12 maio 2012

Arte em Almada

É Sábado?
Já estava pronto um post acerca de Fukushima, mas sendo dia de festa não vamos maçar as pessoas.
Falemos, pelo contrário, de arte.

A Câmara do gulag de Almada decidiu comemorar as duas grandes festividades que o governo ainda não cortou: 25 de Abril dia da Revolução dos Cravod, e dia 1º de Maio, Festa do Trabalhador.

E fê-lo recorrendo à ajuda dum grande artista, do qual nem lembro o nome (pelo que é possível já entender quanto pouco profundos os meus conhecimentos na área). O resultado foram dois painéis que ficaram pendurado na frente da Câmara ao longo das últimas semanas.

Este blog não costuma tratar de artes, e esta é uma falha que admito. Por isso, é com grande prazer e um pouco de vergonha que tento redimir-me com a apresentação dos painéis em questão.

Será uma ocasião artística e de reflexão.


Painel 1: O acidente

O primeiro painel, o da direita, é o menos interessante. Peço desculpa ao Autor, mas apreciei muito mais o segundo. De facto, no primeiro somos espectadores dum acidente de trabalho, bastante mórbido.

Um trabalhador, símbolo de toda a classe operária de Portugal e não só, é atingido por uma serra circular. E, com grande azar dele, a serra parece intencionada a cortar as partes mais intimas do trabalhador, aí onde menos vezes bate o sol.

O trabalhador, evidentemente preocupado e já cônscio da inevitabilidade da mutilação, parece tencionado a agarrar algo à sua direita. Um telefone? Provável.
Ligará para pedir socorro? Ou para pedir férias antes do acidente estar consumado, justo para não ser despedido com a acusação de ser não idóneo? Fica a dúvida.

Dúvida que aparece também ao observar a figura em baixo. É evidentemente uma mulher, pelo que as hipóteses são:
  • é uma trabalhadora da empresa (facto que poderia ser confirmado pela cor do vestido, a mesma daquela do homem) que pede socorro.
  • é a esposa do trabalhador, a qual já consegue prever um futuro bastante complicado em termos de relacionamentos sexuais com o marido.
O facto é que no segundo caso, seria preciso admitir que o homem trabalhe perto de casa, com a mulher que eventualmente poderia ter trazido o almoço para poupar um troco. Mas na cena não aparece nenhum thermos, pelo que é mais verosímil a primeira hipótese.

Painel nº 2: Crianças e alienígenas

O segundo painel é bem mais interessante. Claro está, é uma questão de gosto pessoal, não de avaliação artística, que não me compete.

Nesta obra podemos encontrar a representação da República Portuguesa. E é uma representação bem actual: a República tem uma figura bem humilde, com o olhar para o céu, bem consciente da própria desgraçada condição. Sabe que sem uma ajuda divina não haverá hipóteses.

Mas o mais empolgante deste painel está nas outras figuras. A começar por aquela nua à esquerda: quem será?

Parece um deficiente físico, isso é, uma pessoa com sérios problemas. Gosto da ideia do artista ter desejado incluir neste dia de Liberdade também quem não conseguir libertar o próprio corpo das aflições que Mãe Natureza lhe proporcionou.

O artista demonstra assim ser pessoa delicada, sensível perante temáticas que bem poderiam passar despercebidas num dia em que as comemorações apontam para conceitos como Pátria ou Justiça. Justiça é também não esquecer os mais desfavorecidos.

Todavia esta figura é bem esquisita: em primeiro lugar, observando melhor, descobrimos ser uma criança. É fácil perceber isso, é só comparar com as proporções da mulher-República.

Depois, a criança segura nas mãos duas aves. Mas que aves?

Pombas não são, pois as proporções não permitem estes animais. Mais parecem gaivotas, mas os bicos delas são enormes, pelo que a explicação mais lógica é que sejam pelicanos. Para ser mais precisos: pelicanos anões.

O problema é que em Almada não há pelicanos anões. E nem normais. Qual o sentido duma criança nuas que sustenta duas aves desconhecidas na região? Será que o Autor desejou transmitir uma mensagem? Algo de mais obscuro, acessível apenas a poucos iniciados, tal como no Et in Arcadia Ego de Poussin?

Esta tese parece ser confirmada pela presença duma outra figura, desta vez bastante assustadora: um ser verde, que espreita entre a desgraçada República e a criança. Que figura será esta?

 
Obviamente não é um ser deste mundo. Um extra-terrestre?

A hipótese pode parecer improvável, mas reflectimos: a República olha para o céu, a criatura já apresenta sintomas duma incipiente transformação (vejam-se as manchas vermelhas nas pernas e no flanco).

Tudo isso faz lembrar algo que tenha a ver com o espaço, cúmplice uma mutação genética da nossa espécie.

Mas há algo mais: a criatura, apesar do aspecto quase demoníaco, não tem na verdade um ar ameaçador. Pelo contrário, parece até surpreendida, com a boca aberta num típico sintoma de espanto.

Fixando a figura, podemos até intuir um certo sofrimento dela, parece quase dizer: "Mas com tantos lugares na Galáxia, mesmo em Portugal tinha que aterrar? Já viram como estou? À direita uma morta de fome que espera por um milagre, à esquerda uma criança nua que trata pelicanos anões? Mas que raio de lugar é este?".

Como admito a minha falta de sensibilidade artística, da mesma forma sou obrigado a reconhecer a incapacidade na decifração desta obscura mensagem. Sobra apenas assim a leveza da alma, aligeirada pela sapiente mão do pintor que, com poucas e rápidas pinceladas, soube representar de forma magistral a realidade tal como ela aparece na mente dele.

E só na mente dele, para boa sorte.


Ipse dixit.

2 comentários:

  1. Max
    A minha interpretação é a seguinte:
    Na primeira figura , o Homem não está no trabalho, porque está desempregado, está em casa com a mulher que também não tem emprego, pode-se ver que o homem já nem tem dinheiro para poder comprar roupa, pois está em cuecas. O objecto circular é o jogo da Glória que o individuo utiliza para passar o tempo, enquanto utiliza o telefone para ligar para aqueles programas da TV que dão dinheiro..

    No segundo quadro, eu acho que o Ser verde é o o Primeiro ministro Passos Coelho, parece estar a segredar ao ouvido do jovem, para despir as cuecas, a que o jovem concorda, pois penso que aquele objecto branco seja um para de cuecas, ficando o jovem literalmente de cuecas na mão, enquanto a Republica assiste a tudo isto e parece não se importar

    Saudações
    Carlos Janeiro

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  2. A grande qualidade dos painéis expostos vai certamente determinar a sua conservação pela CMA como forma de evidenciar o padrão de qualidade que exige dos seus artistas eleitos. Nada melhor do que a análise de Max sobre tão importante e conseguido projecto, para evitar que algum apreciador mais desprevenido possa de algum modo deixar escapar o mais ínfimo pormenor.

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