29 maio 2012

Entre gnomos e dragões

Economia. Pois.
Também a Economia sofre dos mesmos males que afligem a informação mainstream?
Sim, sem dúvida.

Pior: como a informação mainstream descreve o mundo "real", é obrigada a manter uma certa ligação com aquilo que os leitores podem observar. No caso da economia não há este tipo de limite, pois segundo as pessoas este é um assunto "complicado", "obscuro", algo que é melhor deixar nas mãos dos "especialistas".

Implicitamente é uma licença para dizer tudo e o contrário de tudo. É exactamente isso que acontece.

E o resultado é que todos, sem excepção nenhuma, ficamos retidos nas explicações dos especialistas. Explicações que nem são postas em dúvida. E como poderiam? Na altura em que decidirmos que devem ser outros a tratar dum problema, perdemos a possibilidade de saber quais as visões alternativas, porque simplesmente estas não são apresentadas.

Exemplo prático: porque há crise na Europa? Reposta: porque os Estados endividaram-se muito ao longo das passadas décadas, gastaram sem limites ao ponto que as suas dívidas públicas dispararam.
Esta é a explicação que todos, sem excepção, consideram como verdadeira: é repetida por todos os órgãos de informação, sejam mainstream ou alternativos. .

Problema: é falsa. Totalmente falsa.
Não são eu que afirmo isso, são os dados.
Façam o favor de observar este gráfico:

Entre 2000 e 2007 a dívida pública dos PIGS (Portugal, Irlanda, Italia, Grécia e Espanha) era estacionária (até baixou em alguns casos). O que cresceu foi a dívida privada em relação a credores estrangeiros.

Ops...esta não é a mesma história contada pelos media e por boa parte da informação alternativa, não é? Pois não é. Mas estes são os dados.

A dívida com o estrangeiro era basicamente privada.
Claro, a dívida nasceu privada e morreu pública quando as torneiras do crédito internacional fecharam e o dinheiro público começou a resgatar os bancos em dificuldades (crise dos subprimes, lembram? "Há bancos com produtos tóxicos, coitadinhos, temos que ajuda-los, caso contrário será a Apocalipse!"): aí a dívida transformou-se em pública porque os governos entraram de forma pesada com capitais públicos (o nosso dinheiro) para resgatar os bancos.

Mas ninguém lembra este pequeno pormenor: os Estados que hoje faliram ou estão à beira da falência não estavam mergulhados numa despesa pública sem fim, pois a crise que estamos a viver não foi provocada por ter vivido "acima das possibilidades".

Porquê este "pormenor" não é divulgado? Porque caso contrário não poderia ser justificada a austeridade, os cortes nos serviços, as privatizações. Mas isso agora não interessa.

O que interessa é que estes dados não chegam duma cave perdida no meio da Floresta Negra, guardados por um grupo de gnomos ferozes e um dragão que cospe chamas. Estão na internet, são de público domínio. É só procurar. Claro, as visitas dum blog não aumentam com gráficos assim, mas se a intenção é fazer realmente informação alternativa é destes dados que precisamos.

E voltemos aos dados.
Outro slogan de grande sucesso é aquele segundo o qual na Alemanha sim que sabem trabalhar, aliás, são os únicos na Europa com um pouco de juízo. Afinal merecem dominar o Velho Continente (velho sonho do Tio Adolf...).

E os dados? Dizem o contrário. Mas, mais uma vez, tanto nos media quanto no mundo da informação alternativa, todos calados.

Eis os dados:


Entre 1999 e 2007 a Alemanha teve um deficit em aumento em relação aos Países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China): o deficit com a China aumentou de 20 biliões de Dólares. O que acontece é que a assim chamada "locomotiva da Europa" vende produtos aos Países Europeus e com o dinheiro obtido compra bens chineses: a economia alemã faz crescer a China, não a Europa!

E mais: como já visto num antigo artigo, a competitividade da Alemanha está baseada não numa superior capacidade produtiva mas numa deflação salarial que funciona como uma desvalorização real.

Dito de forma mais simples: a Alemanha utiliza o Euro, pelo que não pode desvalorizar a moeda para tornar-se mais competitiva nos mercados internacionais; a única solução, portanto, é uma política de "moderação salarial". Que depois significa salários em queda.
Esta é a grande receita do exemplo económico europeu: o núcleo se alimenta da periferia, provocando os bem conhecidos problemas financeiros, baixa os ordenados internos e acumula dívidas em particular com a China. Genial, sem dúvida.

Mais uma vez: nada de gnomos, nada de dragões, mas dados que todos podem consultar. Sobretudo quem faz informação "alternativa"...

Uma tal situação tem consequências (as tais "previsões" do artigo anterior, lembram?): os vários resgates da Grécia ou de Portugal não funcionam.

A austeridade atinge em primeiro lugar o sector público que nunca foi a causa dos problemas. O que interessa tratar da dívida pública quando o problema for a dívida privada?
Fala-se de Eurobond, Títulos de Estado Europeus, como possível solução. Mais do mesmo: trata-se o parente do doente que está na cama.

O Banco Central Europeu sabe disso muito bem e no passado mês de Agosto avançou com uma proposta para facilitar o despedimento no sector privado. Paramos e pensamos: mas se o problema for a dívida pública, o que resolve despedir os privados?

Resolve, resolve.

Resolve se o verdadeiro problema não for a dívida pública mas a dívida privada. E como podemos tratar a dívida privada? Aplicando a mesma receita da Alemanha: criar um excesso de desemprego porque todos sabem que um trabalhador desempregado aceita uma salário mais baixo para não ficar em casa. E antes da crise, a Alemanha tinha a taxa de desemprego maior da Zona Euro.


Eis o "milagre alemão": mais desemprego, moderação salarial, margem de lucro maior para o sector privado. A mesma receita proposta em todo o continente.

Dados.
Como afirmado, estes são dados que todos podem consultar. É menos espectacular do que um choque com um outro planeta, mais complicado de que afirmar "é culpa do Haarp". Mas esta é a realidade, incontornável.

E se o desejo for entender o que se passa ,é para aqui que temos de olhar. Sem perceber estes simples mecanismos somos obrigados a:
  • acreditar nos dados que a informação oficial difunde
  • inventar teorias alucinadas para poder atribuir um sentido à realidade.
A leitura dos dados pode custar um pouco, mas compensa.


Ipse dixit.

Fonte: Goofynomics

13 comentários:

  1. Anónimo29.5.12

    Max, um pequeno contraponto: então e quando as empresas privadas se endividam por causa de serviços que os estados mandam fazer, e pelos quais lhes pagam?

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  2. Max, no meu tosco entender sobre economia acho que pouco importa de quem é dívida, se pública ou privada afinal quem acaba pagando por ela é o contribuinte. Em economia 1 + 1 nunca é 2, sempre é 2 vírgula alguma coisa e ao que me parece a raiz do problema são os número que vem depois da vírgula.

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  3. Caro Max e colegas de forum, penso que acharao este artigo interessante. Reflecte bem a falcatrua dos numeros do desemprego alemao.

    http://www.zerohedge.com/contributed/2012-09-27/german-unemployment-obfuscation

    No que toca as dividas publicas e privadas o golpe foi muito bem feito pelas elites corporativas que mandam no nosso mundo. Alavancou-se e especulou-se ate nao dar mais e quem pagou os custos altos da gananancia desses sociopatas acabou por ser, nao surpreendentemente, o povo.

    Abraco

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  4. “O que acontece é que a assim chamada "locomotiva da Europa" vende produtos aos Países Europeus e com o dinheiro obtido compra bens chineses: a economia alemã faz crescer a China, não a Europa!”

    Pois e se esta insanidade continua é bom que a fatia dos PIGS nas vendas alemãs não seja muito grande… ou o probleminha não assumirá outros contornos?

    Eu sei que existe a globalização, logo podem vender fora da Europa, mas a austeridade está a atingir os clientes alemães e o nível de vida dos emergentes dá para manter a fatia de vendas que tinham na Europa? Ou estou a delirar?

    Oferta e procura… oferta para quem realmente procura… mas não tem dinheiro para pagar.

    Por isso perguntava se é assim tão seguro comprar a dívida alemã… isto parece-me tudo tão caótico…

    Abraço

    Rita

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  5. @Tibiriçá.. Olá... Como já escrevi por algumas vezes, se a "coisa" não agrada basta alterar as fórmulas e/ou os algoritmos, para que a Ilusão passe a ser a "Realidade" que se quer transmitir às pessoas...

    "elites corporativas que mandam no nosso mundo" mais conspirações! Assim não dá!
    Como se alguém em seu perfeito juízo pudesse acreditar que tudo é controlado por duas mãos (quase completas) de Famílias!!!

    "Se não tivermos a capacidade de modificar algo que nós dominamos, como poderemos sequer sonhar em alterar algo que está fora da nossa directa influência…"

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  6. voz a 0 db29.5.12

    Para os mais distraídos como EU... PIL<=>PIB?

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  7. maria29.5.12

    Olá Max: acho que chegamos ao conceito "ideal" de informação alternativa, ou seja, aquela que re-escreve a "informação" dos mídia, a partir de dados factuais.E é disso que se precisa para ficar bem informado na internet, ou outros meios de informação independente do poder estabelecido.E ele suscita perguntas, como aqui.
    Muitas vezes a ausência da pesquisa, que cobras, passa por não saber o que pesquisar, ou qual a pergunta a fazer, para dar conta das dúvidas que se tem.
    Mas, penso que há também outro viés importante a ser explorado pela informação alternativa que se prese: uma espécie de informação investigativa, que aborda os temas sistemáticamente boicotados pela mídia, aqueles que não aparecem, então não existem para o senso comum. É aí que se corre o risco da invencionice, do catastrofismo, dos surtos de misticismo, dos contos de demônios, fadas e zumbis. Acho que preservar a informação alternativa é não dar respaldo a este tipo de suposta informação. Abraços

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  8. voz a 0 db29.5.12

    olá maria...

    Provavelmente a Maioria nem sequer tem assim tantas dúvidas que as leve a buscar algo para além do que lhes foi servido... Afinal o poder da TV é de tal forma potente que até nos transforma... Como tão bem a Rita nos indicou através desta ligação

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  9. Anónimo disse...

    "então e quando as empresas privadas se endividam por causa de serviços que os estados mandam fazer, e pelos quais lhes pagam?"

    Na verdade não é esta a dívida privada da qual se fala. A dívida aqui é aquela dos bancos.

    Os Estados utilizaram o dinheiro público parta recapitalizar os bancos, não as outras empresas privadas.

    As empresas que se endividam com o Estado não são muitas e a razão é simples: poucas podem suportar os atrasos nos pagamentos. O Estado não paga à 30 dias (não sei se é correcto escrever "à 30 dias", esta é uma expressão italiana: significa "no prazo de"), seria bom se isso acontecesse.

    Uma empresa que fica endividada com o Estado:
    - ou é gerida por um suicida
    - ou tem capitais suficientes para continuar a actividade mesmo sem o capital imobilizado nos trabalhados feitos por conta do Estado.

    Abraço!!!

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  10. Voz:
    "Para os mais distraídos como EU... PIL<=>PIB?"

    Mas querem ou não aprender o italiano? PIL = Produto Interno Lordo = PIB

    E basta com este Português cheio acentos graves, agudos, em forma de chapéu, cedilhas, tildes, mas o que é isso, um circo? Mas a tinta é de graça neste País?

    Percebo no Brasil, agora são ricos, mas em Portugal é tempo de austeridade, fogo!

    Quando for eleito Rei do Mundo vou escolher o italiano como língua universal. E os blogues em outros idiomas vão ser fechados, todos.

    Democraticamente, claro.

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  11. Anónimo30.5.12

    Olá, Max. Muito bom post e muito importante. De todas as espadas que temos sobre a cabeça (pico petrolífero, poluição de ar-terra-mar, etc.), a mais próxima é a da economia, ou seja, o previsível colapso do dólar, arrastado pela dívida americana. O capitalismo perdeu por completo a cabeça nos anos 80 e entrou por um caminho de endividamente galopante para financiar o crescimento. Agora a dívida americana é três ou quatro vezes mais alta do que o PIB americano. Com a sua economia em recessão (como de facto já estão há anos), os EUA nunca poderão pagar essa dívida. A Fed vai pôr-se a imprimir dinheiro à maluca? E gerar fatalmente uma hiperinflação ao estilo Rep. de Weimar? Vão declarar falência? Aconteça o que acontecer, vai gerar um turbilhão na economia mundial. Parece-me ser este o problema mais iminente: uma crise mundial de proporções inauditas.

    Não sei se conheces o vídeo The Crash Course. É longo, mas muito bem apresentado, bem legendado em português, e de deixar os cabelos em pé.
    Aí vai o link:

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=y92cHtYBQfY

    É o vídeo mais elucidativo que já vi sobre a relação entre economia, energia e ambiente (que os economistas liberais sempre fizeram por ignorar), e as perspectivas não são nada animadoras. Vale a pena vê-lo na íntegra. É informação importantíssima.
    Abraço,

    JMS

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  12. Anónimo30.5.12

    Já vi o Crash Course do Chris Martensen há algum tempo e achei muito interessante.

    Recomendo tambem este video do professor Albert Bartllet sobre a função exponencial aplicada à economia, energia e demografia.

    http://www.youtube.com/watch?v=F-QA2rkpBSY

    Aliás, penso que se complementam.

    Krowler

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  13. Anónimo31.5.12

    Max, mais uma vez acertaste na mouche...não é que ontem e hoje em Portugal as notícias vão todas nesse sentido:

    - A Comissão Europeia quer uma maior agressividade na redução dos custos laborais, em Portugal. Segundo as recomendações de política económica feitas por Bruxelas, é preciso ir mais longe nas reformas estruturais.

    Na reunião com os deputados portugueses, a troika já tinha dado a entender que existe uma ligação entre o crescimento do desemprego e a rigidez dos salários. Agora, a Comissão é clara na implementação de mais medidas no mercado laboral que reduzam os custos laborais.
    Para Bruxelas, o Governo precisa de se concentrar nas suas "dificuldades de competitividade".
    Medidas que deverão "reduzir os custos laborais, aumentar a flexibilidade, diminuir as barreiras à entrada e os lucros excessivos". Bruxelas avisa ainda que será necessária perseverança para "ultrapassar os interesses fortemente instalados que impedem as reformas".

    Sobre o desemprego, já nos 14,9% e considerado o principal risco social para Portugal, a Comissão não apresenta recomendações, a não ser que a duração do subsídio de desemprego é muito longa, devendo ser encurtada...

    Esta gente sem escrúpulos, já nem se preocupa em tentar dissimular as suas verdadeiras intenções... Por isso Max , está na hora de todos fazermos algo por nós e pelos nossos filhos.

    Um abraço

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