23 abril 2012

O verdadeiro rosto da Terra

Faz sentido falar de mapas geográficos neste blog? Sim, faz sentido.
Pode não parecer, mas faz todo o sentido.

Não é uma questão de curiosidade ou de cultura geral ; é que as imagens transmitem mensagens. As imagens passam, as mensagens ficam. Com o tempo, mais imagens e outras mensagens que se acumulam.
Após um determinado período, as mensagens interiorizadas tornam-se uma realidade (a nossa realidade): isso porque já não são activadas com meios exteriores (as imagens), mas provêm do interior, directamente de nós. 

Para esclarecer, vejam o seguinte mapa:


Mercator
O que é isso? A maioria dos Leitores deveria ter adivinhado (espero...): é o mundo, uma representação gráfica do nosso planeta. Aliás, não uma mas a representação gráfica.

Pormenor interessante: está errada.
Não um pouco errada, mas terrivelmente errada.

Percebe-lo é simples: a superfície da Europa é de 10.180.000 km² , enquanto a superfície da América do Sul é de 18.841.000 km². São mais de 8,5 milhões de quilómetros quadrados de diferença.
Podemos encontrar esta diferença no clássico mapa, acima apresentado?
Não, não podemos:

Parece o contrário: a Europa parece quase maior...

Isso porque o mapa é baseado na projecção cartográfica de Mercator.
Gerard de Kremer ou Cremer (em latim, Gerardus Mercator), cosmógrafo e cartógrafo flamengo, tentou algo muito difícil: representar em plano a inteira superfície dum globo. Com resultados amplamente imperfeitos.

Reparem: neste mapa, os Países definidos como "ocidentais" parecem ter uma superfície bem maior daquela real. Isso enquanto os Países em desenvolvimento (Sul América) ou sub-desenvolvidos (do Terceiro Mundo, como no caso da África) vêem-se "encolhidos".

Porquê isso é importante? Porque esta imagem transmite uma mensagem que não respeita as reais proporções dos Continentes e dos vários Países. Na projecção de Mercator, Europa, Estados Unidos e Canadá em conjunto parecem ter um quarto de todas as terras emersas. O que está bem longe de ser verdade.

Mas pensem nisso: um quarto é muito. E se quase um quarto do planeta partilhar as mesmas ideias, não será que estas podem estar correctas?
Peguem no caso da Europa e da África: lado ao lado, possuem as mesmas superfícies. Mais: a África está logo aí, abaixo da Europa, parece quase o quintal dos Europeus. Será tão injusta a exploração dos seus recursos em prol dum continente que é mais avançado e ocupa o mesmo espaço?

Afinal, se representarmos a democracia como uma circunferência, as várias facções ocupam "fatias" do círculo: maior a fatia, mais importante a voz democrática. Pode passar-se o mesmo com um mapa? A analogia é bem sugestiva...

Mas Estados Unidos, Canada e Europa não ocupam um quarto das terras emersas; e a Europa está longe de ter as mesmas dimensões da África.

Em 1974, o alemão Arno Peters publicou um novo mapa que dava uma representação exacta das superfícies dos continentes e dos Países. O mapa de Peters é este:

Peters
E as coisas mudam.
No centro encontramos a enorme África, com os seus 30.221.000 km² (quase 3 vezes a Europa...), mais à direita a Ásia, o maior de todos os continentes, com 44 milhões de km².

Pormenor: também este mapa está não um pouco mas terrivelmente errado.

Então? Que se passa? Ninguém é capaz de criar um mapa decente?
As coisas são complicadas.

Em primeiro lugar não podemos esquecer que os mapas da Terra são representações bidimensionais duma esfera (imperfeita, ainda por acima). Isso comporta grandes problemas do ponto de vista gráfico: as distorções.

Depois cada mapa reflecte o seu próprio tempo.

Mercator não fez um mapa "errado": pelo contrário, era um óptimo mapa que prestava na perfeição para a utilização à qual era destinado.
Mercator criou o seu mapa no ano 1569 com a intenção de fornecer um instrumento útil aos navegantes: afinal era a Época dos Descobrimentos, mais do que a exactidão geográfica, era importante a capacidade de traçar rumos bem definidos para encontrar a via da ida e do regresso. Neste aspecto a projecção de Mercator é perfeita no âmbito da náutica por via de algumas suas intrínsecas propriedades.

E dado que os Descobridores eram Europeus, Mercator fez um mapa no centro do qual encontramos a Europa (e, em particular, a Alemanha, sua terra natal).

O mapa de Peters, pelo contrário, foi apresentado nos primeiros anos '70 do século passado, anos de contestação, nos quais o mapa de Mercator era visto como um símbolo ultrapassado do colonialismo.
Peters, então, criou um mapa no qual os continentes mantêm as proporções. Isso, de facto, melhor representa os Países em desenvolvimento: mas Peters decidiu ignorar as reais "formas" dos Países, pois na altura era mais importante transmitir com o mapa a mensagem política.

O trabalho de Peters apresenta uma significativa distorção das distâncias verticais.

Tanto para ser mais claros: nos mapas de Peters, a Gronelândia tem o perfil duma panqueca após ter sido atropelada por uma vaca histérica, mas esta não é a verdadeira forma da ilha. O que Peters conseguiu, com sucesso, foi devolver aos vários continentes o justo espaço no mapa. Apesar da forma incorrecta, a Gronelândia é apresentada com a correcta extensão em relação aos outros Países.

Com o mapa de Peters podemos ter uma ideia mais correcta das efectivas áreas ocupadas pelos continentes: o mundo ocidental já não está no centro das atenções. Os mapas de Mercador são o espelho duma época passada, na qual a Europa dominava incontestada o resto do planeta. E a mensagem que transmite é, consequentemente, errada também.

Mas afinal, qual a melhor representação cartográfica da Terra?
Como afirmado anteriormente, qualquer representação plana da superfície esférica do planeta terá distorções. Existem centenas de projecções, todas com pontos fortes e fracos: as mais válidas, portanto, são aquelas que apresentam o melhor compromisso entre a extensão e a forma dos continentes.

Neste sentido, a melhor pode talvez ser identificada com o mapa conhecido como Winkel III (Winkel Tripel projection), um mapa de 1921 que o National Geographic decidiu utilizar como padrão desde 1998.
Mapa que tem uma particularidade: nenhum ponto é privo de distorção...

Winkel Tripel
Nota: para os interessados, Wikipedia versão inglesa apresenta uma boa variedade de projecções no seguinte link.


Ipse dixit.

Fontes: Stampa Libera, Wikipedia (Winkel Tripel)
Imagens: Wikipedia (Mapas)

3 comentários:

  1. Gosto da Azimuthal equidistant:

    http://en.wikipedia.org/wiki/Azimuthal_equidistant_projection

    http://i41.tinypic.com/9h06ls.jpg

    ResponderEliminar
  2. maria23.4.12

    Olá Max: todas as sociedades da escrita são extremamente vulneráveis a confundir representação com realidade. É fácil esquecer que tudo que está escrito é apenas uma representação, seja discurso ou imagem. As sociedades da escrita inventaram os documentos como prova de verdade, inaugurando um novo tipo de fraude: o documento falso. A cartografia, como demonstras no post,é um ótimo exemplo para demostrar como as representações variam em função dos interesses de quem as financia. Complementa um post anterior onde te referias as teorias econômicas oriundas de especialistas acadêmicos e que, ao mesmo tempo, trabalham para instituições financeiras. Estatísticas, mapas, tabelas e gráficos, discursos e laudas, documentos e teorias...todos meras representações de interesses em jogos de poder. E as criaturas humanas babando, e se gabando dos seus "conhecimentos" irrefutáveis. Abraços

    ResponderEliminar
  3. Anónimo24.4.12

    Mais uma vez, muito obrigado!
    Tenho um mapa mundi, em frente ao meu ecrã e nunca me toquei a respeito. São os detalhes que fazem a diferença.

    ResponderEliminar

Printfriendly

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...