da Igreja Católica?
Simplesmente: não há posição, pois Roma não fala do assunto (é importante realçar que Roma não reconhece o milagre de San Gennaro também).

No fórum dos católicos italianos,  o "milagre" do Sepulcro é tratado com suficiência:
O Fogo Sagrado do Santo Sepulcro é feito por sacerdotes ortodoxos, que estendem um fio quase invisível em que algo queima: não há nada de misterioso.
Embora os ortodoxos gostem de manter a mística.
Ou ainda:
No Monte Athos encontrei uma publicação em francês sobre o tema do milagre do Fogo Sagrado. Não aparece no Túmulo Sagrado, mas no Cenáculo. Entram os monges ortodoxos (que ricas vestes!) com uma vela apagada. Fecham a porta e depois dum tempo saem em procissão com a vela milagrosamente ligada. É precisa muita, muita !

Então isso prova que mais não é um milagre eu diria ... seria preciso enviar uma câmara escondida para ver se é um milagre ou se têm fósforos no bolso.
E mais:
A finalidade desta farsa, que foi inventada há alguns séculosé o espírito anti-ecuménico que distingue estes prelados barbudos.
Mas porquê todo este desrespeito? A explicação é simples:
Na Igreja Católica os milagres acontecem. Nas outras não é, ou melhor, não de maneira comparável.[...]
Não queremos dizer que Graça está a agir só na Igreja Católica: certo, apenas nela opera normalmente e totalmente.
Do ponto de vista católico, Santa Romana Igreja tem o direito exclusivo quando o assunto for o milagre. As outras igrejas têm que ficar contentes com "milagretes", o que exclui o Fogo Sagrado...  

Portanto: o Fogo Sagrado é um falso?
Resposta: não faço ideia.

Estamos na área de conflito entre Ciência e Religião, uma luta que dura há alguns séculos e que ainda não há um claro vencedor. Talvez porque não seja possível ter um único vencedor. Já falámos no blog deste assunto.

A Ciência ataca a Igreja por via da Fé, sem a qual, de facto, não poderia haver Igrejas. A observação, a medição e a capacidade de repetir as experiências são a chave para que a Ciência possa aceitar um facto como "cientificamente provado"; e neste aspecto os milagres ficam nas antípodas.

Mas é curioso o facto da mesma Ciência pedir actos de fé: ninguém alguma vez viu o Big Bang, a grande explosão que originou o nosso Universo. Simplesmente tempo que acreditar nisso.

Ninguém viu a vida surgir espontaneamente na terra primordial; aliás, para demonstrar isso a Ciência inventou o seu próprio Milagre de São Januário, o experimento Miller-Urey dos anos '50, que funciona (limitadamente) só com um pouco de "batota".

Ninguém alguma vez viu um animal evoluir: mas a Ciência pede para que todos aceitem sem dúvidas o Darwinismo.

E seria possível continuar. O facto é que a Ciência não consegue explicar tudo com o método científico, as provas apresentadas muitas vezes têm de ser ré-interpretadas perante novas evidências. Quando foi descoberto o primeiro esqueleto de Homem de Neanderthal, a primeira reacção da comunidade científica foi de estar perante os restos dum deficiente ou dum soldado duma anterior guerra.

Quem vive convencido de que tudo possa ser analisado e reproduzido num laboratório, simplesmente vive num mundo que não existe. Aliás, a história da Humanidade seria drasticamente diferente se tudo fosse ao alcance da Ciência.

Existem coisas que não percebemos, não podemos ignorar isso.
Será o Fogo Sagrado de Jerusalém uma destas coisas? Não faço ideia.
Pode ser um isqueiro, pode ser um fio. Poder algo mais complexo. Pode ser algo que não entendemos.

Eu sou céptico perante fenómenos que não é possível observar com mais atenção, pois parto da ideia que se a Igreja (Ortodoxa, neste caso) não tivesse nada a esconder, poderia deixar entrar as câmaras ou outros instrumentos de medição, por exemplo. Afinal, se o milagre for original, nada melhor de que poder gritar isso ao mundo inteiro com o auxílio da moderna tecnologia.

Não vejo porque alguém "lá em cima" teria que ficar aborrecido, até seria possível converter mais pessoas: a Igreja teria só a ganhar com isso, e o facto de recusar-se não pode não alimentar suspeitas.

Sei que este não é o ponto de vista de muitos fieis, mas é o meu e até lá fico com uma boa dose de suspeitas.  

Sempre lembrando que fechar-se na torre dourada da Ciência e excluir todo o resto é também uma péssima solução.


Ipse dixit.

Fonte: Euronews, Cattolici Romani

4 comentários:

  1. Anónimo16.4.12

    Já os egípcios conheciam a eletricidade. Há as "baterias de Bagdad" e gravuras de lâmpadas enormes (agora se são autênticas, se forjadas, isso não sei). E os romanos também estiveram no Egito...
    Se são autênticas, lembro que as sociedades secretas têm em seu poder manuscritos ancestrais...a partir dos quais talvez Benjamin Franklin se tenha baseado para executar a sua famosa experiência do papagaio de papel e da chave. Sim, Franklin era mação...chegaram a descobrir 10 esqueletos, 10 dos quais de crianças, debaixo do chão da casa dele, que datavam do tempo em que ele lá vivera, quando a estavam a remodelar para fazerem dela um museu.

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  2. Anónimo16.4.12

    Num dos últimos programas Roda Viva, da TV Cultura, um entrevistador perguntou ao Cardeal Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo: "O sr. acredita que os casais que tiveram relações sexuais pré-matrimoniais vão para o inferno?" Estranhei que um jornalista, num programa dirigido a público letrado, ainda esteja interessado pelo tema do inferno. Para a minha geração o assunto é mais antiquado do que antigo.

    O arcebispo respondeu o que a Igreja ensina há séculos: se alguém vai ou não para o inferno,só Deus pode julgar; sobre as relações sexuais pré-matrimoniais, a Igreja ensina o que sua pedagogia evidenciou ser o mais adequado para os jovens, isto é, as relações sexuais não devem ser banalizadas e existir num contexto de alteridade madura, o que implica respeito e amor.

    Quando a pergunta já vem viciada, a resposta precisa ser mais exigente para trazer o foco para algo de substantivo. Inferno e céu são estudados em conexão com o tema da vida eterna, que não constitui uma realidade independente, como algo que se ganha ou se perde após a morte em troca de um pacote de ações realizadas no decurso da vida.

    O atual Papa, que ninguém poderá arguir de novidadeiro em matéria teológica, na década de 60, quando era apenas professor em Tubinga, ensinava no livro Introdução ao cristianismo: "Todo amor quer eternidade. O amor de Deus não só a deseja, como a realiza e é." E na encíclica Deus é Amor, já como Papa, explica: "O cristão sabe quando é tempo de falar de Deus e quando é justo não o fazer, deixando falar somente o amor" .

    E m linguagem mais simples, a eternidade não se ganha e nem se perde; é o amor que vivemos aqui que ultrapassa o tempo e o espaço, projetando-nos para a infinitude de Deus. Segundo o pensamento tradicional da Igreja, toda pessoa que ama não ganha, não conquista o céu, ela já vive a eternidade feliz.

    Se quisermos falar como o poeta, diríamos, com Péguy, que o amor é "ce bord de l'avenir du côté du présent" (esta margem do porvir do lado do presente).

    A Páscoa, cujo clima ainda respiramos, é o momento em que o futuro se antecipou. A Páscoa se realiza cada vez que o amor consegue banir a violência, cada vez em que as forças da morte foram vencidas pela vida. Vamos ou não para o inferno? Responda quem fez a pergunta, mas antes se recorde de S. João da Cruz: "No ocaso desta vida seremos julgados pelo amor". De onde surgiu esta doutrina? Não é modismo de hoje, é do próprio Novo Testamento: "Sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os nossos irmãos. Quem não ama permanece na morte"

    Coisas antigas, mas não antiquadas.



    Domingos Zamagna é jornalista e professor de Filosofia.

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  3. Anónimo17.4.12

    não percam aqui neste canal:
    na próxima semana:
    como o coelho põe ovos de chocolate.
    mais perto do fim do ano, aula tecnica:
    papai noel e seu trenó turbinado 3 ponto zero.
    emerson57

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  4. DANIELA22.4.12

    MAX, MUITO OBRIGADA, ARTIGO EXCELENTE,ESCLARECEDOR, SEMPRE APRENDEMOS COM VOCE .
    SERIA MUITO BOM SE FOSSE VERDADE, MAS É MAIS UMA MANIPULAÇÃO RELIGIOSA,VOCE TEM RAZÃO SENÃO DEIXARIAM INVESTIGAR E TODA HUMANIDADE ACREDITARIA EM DEUS.
    HÁ SIM, PORQUE TEM QUE SE PROVAR QUE ELE O BOM DEUS EXISTE MESMO, AFINAL COM TANTA TECNOLOGIA !!!MAS DEUS É E NÃO PRECISA PROVAR NADA .NÓS HUMANOS É QUE TEMOS QUE PROVAR QUE EVOLUÍMOS, QUE NOS MELHORAMOS DIA A DIA, COM RESPEITO E AMOR AO PRÓXIMOS E NÃO TÃO PRÓXIMOS, ACHO MESMO QUE SEREMOS ATRAÍDOS PRA ESPAÇOS NO CÉU OU DIMENSÕES POR AFINIDADES.
    HOJE ESTAMOS MISTURADOS PARA APRENDER,DICERNIR, EVOLUIR.MORTOS IREMOS PARA ESPAÇOS QUE MERECEMOS SEGUNDO NOSSAS OBRAS.ONDE ESTIVER NOSSO CORAÇÃO ,AÍ ESTARÁ NOSSA RIQUEZA ...ABRAÇO APERTADO, MUITO OBRIGADA

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