28 maio 2012

A economia "inútil"

Imaginemos: o Leitor tem um determinado montante e pretende entrar no mundo dos negócios para tornar o capital produtivo e juntar uns lucros que dão sempre jeito.

Como primeiro acto, contacta uma agência especializada e encomenda uma pesquisa de mercado para entender qual a situação: basicamente, como o mercado está orientado, o que pede.

Em seguida, decide qual o bem que será produzido, de acordo com os custos de produção e de distribuição, mais algumas características de acordo com as capacidade do Leitor e a visão das coisas.

Quantificado como 100 o capital que deseja investir, o Leitor destina uma mínima parte para os custos relacionados com a produção do bem, enquanto o resto (a grande maioria) é investido numa maciça campanha publicitária conduzida com um slogan atractivo que aponte directamente para o cérebro das pessoas.
Desta forma, o Leitor cria uma necessidade que antes não existia, nascido tendo como base o condicionamento da sugestão e a persuasão forçada. Muito simples.

As orelhas do rato da Tasmânia

Na verdade, o produto que o Leitor vende agora é inútil: na melhor das hipóteses é supérfluo, pois é apenas um entre os milhares de produtos expostos nas prateleiras de qualquer supermercado, todos com a mesma função. Pode chamar-se Danacol, Actimel, Bifidus Essensis, Acti Regularis e pode ser descrito como algo que faz emagrecer dormindo, tipo Somatoline Cosmetic. O limite é a fantasia.

Nos últimos tempos é moda realçar um ingrediente exótico: a aloe vera, as água do Mar Vermelho, os sais do Himalaya, os pelos das orelhas do rato da Tasmânia, todos com propriedades quase mágicas. Também neste caso é apenas uma questão de criatividade.

O trabalho e o emprego resultantes desta operação de marketing parece um buraco no meio do deserto: é cavado por milhões de trabalhadores e, em seguida, é novamente enchido e tapado. Pode parecer uma loucura, algo sem sentido, mas na verdade trata-se duma operação absolutamente necessária: a maior parte da nossa economia tem sobrevivido até hoje precisamente com este mecanismo perverso.

O problema nasce quando o mecanismo ficar partido. E é esta a nossa actual situação.
Quando o dinheiro no bolso começar a ser pouco, quando as despesas necessárias deixarem pouca margem, o sistema entra em crise e os gastos supérfluos são cortados. Fala-se de "crise".

É realmente crise? Sim, é se o mecanismo for aquele acima descrito. Não, ainda não é se as coisas forem vista numa óptica diferente.

Um dos sectores que mais sente a crise nestes dias em Portugal é o sector da venda dos carros: em termos reais estamos perante uma queda de 50% quando as vendas forem comparadas com o mesmo período do ano passado.
Isso significa que em Portugal já não há carros? Que há pessoas obrigadas a caminhar porque não podem comprar um automóvel novo? Nada disso. Todos em Portugal temos carro: o que mudou é que agora, em vez de trocar de carro à cada dois ou três anos, o prazo é maior.

Pode parecer um pormenor, mas não é: a nossa economia está baseada em boa medida nos gastos não necessários.

A reencarnação dos mosquitos

Isso significa que a crise é "falsa"? Não, a crise é verdadeira: porque se a nossa economia for baseada em produtos não essenciais, isso significa que muitos dos lugares de trabalho existem só porque são produzidos bens "acessórios". E quando um trabalhador perder o próprio salário, pouco importa se a ocupação dele era num tipo de empresa ou numa outra: sempre sem trabalho ficou.

O que importa realçar é que boa parte do mundo do trabalho, da economia, dos proventos das famílias encontram a própria origem no mecanismo perverso que literalmente cria as necessidades.

Não apenas a crise é "verdadeira" como é mais "abrupta": uma economia baseada na produção de bens supérfluos é por definição uma economia frágil.

Paro de escrever e observo o que há à minha volta.
Na zona do computador tenho:
  • uma bússola (para não perder-me quando for para a cozinha?)
  • 17 canetas e 33 lápis (!!!)
  • dois telemóveis (um não chega?)
  • 8 canetas usb
  • 6 isqueiros
  • uma carteira (que nunca utilizo) da Sampdoria
  • uma miniatura do carro Alfa Romeo da polícia italiana (útil nas perseguições dos mosquitos)
  • uma pequena estátua do Buda (para que as almas dos mosquitos possam reencarnar-se)
  • rato e teclado.
As únicas coisas necessárias são mesmo estas: rato e teclado, tudo o resto é supérfluo.
Esta é a sociedade do inútil, baseada em bens dos quais não temos necessidade.

O "inútil" não é sempre negativo, por várias razões.

O Homem não pode pensar apenas nos objectos indispensáveis, a vida seria um pesadelo: numa sociedade baseada exclusivamente no "necessário" não haveria desenvolvimento. Muitas das grandes obras artísticas, por exemplo, existem porque no passado houve pessoas que decidiram investir o dinheiro em coisas "inúteis" como uma pintura.

O mesmo discurso pode ser feito no caso do cinema, da literatura, da filosofia...

"A luta continua: mais Danacol!"

O problema é quando boa parte da economia ficar baseada no inútil. É difícil considerar o Danacol como uma obra artística, até é complicado afirmar que possa gerar benefícios (e, de facto, não gera: querem os efeitos benéficos do iogurte? Então comam iogurte, não esta porcaria). Não é  apenas um produto inútil, é mesmo estúpido, não enriquece, pelo contrário.

O problema é que no universo Danacol trabalham:
  • a agência que determina qual produto é pedido pelo consumidor
  • os pesquisadores que tentam encontrar um produto "novo" e atractivo
  • a agência de marketing que tem que fornecer a publicidade
  • os trabalhadores da empresa onde é produzido
  • a empresa que fornece a embalagem
  • os transportadores que entregam o produto final
  • os vendedores
  • a loja onde é vendido
E esta é apenas uma simplificação.

O que acontece quando as pessoas não tiverem o dinheiro para adquirir um produto inútil como este? O castelo de papel começa a ruir, os trabalhadores perdem o emprego, os sindicatos organizam manifestações nas ruas para que...para quê? Para que o Danacol seja produzido e vendido.

É paradoxal (na verdade não é: é simplesmente normal), mas os sindicatos pedem ao governo medidas para ré-criar as condições ideias nas quais o Danacol possa ser vendido.

Alguém se lembra duma manifestação na qual a palavra de ordem fosse "Basta com esta sociedade do supérfluo, queremos produtos sérios?". Ou o slogan era "Queremos trabalhar"? Então, como sempre, é só ligar os pontinhos.

O que se passa em Portugal, nesta primeira fase e na maioria dos casos (não em todos), é a crise do supérfluo. Na Grécia já entraram na segunda fase, onde falta o dinheiro para adquirir os bens realmente necessários e as famílias voam dos telhados. Mas em ambos os casos o ponto de parida era uma economia frágil, baseada num mecanismo nascido há 50 anos atrás.


Ipse dixit.

15 comentários:

  1. voz a 0 db28.5.12

    E não é fantástica? Esta Civilização?
    É do melhor que pode haver...

    De resto tudo começa na principal Agência Publicitária das actuais Sociedades auto-designadas como "Desenvolvidas"...

    Este é um dos principais motivos porque ninguém quer mudar o Sistema, pois sabem que a mudança apenas trará uma PROFUNDA E SEVERA ALTERAÇÃO DA EXISTÊNCIA QUE ATÉ HOJE TIVERAM... Por isso preferem ir existindo na Ilusão... São preferências!

    Por falar em sobejo... Que tal está o "Rock in Rio" em Lisboa?!? Li que andam por lá os Escravos dos Inspectores das Finanças eheh!

    ResponderEliminar
  2. Anónimo28.5.12

    Concordo perfeitamente com esta an
    análise, e aproveito para recomendar o documentário sobre a obsolescência programada. Muito elucidativo :/

    http://www.youtube.com/watch?v=pDPsWANkS-g

    ResponderEliminar
  3. Anónimo28.5.12

    Tudo pode ser vendido, até lixo.
    duvidam?

    Então vejam isso:

    http://obviousmag.org/archives/2010/05/cubos_de_lixo_para_venda.html


    CUBOS DE LIXO PARA VENDA.
    Pode até servir de decoração ou para ajudar a dar uma utilidade para o lixo, mas mesmo assim, continua sendo lixo!

    ResponderEliminar
  4. Gostei da escolha de hoje. Lembrou-me um documentário que vi aqui há uns anos no Odisseia ou no People & Arts (não me recordo)sobre sociedades de consumo onde um senhor passeava num centro comercial e dizia algo como: se todos deixássemos de consumir por uns dias o sistema entrava em colapso. Junto com algumas coisas que já tinha lido entretanto sobre economia, este documentário foi mais uma daquelas coisas que se lê/vê e se fica a pensar.
    Ideia que me ficou desde essa altura: pois, a globalização é muito bonita, mas se não conseguimos ser autónomos nas nossas necessidades mais básicas (água, comida, energia)como será se um dia isto desmorona já que o dinheiro é maioritariamente virtual? Lido mal com a questão da virtualidade do dinheiro porque venho sempre o cenário de ir tudo ao banco levantar dinheiro e... nada.
    E por que razão é que a economia não dá prioridade ao essencial para se estruturar?!
    Na prática agora andam a trocar dólares por ouro e já li algo sobre o preço do trigo um dia destes. Depois vai-se lendo mais e percebendo melhor...
    A propósito da reencarnação do mosquito, da imagem do Buda e do que uma pessoa pode conseguir, lembrei-me de uma frase do Dalai Lama que li e fui à procura: “If you think you are too small to make a difference, try sleeping with a mosquito.”
    Era deste mosquito que falavas?
    :)
    Abraço
    Rita

    ResponderEliminar
  5. ainda a propósito do "inútil"... um desabafo... precisamos realmente de muito menos do que o mercado nos oferece... mas há coisas que são básicas/essenciais, no conceito da pirâmide do Maslow, e este momento que estamos e a viver estão a colocar tudo em causa, o inútil e o básico/essencial... isto sem esquecer que há muitos sítios no mundo que nem se arriscam a perder nada nesta fase, afinal nunca tiveram nada (água, comida, tecto), porque se perdem o pouco que lhes dão é mesmo a morte.
    e nós estruturados nesta economia "inútil"...

    ResponderEliminar
  6. maria28.5.12

    Olá Max:Hoje considero que vivo cercada de coisas bonitas,bem...que considero bonitas: memórias da minha história, coisas que ganhei, coisas que acabei trazendo de lugares distantes, e que me lembram situações alegres,amigos de longe, coisas que vi fazer, artesanatos.Inúteis? Não considero, porque todos os dias elas me fazem pensar,me alegram,me permitem recordar, re-significar experiências e sentimentos.
    Por outro lado, as coisas a minha volta, utensílios, móveis,materiais de construção, aparelhos, são "jurássicos"! Vem sendo restaurados, re-utilizados por outras casas de T.Â. Enfim, não só a comida, a água e a energia aqui, mas de tudo que se usa,se utiliza até o fim, nada vai fora, é tudo transformado e re-aproveitado. Reconheço que no meio rural, onde fontes de energia e água são tiradas do lugar, onde existe lenha a vontade, onde é possível reutilizar praticamente todo o lixo e dejetos, isto é mais fácil de ser posto em prática, mas a mentalidade autônoma e anti-desperdício ajuda muito. Digo autônoma porque antes de comprar, um dos meus princípios é perguntar: não é possível fazer? isso é necessário mesmo? tem alguém que tenha de segunda mão? Creio que se todos nós tentássemos agir desta forma,a estratégia propagandística de inventar novas necessidades sofreria um revés e teria que ser repensada. Agora, se as pessoas só deixam de comprar quando não tem dinheiro, isso me parece péssimo.Abraços

    ResponderEliminar
  7. "!ser autónomos nas nossas necessidades mais básicas (água, comida, energia)"
    diz Rita. Pois.

    O problema é que a globalização está exactamente no sentido contrário.

    "E por que razão é que a economia não dá prioridade ao essencial para se estruturar?!"

    O problema é que há várias maneiras de destruir um Estado (ou um conjunto deles, claro). Ao lado duma elite política corrupta deve existir também uma economia que seja forçada a recorrer à trocas com o exterior. Só desta forma os Estados podem perder integralmente a própria autonomia.

    Todos conhecemos o estado lastimável da agricultura em Portugal, mas ninguém mexe um dedo há décadas. Possível que governos de Direita ou de Esquerda não sejam capazes de favorecer um sector que sempre foi vital em qualquer País?

    Porque a cada ano há laranjas produzidas em Portugal que são destruídas enquanto nas prateleiras encontramos laranjas do Chile? Porque a economia global requer troca de mercadoria, mesmo que sejam trocas não necessárias.

    Isso está ligado também à questão das monoculturas, tão vivo no Brasil. Milhões de hectares destinados ao cultivo da soja. O Brasil é grande e por enquanto não adverte o problema. Mas é grande, não infinito.

    Por sua vez, estes assuntos estão ligados às sementes produzidas por um punhado de empresas (como a Monsanto) e o círculo fica fechado: é produzido o que é controlado, que por sua vez é vendido nos moldes indicados.

    ResponderEliminar
  8. "A propósito da reencarnação do mosquito, da imagem do Buda [...]"

    O Buda serve como arma final contra o mosquito, caso a perseguição da miniatura do carro da polícia não resulte :)

    ResponderEliminar
  9. Anónimo28.5.12

    Mais de 50% da coisas a que vulgarmente se dá importância não é precisa para nada...é preciso aprender a ser ascético.

    ResponderEliminar
  10. "Digo autônoma porque antes de comprar, um dos meus princípios é perguntar: não é possível fazer? isso é necessário mesmo? tem alguém que tenha de segunda mão?" diz Maria.

    Concordo, sem dúvida. Mas nem sempre é possível. Por exemplo: se tu fores em Portugal qual dono duma taberna, tens limitações muito fortes. Não pode usar utensílios de madeira,o que limita em muito a possibilidade de "construir" algo.

    E mais: a maior parte dos instrumentos têm que ter o marco CE, que é (supostamente) uma garantia de segurança, pois significa que uma determinada máquina, por pequena que seja, passou os teste de segurança.

    A possibilidade de criar algo para não comprar é extremamente reduzida.

    Claro, o discurso muda ao falar dum privado. Mas nem sempre é assim. Tens uma casa? O teu sistema eléctrico tem que respeitar determinadas normas e para que isso aconteça as várias partes devem estar certificadas. É um problema que conheço muito bem, pois em Italia era técnico de higiene e segurança.

    Esta é uma faca de dois legumes (sei que não está correcta a expressão, mas eu gosto assim): dum lado garantes a diminuição das ocorrências negativas (e este é um facto acerca do qual não se pode discutir).

    Do outro lado, todavia, exerces um controle apertado acerca dos materiais utilizados. E é preciso considerar que as normativas de higiene e segurança hoje em dia têm origem em Bruxelas...

    A minha avó fazia a polenta com colher de madeira e panela de cobre. Hoje uma coisa assim em qualquer restaurante mereceria uma multa de milhares de Euros: pena, porque a polenta à velha maneira tinha bem outro sabor....

    (nota: em Portugal não conhecem a polenta: horror!!!)

    Abraço!

    ResponderEliminar
  11. Exacto...
    controladinhos em todas as frentes.
    and it goes on and on...
    gostei do artigo.
    sim, a agricultura em Portugal é gritante... eis mais uma área económica deveras interessante... há uns tempos vi uma reportagem sobre a agricultura por cá e um senhor já bem velhote dizia que não alinhou em fundos comunitários para parar de produzir: "ninguém dá nada a ninguém". pensar pela própria cabeça...

    já agora gostei igualmente do relativo à Lagarde. o título é excelente.

    "O Buda serve como arma final contra o mosquito, caso a perseguição da miniatura do carro da polícia não resulte :)"

    LOLOLOLOL
    isso agora lembrou-me um clássico da pantera cor-de-rosa e o mosquito.
    então e o clássico sapato, ou a pantufa, ou uma almofada?
    mas percebo agora que afinal esses objectos não são assim tão inúteis e estão no sítio correcto ;)))

    ResponderEliminar
  12. maria28.5.12

    Vejam só pessoal: o terceiro mundo tem lá suas vantagens. O terceiro mundo no meio do mato,então, nem se fala, mais vantagens ainda. Eu faço a polenta com colher de pau e panela de cobre (aprendi com meu avô, italiano e anarquista), já fui perseguida por outros motivos - coisa de terceiro mundo também, vai daí as desvantagens - mas nunca por fazer polenta com colher de pau, a bem da verdade, pau de canela. Abraços

    ResponderEliminar
  13. Anónimo29.5.12

    Excelente este post.
    Olhei para cima da minha secretária e fiquei desanimado. Nem vou contar.

    Fica aqui um video engraçado do George Carlin : Stuff

    http://www.youtube.com/watch?v=Vpa0yjYsKh0

    Krowler

    ResponderEliminar
  14. Stuff... muito bom.
    não sei se ajuda, mas quando olhei para a minha secretária pensei o mesmo.

    ResponderEliminar
  15. Manuel C.4.6.12

    Se fosse pessoa de seguir uma religião, o George Carlin seria provavelmente UM DOS meus deuses!

    Frases como:

    I gave up on my species!

    ou

    Planet is fine, humans are fuck*d!

    entre outras...
    um comediante muito serio!

    Como tu Max, so recentemente me comecei a interessar pela economia, e a tentar estudar tudo o que com ela se relaciona. assim vim parar ao teu blog... e aqui venho ha bastante tempo silenciosamente.
    quebro aqui momentaneamente o silencio para te enviar um grande abraço sentido, de alguem que nem sequer te conhece, e que te pede encarecidamente que continues o bom trabalho informativo que fazes!

    Manuel C.

    ResponderEliminar

Printfriendly

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...