10 maio 2012

Asterix e o Capitalismo de Estado

Qual a possível desfecho da actual crise global?

O historiador Eric Hobsbawm acredita que perante a crise capitalista, o "capitalismo de Estado" tem um grande futuro". E, segundo ele, isto é demonstrado pelos Países do Brics.
Interessante.

Vamos ler a entrevista publicada há poucos dias no semanário L'Espresso.

O Capitalismo de Estado substituirá o livre mercado

 A actual crise é diferente das anteriores?

Sim. Porque está ligada a um deslocamento do centro de gravidade do planeta: desde os velhos Países capitalistas para as Nações emergentes. Do Atlântico ao Oceano Índico e o Pacífico. Se na década dos anos Trinta todo o mundo estava em crise, com excepção da URSS, a situação hoje é diferente. O impacto é diferente na Europa em comparação com os Países do BRIC: Brasil, Rússia, China, Índia. Outra diferença, em comparação com o passado, é que, apesar da gravidade da crise, a economia global continua a crescer. Mas somente em áreas fora do Ocidente.

Vai mudar o equilíbrio de poder, inclusive militar e político?

No entanto estão a mudar o económico. As grandes acumulações de capital investidas hoje são os das empresas estatais e públicas na China. E assim, enquanto nos velhos Países capitalistas o desafio é manter o bem-estar existentes [...], nos mercados emergentes o problema é como manter o ritmo de crescimento sem criar problemas sociais. É claro, por exemplo, que a China tem uma espécie de capitalismo em que um estilo ocidental de welfare está completamente ausente, substituído com as massas de camponeses que entram rapidamente no mundo do trabalho assalariado. É um fenómeno que tem sido benéfico. A questão que permanece é se este é um mecanismo que pode operar por muito tempo".

O que está a dizer nos leva à questão do Capitalismo de Estado. O Capitalismo como o conhecemos significa aposta pessoal, criatividade, individualidade, a capacidade de invenção por parte da burguesia. Pode o Estado ser tão criativo?

O "Economist", há poucas semanas, tratou do Capitalismo de Estado. O argumento é que poderia ser óptimo na criação de grandes infra-estruturas e no que diz respeito ao investimento maciço, mas menos bom na esfera da criatividade. Mas há mais: não é tão óbvio que o Capitalismo pode funcionar sem instituições como o welfare. E a regra é que o welfare seja gerido pelo Estado. Então acho que o Estado Capitalista tem um grande futuro. "

E a inovação?

A inovação é orientada pelo consumidor. Mas o Capitalismo no século XXI não tem necessariamente que pensar acerca do consumidor. E depois, o Capitalismo funciona bem quando se trata de inovação nas forças armadas. Finalmente: o Capitalismo de Estado não é relacionado com o dever de crescimento ilimitado, e isso é uma vantagem. Dito isto, o Capitalismo de Estado significa o fim da economia liberal como a conhecemos nas últimas quatro décadas. Mas é a consequência da derrota histórica da que eu chamo de "teologia do livre mercado", a crença, muito religiosa, de que o mercado vai regular-se e que não necessita de qualquer intervenção externa.

Por gerações a palavra Capitalismo fazia rima com Liberdade, Democracia, com a ideia de que as pessoas forjam o seu próprio destino.

Temos a certeza? Na minha opinião, não é tão claro que os valores estejam associados com certas políticas que mencionou. O Capitalismo puro não está necessariamente ligado à Democracia. O mercado não funciona da maneira como os liberais teorizaram, como Hayek ou Friedmann. Simplificámos demais.

O que significa?

Eu escrevi há algum tempo que vivemos com a ideias de duas alternativas: o Socialismo ou o Capitalismo. Mas é ideia maluca. Marx nunca pensou isso. Ele explicou, porém, que este sistema, o Capitalismo, um dia teria sido ultrapassado. Se olharmos para a realidade, EUA, Holanda, Grã-Bretanha, Suíça, Japão, podemos concluir que não é um sistema único e coerente. Existem muitas variantes do Capitalismo. "

Enquanto isso, a finança predomina. Alguns dizem que o Capitalismo poderia fazer-se sem uma burguesia. É um palpite correcto?

Surgiu com força uma elite mundial, constituída por pessoas que decidem tudo na economia, que já se conhecem e trabalham juntos. Mas a burguesia não desapareceu: existe na Alemanha, talvez em Itália, não nos EUA e na Grã-Bretanha. Mudou é a maneira com a qual é possível fazer parte dela.

Isto quer dizer?

A informação é hoje um factor de produção.

Isso não é novidade. Mesmo os Rothschild tornaram-se ricos porque por primeiros ouviram da derrota de Napoleão em Waterloo, o que lhes permitiu "quebrar" a Bolsa...

Quero dizer uma coisa diferente. Hoje faz-se dinheiro com o controle da informação. E este é um argumento forte nas mãos dos reaccionários que afirmam combater as elites cultas. São as pessoas que lêem livros e que têm vários graus de instrução, encontram trabalhos rentáveis. Os cultos são agora identificados com os ricos, aqueles que exploram, e este é um problema político real.

Hoje ganha-se dinheiro sem produzir bens materiais, com derivativos, com a especulação na bolsa de valores.

Mas ainda ganha-se dinheiro também, e sobretudo, com a produção de bens tangíveis. Só mudou a forma como é produzido o que Marx chamava de valor acrescentado [a mais-valia, ndt]. Hoje já não é produzido pelos trabalhadores, mas pelos consumidores. Quando você compra um bilhete de avião on-line, você com o seu trabalho gratuito paga a automatização do serviço. Portanto é você que cria o valor acrescentado que faz o lucro dos "patrões". É uma característica da sociedade com um desenvolvimento digitalizado.

Quem é o "patrão" agora? Uma vez que havia a luta de classes.

A velha classe operária foi submetida a um processo de outsourcing [terceirização, mão-de-obra dos Países menos desenvolvidos, ndt] a partir dos velhos para os novos Países. É lá que deveria haver uma luta de classes. Mas os Chineses não sabem o que é. Sério, talvez tenham a luta de classes, mas ainda não conseguimos vê-la. Acrescento: a finança é uma condição necessária para o Capitalismo avançar, mas não é obrigatória. Não é possível afirmar que o motor que move a China é apenas o desejo de lucro.

É uma tese surpreendente, pode explicar isso?

O mecanismo por trás da economia chinesa é o desejo de restaurar a importância de uma cultura e uma civilização. É o oposto do que acontece na França, por exemplo. O maior sucesso francês das últimas décadas tem sido o Asterix. Não é por acaso. Asterix é um retorno para a aldeia céltica, que resiste a impacto do resto do mundo, uma aldeia que perde, mas sobrevive. Os Franceses estão a perder, e sabem disso.

Enquanto isso, no Ocidente há os banqueiros centrais que dizem o que fazer. Fala-se de contas, números, mas não dos desejos dos seres humanos e do futuro. É possível continuar assim?

A longo prazo, não. Mas estou convencido de que o verdadeiro problema seja outro: a assimetria da globalização. Algumas coisas são mais globalizadas, outras super-globalizadas, outros nada disso. E uma das coisas que não foram globalizadas é a política. As instituições que decidem a política são os Estados territoriais. Isso deixa em aberto a questão de como lidar com problemas globais, sem um Estado global, sem uma abordagem global. E isso diz respeito não apenas a economia mas também ao maior desafio que existe, o ambiente. Um aspecto das nossas vidas que Marx não viu é o esgotamento dos recursos naturais. Isto não significa ouro ou petróleo. Tomamos a água. Se os Chineses estivessem a usar metade da água per capita utilizada pelos norte-americanos, a água do mundo não seria suficiente. São desafios nos quais soluções locais são inúteis, se não num nível simbólico.

Existe um remédio?

Sim, se você compreender que a economia não é um fim, mas um meio dos seres humanos. Isto é evidente através da observação da crise. De acordo com as crenças antiquadas da Esquerda, à crise deve produzir revoluções. Não vi nada disso, se não alguns protestos dos Indignados. E dado que não sabemos quais são os problemas que vão surgir, nem podemos saber quais são as soluções. 

É possível fazer algumas previsões?

É extremamente improvável que a China se torne uma democracia parlamentar. É improvável que os militares percam todo o poder na maioria dos Estados islâmicos.

Você apoiou a necessidade de alcançar uma espécie de economia mista, pública e privada.

Olhe para a História. A URSS tentou excluir o sector privado e foi derrotada. Por outro lado, a tentativa ultraliberal também falhou miseravelmente. A questão é então como será a mistura de público com privado, mas qual será o objecto desta mistura. Ou melhor, qual o propósito de tudo. E o objectivo não pode ser apenas o crescimento económico. Não é verdade que a riqueza está ligada ao aumento da produção mundial total.

A finalidade da economia é a felicidade?

Claro

Enquanto isso, crescem as desigualdades.

E vão aumentar ainda, certamente dentro dos Estados, provavelmente entre alguns Países. Temos a obrigação moral de tentar construir uma sociedade com mais igualdade. Um País onde há mais equidade é, provavelmente, um país melhor, mas o grau de igualdade que pode suportar uma Nação não é de todo claro.

O que resta de Marx? Você nunca, em toda esta conversa, falou do Socialismo ou do Comunismo.

O facto é que nem Marx falou muito do Socialismo, nem do Comunismo, nem do Capitalismo. Ele escreveu sobre a sociedade burguesa. Permanece a visão, a sua análise da sociedade. Permanece o entendimento de que o Capitalismo opera gerando crises. E depois, Marx fez algumas previsões corretas no médio prazo. A principal é que os trabalhadores devem organizar-se como um partido de classe.

No Ocidente fala-se cada vez menos de política e mais de técnica. Porquê?


Porque a Esquerda não tem nada a dizer, não tem nenhum programa a propor. O que resta representa os interesses da classe média educada, e certamente não são centrais para a sociedade.


Ipse dixit.

Fonte: Contropiano

3 comentários:

  1. maria10.5.12

    Olha, Max: o Brasil,nunca foi, não é ,e dificilmente poderá ser definido como um sistema caracterizado futuramente como capitalismo de estado. Ou então eu não tenho a mais mínima ideia do que seja capitalismo de estado. Bem...é claro que eu devo estar errada, porque afinal este historiador que, curiosamente compara os acontecimentos com um referencial teórico filosófico e não com a conjuntura histórica, não é "o" historiador? Abraços

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  2. maria11.5.12

    Olá Max: pois não é que encontro justo depois de ter lido a entrevista com "o" historiador, um depoimento fantástico de Thomas C. Mountain no blog do Gilson Sampaio, demonstrando por a+b, como o sistema político foi globalizado (contrariando a concepção do historiador da entrevista).Deem uma olhada! Do meu ponto de vista (que não esqueçam que é apenas a vista de um ponto), simplesmente magistral.Abraços

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  3. Anónimo11.5.12

    "E uma das coisas que não foram globalizadas é a política. As instituições que decidem a política são os Estados territoriais. Isso deixa em aberto a questão de como lidar com problemas globais, sem um Estado global, sem uma abordagem global. E isso diz respeito não apenas a economia mas também ao maior desafio que existe, o ambiente. Um aspecto das nossas vidas que Marx não viu é o esgotamento dos recursos naturais. Isto não significa ouro ou petróleo. Tomamos a água. Se os Chineses estivessem a usar metade da água per capita utilizada pelos norte-americanos, a água do mundo não seria suficiente. São desafios nos quais soluções locais são inúteis, se não num nível simbólico."

    Traduzindo...

    "Precisamos de um governo global para controlar e ditar as regras da sociedade em prol do meio ambiente"

    Este é mais um a favor do governo mundial, portanto, mais um que não respeito e repúdio, assim como outros teóricos e intelectuais da Nova Ordem.

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