13 abril 2012

O sonho da retoma

Há algo no ar.
É um sentimento, uma impressão.

Sobretudo é um conjunto de palavras: "O pior já foi, a retoma está aqui".

Expressões como "Nos Estados Unidos a queda acabou" ou "O Euro está fora de perigo" são cada vez mais frequentes nas bocas dos políticos.
Parece o mundo estar à beira dum novo Renascimento.

Este blog não quer ser "catastrofista". Há muitas maneiras de ser catastrofista, pois não é só prever gigantescos terremotos: também profetizar uma eterna crise ou a queda da economia mundial (ou das principais economias do planeta) é uma forma de ser forçosamente negativista.
O que tenta fazer este blog é ser realista: não é simples, mas é sempre melhor do que ser obtusamente optimista ou tragicamente pessimista.

E dado que a única maneira de interpretar a realidade é através dos factos, o que estes factos dizem acerca da crise? Dizem que a crise não acabou. Longe disso.

O maior "sinal" da retoma mundial reside nos Estados Unidos. O optimismo é patente nas declarações da administração Obama, que amplifica alguns dados económicos positivos. E que fique claro: são positivos. Mas nem sempre um sinal positivo é sinonimo dum quadro geral positivo.

Por exemplo. Os bombeiros chegam ao pé do Leitor e dizem: "Meu amigo, o incêndio na sua casa acabou". É este um sinal positivo? Depende. Pode significar que os bombeiros conseguiram domar as chamas. Ou pode significar que já não há mais nada para queimar: a casa foi-se.

Deficit da balança comercial

A administração Obama está aos berros para que em todos os cantos do planeta possa chegar a notícia  do crescimento dos postos de trabalho: é sem dúvida uma boa notícia, mas é só um lado da moeda. Os 227.000 empregos criados simplesmente mantiveram estável a taxa de desemprego: 8,3 % . E foram compensados ​​por um défice comercial aterrador: 52,4 biliões de Dólares , o maior nível desde o crash de 2008.

O deficit comercial é a melhor medida para entender se os empregos produzem riqueza suficiente para pagar os consumos. Se forem adicionamos empregos realmente produtivos, o deficit diminui, pois há mais produção no País e menor necessidade de importar do estrangeiro.

Um olhar sobre os dados revela que o emprego aumentou apenas 16% nos sectores primário e secundário: é aí que existe produção. Mas a maioria dos novos empregos ainda são registado em áreas como a saúde (26%), trabalho temporário (20%), hotéis (19%) e consultoria (16%): este é o sector dos serviços, não da produção. E o trabalho no sector dos serviços tem a tendência para desaparecer tão rapidamente como quando foi criado. É exactamente isso que aconteceu em 2008, antes da bolha dos subprimes rebentar.

Para simplificar, imaginemos que o Leitor seja dono duma empresa que produção de bens. Quais bens? Sei lá eu...olhem, uma empresa que produz refrigerantes com sabor de bife.
O Leitor assume: 16 pessoas para trabalhar nos refrigerantes, 26 para a limpeza, 20 para as entregas, 19 para a manutenção e 16 no escritório.

É esta uma empresa saudável? Não parece, aliás, o que podemos dizer é que esta é uma empresa gerida muito mal: aumenta a produção, aumentam os lucros, mas aumentam muito mais as despesas. Doutro lado, produzir refrigerante com sabor de bife já por si é uma ideia estúpida, o Leitor poderia ter escolhido outro tipo de produção, não é? Depois queixam-se...

Stress Test

Enquanto o Presidente Obama concentra-se no emprego (e já vimos com quais resultados), a Federal Reserve promoveu recentemente uma série de stress testes para mostrar que o sistema financeiro está em boa forma.

Um "stress test", lembramos, é como dizer uma simulação: é simulada uma situação de stress (económico/financeiro, neste caso) para ver como os bancos podem reagir. É um verdadeiro simulacro.

Infelizmente, mais uma vez, as manchetes dos jornais não dizem toda a verdade. Se calhar nem a metade.

Os recentes testes recentes foram pensados para medir a capacidade dos grandes bancos de sobreviver perante uma significativa queda dos preços das casas e das acções. Mas isso é estúpido, simplesmente porque estas duas bolhas (casas e acções) já rebentaram. A Federal Reserve ignorou (não acaso) outro cenário: como teriam reagido os bancos perante, por exemplo, uma crise do Dólar? Ou um aumento das taxas de juro? Estes cenários não foram testados.

Faz sentido testar cenários que os bancos já enfrentaram? Sim, faz sentido: os simulacros de incêndios devem ser repetidos, mesmo que um prédio já tinha sido alvo de tal infortúnio. Mas para que o simulacro possa ter uma verdadeira utilidade, deve ter em conta todas as variáveis, não apenas aquelas já experimentadas.

A subida das taxas de juros são não "um" mas "o" risco real. E a Fed escolheu ignorar o assunto. O que não é novidade. Em 2007, mesmo antes da crise subprimes, o presidente da Fed, Ben Bernanke, negava a existência de problemas no sector imobiliário; e uma vez rebentada a bolha, o mesmo Bernanke afirmava que os prejuízos teriam sido contidos. E todos sabemos como acabou.

Mas que aconteceria se o custo do dinheiro hoje (1,8%) atingisse a média dos últimos 50 anos: 5,2%?
O dinheiro mais caro seria o golpe fatal para uma economia ainda demasiado débil.

Inflação

Outro conceito espalhado é aquele segundo o qual a inflação não é realmente uma ameaça. Erro: a inflação nos Estados Unidos não é uma ameaça, é uma realidade.

A verdadeira taxa de inflação, calculada por observadores independentes, é de 10%. alta, muito alta.

"Mas qual o problema com a inflação?" pode perguntar o Leitor. O problema é que com a inflação o dinheiro perde valor: o dinheiro de todos, o dinheiro nas carteiras e nas contas dos cidadãos vale cada vez menos.

Por exemplo: os combustíveis.

Nos Estados Unidos o preço do combustível é de quase 4 Dólares ao galão. O presidente Obama está a tentar liberar o petróleo das reservas estratégicas para manter os preços baixos, mas não um problema de abastecimento. Estas reservas são para um curto período de crise que pode interromper o fornecimento de petróleo, mas não há nenhuma interrupção, há petróleo.
A produção de petróleo nos Estados Unidos é o maior desde 1993: é o consumo que está abaixo dos níveis de 1997 por causa da recessão.

O problema é a inflação: as pessoas têm menos dinheiro e poupam, começando na compra de combustíveis.

Demonstração? Um par de moedas de prata pré-1965 ainda podem comprar um galão de combustível, enquanto um par de moedas de normal metal pós-1965 nem prestam para comprar um pacote de rebocados. O metal precioso mantém o próprio valor, ao dinheiro não.

O Dólar perdeu tanto valor que o governo perde dinheiro com cada cêntimos produzido. Não por estes serem feitos de cobre (que é caro), mas por serem feito de zinco: um metal barato mas mesmo assim caro na mesma para os Estados Unidos de hoje. Então, onde está a inflação? Em todos os lugares!

A retoma, a tão desejada retoma...

E até aqui falámos apenas dos Estados Unidos. Nem uma palavra acerca da situação europeia, onde as medidas de austeridade da Grécia, Portugal, Espanha, Italia (só para citar as principais) cedo ou tarde apresentarão a conta.

Como repetidos muitas vezes, nunca foram resolvidos os problemas que levaram até a crise começada em 2008 nos Estados Unidos e transferida depois no Velho Continente, disfarçada como "o problema da dívida pública". Os perversos mecanismos que fizeram eclodir a crise dos subprimes estão todos aí, ninguém mexeu neles.

Pensar que tais problemas possam desaparecer só com o passar do tempo ou com a introdução de políticas de austeridade é uma pura infantilidade. É como fechar os olhos para não ver o mal. Mas mesmo com olhos fechados, o mal sempre aí está.

E mais: se não enfrentadas, as doenças alastram. O Produto Interno (PIL) da China é de +8,1 %. Um sonho para muitos Países: mas a verdade é que este é o pior dado desde o ano 2002.

Lamento, meus senhores, mas a crise ainda não acabou. Aliás: melhor ficar com as antenas bem endireitadas, porque vai haver novidades nos próximos tempos...


Ipse dixit.

Fontes: LewRockwell

1 comentário:

  1. Alias acho mesmo é que esse é o maior objetivo dessas notícias com meias verdades, pois assim sempre se poderá pegar a (quase) todos com a guarda abaixada para ver se conseguem dar o golpe fatal. Ainda veremos isso.

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