31 maio 2012

Palavras

Mais uma vez: as palavras.
Que são os instrumentos com os quais descrevemos a realidade: ao mudar as palavras, mudamos a realidade.

No passados dias 20 e 21 de Maio, em Chicago, houve a reunião dos 28 Países da Nato. Uma ocasião para celebrar "mais de 60 anos sem conhecer verdadeiras guerras".

Pois. Porque a primeira guerra do Golfo (1991), a guerra na Somália (1992), na Bósnia (1995), na Sérvia (1999), no Afeganistão (2001), no Iraque (2003) e na Líbia (2011) não eram verdadeiras guerras, eram mais "missões humanitárias" ou "operações de paz".
Na realidade, o que a Nato festejou foram mais de 60 anos sem guerra nos territórios dos Países Ocidentais. O que é ligeiramente diferente. Mas não importa.

Afinal esta é a força das palavras.

Wikipedia, por exemplo define a Nato como "a organização constitui um sistema de defesa colectiva na qual os seus Estados-membros concordam com a defesa mútua em resposta a um ataque por qualquer entidade externa".

Desta forma, caso um País da Nato seja atacado, a Nato intervirá no âmbito da defesa.
E quando não houver ataques? Neste caso será uma operação "humanitária" ou operação "de paz".

Por isso é virtualmente impossível que a Nato "ataque" um outro País: seja como resposta perante uma ameaça, seja como operação para salvaguardar a paz, com uma cuidadosa utilização das palavras o papel da Nato será sempre "defensivo", no máximo "preventivo".

Dito de outra forma: a Nato estará sempre do lado do Bem. Sempre, e disso não pode haver dúvidas.

Afinal estamos no campo da semântica, como bem sabe o simpático presidente Obama.

A redefinição do civil

Os Estados Unidos utilizam os drones para atacar alegados terroristas no Afeganistão. O problema é que os drones, apesar da definição exótica e high tech, são bombas voadoras: uma versão mais refinada das V-2 nazi. E, como todas as bombas voadoras, carecem de inteligência, mesmo que telecomandadas: limitam-se a cair e explodir.

Resultado: morrem os alegados terroristas, morrem os civis. Aliás, parecem morrer mais civis do que terroristas.

Com a recente publicação do livro de Daniel Klaidman, Kill or Capture, fica amplamente comprovado que o actual inquilino da Casa Branca sabia das mortes dos civis desde os seus primeiros dias no cargo.

Até agora pensava-se que o presidente não tivesse consciência dos pequenos "erros" dos drones; doutro lado o grau de inteligência do indivíduo e o seu papel de marioneta jogava em favor desta hipótese.

Bob Woodward, por exemplo, tinha relatado que o presidente só foi informado pelo chefe da CIA, Michael Hayden, de que os ataques tinham falhado alguns dos objectivos principais mas que, mesmo assim, os mortos eram militantes da Al Qaeda.

Agora também o correspondente de Newsweek, Daniel Klaidman, revela que Obama sabia das mortes dos civis passadas poucas horas dos ataques. Segundo Klaidman, Obama tinha ficado descontente e também questionava de forma agressiva as tácticas utilizadas pelo militares e, sobretudo, pela CIA.

Mas a voz de Obama conta o que conta na Administração. E os ataques dos drones continuam até hoje. Por isso a solução adoptada foi outra.

Afinal o que é um "civil"? Um civil é uma pessoa sem armas e sem farda. Isso agora. Mas no prazo de cinco minutos pode transformar-se num militar ou até num perigoso terrorista. Em outras palavras: um civil é apenas um inimigo potencial.

Eis explicado porque Obama adoptou um método de contagem das vítimas civis que consegue baixar os números dos "erros" dronescos. A Administração do simpático Obama agora considera como combatentes todos os homens em idade militar numa zona de ataque. A não ser que os serviços de intelligence consigam demonstrar a inocência deles.

Pormenor se calhar duma certa importância: esta operação de reconhecimento pode ser efectuada somente depois do ataque, não antes.

É uma metodologia que comporta alguns problema, sobretudo do ponto de vista dos civis, mas que permite que a Administração baixe consideravelmente o número das vítimas não desejadas. E Obama sai mais uma vez ilibado, o que é fundamental sobretudo num ano de eleições:  porque com a nova definição de civil, se este for numa zona de ataque deve ser obrigatoriamente um perigoso inimigo.

Então o ataque é plenamente justificado. Yes We Kill.
Não era um perigoso inimigo? Pena, Yes We Are Sorry.
Mas ficará sempre a dúvida: que raio estava a fazer um civil perto dum alegado terrorista? Esquisito, muito esquisito...

O almirante Dennis Blair, ex-director da National Intelligence:
É coisa politicamente vantajosa fazer poucas vítimas civis, não ter vítimas americanas, transmite uma sensação de firmeza. E calha bem internamente, só é impopular nos outros Países. Qualquer dano que ele causar ao interesse nacional só aparece no longo prazo.
A palavras, meus senhores, as palavras...


Ipse dixit.

Fontes: The Bureau of Investigative Journalism, Wikipedia

3 comentários:

  1. Anónimo31.5.12

    O Obama está a cada dia mais mostrando quem realmente é.

    Não passa de um bandido falsário, a serviço de terceiros.

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  2. Por falar em palavras, o que dizer destas "O Tratado de Lisboa reforça a democracia na União Europeia e a sua capacidade para defender os interesses dos cidadãos europeus no dia-a-dia." retiradas do site http://europa.eu. Dá vontade de rir quando falam de democracia referindo-se a um tratado que foi ratificado quase sem consulta aos cidadãos.
    O poder económico ficou independente do Estado já lá vão uns anos (neste momento manda mesmo em tudo), está na hora de serem os cidadãos a copiar essa emancipação e passarem a ter voz e participação nas decisões. Como? Pois... não sei... referendos (democracia directa), petições, manifestações, partir tudo, terrorismo, algo mais refinado como uma grande depressão...? Fica o mote para uma possível discussão de ideias no fórum. Acho importante tentarmos descobrir mecanismos para dar poder de decisão e voz aos cidadãos que neste momento sofrem todo o tipo de abusos e não têm capacidade para soltar o grito. Abraço

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  3. maria31.5.12

    Ótimo post, Max, as palavras também tem história. Elas entram e saem de cena, elas mudam de significado, conforme o lugar, o tempo, o acontecimento, o interesse, acabam viciadas ou causando a maior confusão. Palavras como democracia, liberdade, igualdade, comunismo, ética, autogestão,anarquia, vem sendo de tal forma diferentemente utilizadas, que melhor seria evitar utilizá-las, para não confundir o interlocutor. Nunca se sabe o que pode passar na cabeça do sujeito, quando se as usa. E aí a conversa desvirtua.Já os meios de comunicação, a partir das diretrizes dos especialistas estrategas, impõem ao senso comum nuances de sentido para uma mesma palavra/expressão dignas de piruetas circenses. E a coisa se espalha, se espraia no tecido social, e penetra. Fica a mancha. No Brasil, as palavras bandido e revolução, por exemplo, adquiriram sentidos precisos, consequência do exercício do preconceito de classe e da confusão política.Acerta-se mais,lendo tudo ao contrário: guerra é paz, ataque é defesa,libertar é subjugar. Abraços

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