13 abril 2012

Portugal: a queda em 3 simples passagens

E acabamos a semana com algo mais divertido: falemos da Zona Neuro.
Por exemplo: o que pode acontecer em Portugal (e também em outros Países em crise da Zona Neuro) nos próximos tempos?

Digo já: são só gargalhadas, um cenário mais simpático do que o outro.

Portugal, como sabemos, encontra-se numa situação privilegiada: falido, em plena recessão, com um tecido produtivo quase inexistente e não competitivo, com um governo que tenta destruir o que sobrou do estado social, dirigido pela dupla fatal Fundo Monetário Internacional/Banco Central Europeu.
E como se não fosse suficiente, hoje chove.

Pensará o Leitor: "Então privilegiado para porquê?".
Simples: contrariamente a maioria dos outros Países, Portugal não há nada a temer, pois é difícil que as coisas possam piorar.

E mais, Portugal pode também ficar descansado pois o seu futuro não depende unicamente dos Portugueses ou das esmolas-armadilhas do FMI/BCE: uma grave crise europeia (por exemplo: a falência duma grande economia como Espanha ou Italia) pode tornar inúteis todos os esforços de austeridade que com tanta alegria são implementados em Lisboa e arredores.

Por isso, olhemos com serenidade e boa predisposição para os possíveis cenários futuros.
E comecemos pela primeira fase do próximo futuro.



Fase 1: Crise de liquidez e de insolvência

Nesta primeira fase, o governo de Pedro Olha Que Passa Um Coelho (Tenta Vende-lo) não é capazes de realizar as medidas de estabilidade para impulsionar o crescimento, reduzir os gastos do governo e a dívida pública. As medidas fiscais podem não ser suficientes.

Dito entre nós: esta mais do que uma previsão é uma fotografia da actual situação.

As taxas de juros sobre a dívida pública voltam a aumentar até níveis insustentáveis. Uma vez ultrapassado esse limite, as taxas tornam-se mais volátil e aumentam a um ritmo muito mais rápido do que antes, enquanto o mercado gradualmente torna-se ilíquido (traduzido: menos investidores dispostos a comprar dívida portuguesa que, lembramos, por enquanto se encontra numa fase de congelamento: mas cedo ou tarde Portugal terá que voltar nos mercados...).

Variante (cenário mais provável): a dupla FMI/BCE não intervém com um novo plano de resgate, pois os Países da União Europeia não concordam com a nova medida (cenário 1), porque já empenhada num resgate de dimensões maiores e mais preocupantes (cenário2).

A falta de liquidez e a perda gradual e definitiva de acesso ao mercado piora a capacidade de pagar a dívida do País. Em poucas semanas ou meses (dependendo das condições de solvência do País), a crise passa da crise de liquidez para crise de insolvência, desta vez oficial.

A crise de liquidez atinge de forma brutal as principais áreas da despesa pública (salários, pensões, etc.). O Estado torna-se insolvente perante pessoas e empresas.

Enfim, Portugal é obrigado a renegociar urgentemente a dívida (cenário 1),  declarar bancarrota, parcial ou total pouco importa (cenário 2). O País fica afastado dos mercados ao longo de muitos anos.


Fase 2: as pressões deflacionistas

Sem a oportunidade de controlar a dívida, as enormes perdas pesam sobre os investidores e os bancos.

O medo espalha-se rapidamente no sistema financeiro e económico, há movimento de capitais para Países da Zona Euro "mais seguros" (isso sempre que não haja o concomitante default de outra e maior economia, no qual caso a coisa fica muito mais complicada).

Devido ao alto risco de insolvência de particulares e empresas, há uma forte crise do crédito e a crise atinge com força toda a economia portuguesa e, indirectamente, o seu sistema bancário, empurrando o País numa espiral descendente (de facto, a recessão já agora é uma realidade).

Efeitos em cadeia sobre investidores e pequenas empresas, filas nos balcões dos bancos para retirar o dinheiro dos depósitos, medo de que os bancos estejam sub-capitalizados e à beira de falência.

O governo é forçado a travar ou limitar a corrida aos bancos para salvar o sistema financeiro e a economia do colapso total.
Não há  recursos que possam ser investidos no crescimento (e também esta é já agora uma realidade) e há fortes pressões deflacionárias que levam o País a um prolongado período de crescimento negativo (já começado).
As receitas dos impostos são mais baixas do que o esperado (também isso já acontece) e pelo mau estado do sistema financeiro a situação de Portugal continua a piorar.

Nesta altura, sem uma urgente intervenção do BCE ou FMI ou Banco Mundial ou Espírito Santo, começa o procedimento para a saída de Portugal da Zona Euro.

Breve parêntese: eu sou a favor da saída da Zona Euro, mas há maneiras e maneiras de sair. Uma coisa é sair de forma ordenada e tranquila, bem outra coisa é ser empurrados para fora devido a uma crise irreversível que já atinge a economia do País.

Isso sem contar que não existe um padrão para a saída da Zona Euro, cenário que nunca foi estudado.

Voltemos para as previsões. Uma saída nestas condições tem custos directos e indirectos enormes (custos enormes para Portugal mas também enormes para a Zona Euro). É preciso voltar ao Escudo ou inventar outra moeda local.

A nova moeda inicia sendo fortemente desvalorizada, o que implica perdas nas poupanças, transacções económicas e financeiras bloqueadas (até nos tribunais) ao longo de meses ou anos. O sistema bancário português entra em colapso completo.

(nota: graves também as repercussões na Zona Euro também; provavelmente nesta altura seria re-construída em torno de apenas alguns Países, os "mais seguros", como a Alemanha, Luxemburgo e Países Baixos). 


Fase 3: A instabilidade política e as pressões inflacionistas/económicas

Cortes nos salários e pensões, desvalorização da moeda nacional no período subsequente ao Euro aumenta a inflação para indivíduos e empresas, que incorrem em perdas adicionais se incapazes de transferir os seus activos no exterior (o que faz o Pingo Doce na Holanda?).

Por causa do alto risco de insolvência, as taxas de juros para empréstimos e hipotecas disparam e a crise do crédito adicional leva a economia e o sistema financeiro para um longo período de crise.

A economia pode voltar a crescer em breve, graças à forte desvalorização (ver caso Argentina), mas isso acontece num País que tem prolongadas dificuldades económicas e financeiras, áreas que ficaram sem recursos para promover investimentos de longo prazo e despesa pública .

Na ausência de estabilidade económica e financeira, o investimento estrangeiro cai ainda mais, pelo menos no curto prazo.

As taxas de pobreza da população aumenta.
Estes mecanismos associados ao baixo consumo doméstico pode criar uma espiral perigosa que atira o País inteiro para um prolongado período de crise não apenas económica mas também política e social.

Nesta situação difícil de governar, os partidos radicais e extremistas pode ganhar um crescente consenso popular. A migração para outros Países europeus crescer ainda mais (já é uma triste realidade), causando eventualmente problemas diplomáticos com outros Países.


Entretanto, Unicredit...

Este o cenário possível, não obrigatório. Mas provável em alguma medida.

Obviamente tudo depende das variáveis que, como sempre, são múltiplas, complexas e interligadas. A intensidade e a velocidade de tais cenários de "morte e destruição" podem mudar a segunda das condições, e evita-los poderia ser possível com repetidas intervenções por parte das instituições financeiras europeias (os famosos "resgates") ou com uma improvável mudança de rumo na economia do Continente.

Mas em caso de problemas, a realidade não deveria ficar assim afastada de quanto escrito até aqui. Afinal Portugal não seria o primeiro País a entrar em falência (podemos desfrutar da experiência argentina, por exemplo) e os cenários apresentados foram elaborados por Diego Valiante, membro do European Capital Markets Institute (ECMI) e do Centre for European Policy Studies (CEPS).

E o Unicredit, um dos maiores bancos italianos, afirma num relatório apresentado no passado Janeiro:
As preocupações sobre o agravamento da situação da dívida soberana dos Países do Euro poderia levar à reintrodução de uma ou mais moedas nacionais ou, em circunstâncias mais graves, ao abandono do Euro.[...]
A saída ou a ameaça de saída do Euro por parte dum ou de mais Países da área do Euro e/ou o abandono do Euro como moeda, poderia ter efeitos negativos significativos em tanto nos relacionamentos contratuais em curso, quanto na quitação das obrigações por parte do Grupo UniCredit e/ou clientes do UniCredit Group, com consequente efeito adverso sobre a actividade e os resultados das operações e dos activos, passivos e/ou posição financeira do Grupo UniCredit.
É a primeira vez que com um acto oficial um poderoso banco europeu fala de uma tal hipótese e decide alertar também os investidores acerca duma possível dissolução da moeda única.
Um sinal dos tempos que mudam. 

Ah: bom fim de semana.


Ipse dixit.

Fonte: Relatório Unicredit (ficheiro em formato Pdf, em língua italiana), Sollevazione

1 comentário:

  1. Anónimo15.4.12

    Há +/- 5 anos que estou a contar com este cenário nada animador.

    A solução para Portugal na minha opinião será a mesma do Max; Saída da zona euro o mais rápido possível e de forma ordenada.
    Mas como por agora isto é um cenário que só alguns vão sonhando, é provável que quando tal acontecer a coisa fique realmente feia.
    É claro que Portugal vai manter a tendência em curso. O caminho para o crash.

    A propósito, vale a pena ver o filme 'Crash Course' do Chris Martensen.

    Krowler

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