27 abril 2012

O juro composto

O que é o juro composto?
É o juro de cada período que é somado ao capital para o cálculo dos novos juros nos períodos seguintes.

É o juro da dívida pública.

Para perceber como funciona, sendo hoje Sexta-feira Dia Mundial dos Contos (assim decidi), eis uma parábola.

Havia em Belém uma família cuja existência tinha sido abençoada com o nascimento dum filho.
Maria, a mãe, foi ter com o pai, José:
- Ó José, sabias que acabaram as fraldas?
- Ahe? Se quiseres posso construir uma fralda em dois minutos.
- Ó José, tu és carpinteiro...
- Por isso: sabes quanto dura uma fralda de madeira?
- Deixa, José, deixa. Em vez disso, vamos até o novo centro comercial em Nazareth, que acabei o detergente da loiça também.

E foi assim que a família pegou no burro e viajou até o Sagrado Mega Store, novinho em folha. Aqui Maria comprou o detergente, as fraldas, um desodorizante para a casa de banho, enquanto José aproveitou para adquirir alguns pregos de chumbo, bons para os caixões.
Uma vez chegados à caixa, a funcionária apresentou o total.
- São 20,01 Dólares Romanos [nota: não esqueçam que na altura o território era uma província de Roma].
Maria pagou com uma nota de 20 e uma moeda de 1 Dólar.
- Não tem um cêntimo?
- Não, lamento, o meu marido usou todas as moedas para o parque dos burros.
- Não faz mal: fique com a moeda de 1 Dólar, eu vou tomar nota do cêntimo e da próxima vez a senhora salda esta ridícula dívida, pode ser?
- Ohhhh...é que não gosto de deixar dívidas...  
- Não se preocupe, minha senhora: o nosso Sagrado Mega Store aplica um simplicíssimo juro composto de 4% sobre as pequenas dívidas.
- 4% de 1 cêntimo? Tão barato. Então até a próxima.
Maria esqueceu logo da dívida: afinal era apenas um cêntimo e a vida ofereceu bem outras preocupações. Mesmo assim, o Sagrado Mega Store, entretanto adquirido pela JP Morgan, continuou a calcular o juro composto.

Até que um dia, no Paraíso...
- Ó Jesus, vens aqui por favor.
- Que foi mãe?
- Olha, lembrei-me agora: quando tu eras pequenino, eu e teu pai fomos até um centro comercial para comprar as tuas fraldas e deixámos uma dívida de 1 cêntimo. Não te importas de ir e pagar?
- Ó mãe, após mais de 2000 anos? Se calhar o centro já nem existe, não é?
- Ó Jesus, não é o dinheiro, é o princípio que conta. Depois temos que dar o exemplo, não é? Queres que tua mãe apareça nas revistas de gossip como "A Grande Devedora?". Faz-me este favor: vais, paga e quando voltares passa por Portugal e traz uma posta de bacalhau também.

Foi assim que o bom Jesus foi ter ao Sagrado Mega Store, hoje Centro Comercial Boa Vida, para falar com o departamento da contabilidade.
- Ah, sim, a pequena dívida...por acaso é uma das mais antigas, mas aqui ficamos com as contas todas, nada foge...faça o favor, sente-se. Vai um cafezinho?
- Não, obrigado, é que tenho uma certa pressa, tenho ainda que passar em Portugal...
- Então vamos ver: 1 cêntimo, com 4% de juros compostos, calculando 2011 anos. Mmmhhhh, o total subiu um bocado...
- Tá bom, afinal era um cêntimo...
- Sim, senhor Jesus, mas o juro era composto. E como se pode ler este número? Bom, para simplificar: suponha o meu amigo que vai saldar a conta em bolas de ouro...
- Bolas de ouro?
- Sim, do tamanho da Terra. Para saldar a conta agora são precisas 1.444 bolas de ouro do tamanho da Terra.

Após um tempinho, Jesus voltou ao pé da mãe.
- Então, querido, pagaste a dívida?
- Sim, com certeza...
- E o bacalhau?
- Cá está o bacalhau.
- Ó filho, mas está todo queimado!
- Eh? Ah, sim, houve um pequeno incêndio lá no planeta...

É assim que funciona o juro composto.
É assim que é paga a dívida pública.


Ipse dixit.

Fonte: Domenico De Simone (vídeo)

3 comentários:

  1. auhuahuahauhuhauhauha Tacar fogo seria o mínimo...

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  2. maria27.4.12

    Olá Max: olha, esta foi a melhor das tuas histórias para provar inequívocamente que isso que chamam de dívida pública, assim como outras tantas dívidas que supostamente os pobres contraem com os ricos, nada mais são que dispositivos de extorsão, camuflados por complicadíssimos cálculos matemáticos, com o que são exploradas pessoas e nações. Abraços

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  3. Anónimo27.4.12

    É o conto do vigário de fato e gravata, que nos é contado todos os dias.

    Quando o Socrates veio dizer o obvio, que a dívida pública era impagavel, caiu tudo em cima dele.

    Mesmo aqueles que sabem que assim é. Numa palavra: Politicos

    Krowler

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