06 junho 2012

A Dívida Privada

Espanha em sofrimento?
Assim acontece ouvir coisas destas na rádio:
O spread... é uma avaliação da dívida de governos e bancos, como podemos observar em Espanha.
Dívida. Ter uma dívida. O que significa isso?
Pego no dicionário (no sentido figurado, pois é o dicionário online da Porto Editora):
Dívida: aquilo que se deve.
Pois, bem me parecia.
Então temos que fazer uma pergunta: com quem estão em dívida os bancos?

Bah, em parte já conhecemos a resposta: os bancos tentam juntar dinheiro de várias formas, uma das quais é investir em operações financeiras.
Sim, tudo bem. Mas não é a razão principal: os bancos afinal concedem créditos.

Então vamos ver: os bancos estão em dívida com aqueles aos quais é preciso devolver o dinheiro, justo? Justo. Então significa que os bancos estão em dívida com aqueles que antes deram o dinheiro aos bancos, correcto? Correcto. E quem são estas pessoas que dão dinheiro aos bancos?
Resposta: os depositantes!

Ah, pois.
Simplificando: a principal dívida dos bancos consiste nos depósitos dos clientes.
O cliente deposita a moedinha, tu, banco, ficas com o dinheiro e quando o cliente pedir de volta a moedinha tens que devolve-lo. A conta do cliente é uma dívida do banco.

Clique para ampliar! Mas está em italiano...
Demonstração: no documento de Bankitalia à direita, Il bilancio bancario: schemi e regole do compilazione (O orçamento bancário: esquemas e regras de preenchimento), que define as normas para o preenchimento dos dados orçamentais por parte das instituições bancárias, é estabelecido que as contas e os depósitos dos clientes apareçam nas passividades.

Faz sentido.

Que dizer, pode fazer um pouco confuso, pois nós vemos o banco que fica com o dinheiro (um activo); mas na verdade o dinheiro não pertence ao banco, continua a pertencer ao cliente, portanto do ponto de vista da instituição esta é uma dívida, é dinheiro que terá de ser devolvido ao legítimo dono.

Ok, tudo bem. Mas então o que é esta "avaliação acerca das dívidas dos bancos"? É um juízo acerca do dinheiro que o banco guarda por conta dos clientes? Nada disso. Na verdade, esta expressão não significa nada. Mas nada mesmo.

Porque os problemas dos bancos hoje (em Espanha, por exemplo) não é acerca da dívidas, mas acerca dos crédito. Não o dinheiro que tem de ser devolvido, mas o dinheiro que os bancos querem fazer-se devolver. A "avaliação"; eventualmente, pode ser acerca da qualidade dos créditos dos bancos, pois este é o autêntico problema.

Que fique claro: as dívidas dos bancos (isso é, os depósitos dos clientes) podem tornar-se um problema, e grave até. Se todos os clientes corressem a retirar o próprio dinheiro depositado, os bancos não teriam condições para devolver tudo, nem de perto nem de longe (o Leitor não acredita que o dinheiro dele fica no cofre do banco, não é?). Foi isso que aconteceu em ocasião da crise dos subprimes, nos Estados Unidos, em algumas instituições bancárias.

Mas por enquanto não é isso que acontece no caso da Espanha ou no resto da Europa.
Por enquanto.

O que acontece é uma coisa bem diversa: as famílias e as empresas que antes tinham obtidos empréstimos, agora encontram dificuldades na devolução do dinheiro, no pagamentos das prestações.
Dificuldades surgidas em ocasião da crise económica e agora exasperadas com as políticas de austeridade ("sacrifícios agora para estar melhor depois"...lembra nada isso aos Leitores de Portugal?).

Repito: hoje os bancos têm problemas com os créditos, não existe um problema dos bancos ligado às dívidas.

Quem conseguiu um crédito nos anos passados e entretanto perdeu o trabalho, agora não consegue pagar as prestações da casa. Quem obtive um empréstimo para comprar uma nova máquina para a empresa, agora não vende e não consegue devolve o dinheiro.

Então porque podemos ouvir frases como "avaliação das dívidas dos bancos"?
A resposta é simples: porque os créditos dos bancos, aqueles créditos que os bancos não conseguem obter de volta, são as dívidas das famílias e das empresas. São dívidas dos privados.

E a expressão "dívida privada" já foi suprimida. Existe a dívida pública, sempre, porque o Estado gastou demais, fizemos todos a boa vida, só carros topos de gama e garrafas de Dom Perignon ao pequeno almoço, é por isso que temos de sofrer. Mas a ideia de "dívida privada" não, desapareceu e nem pode ser citada como hipótese remota.

Ainda aceite é a expressão "dívida dos bancos". Porquê?
Porque desta forma o ouvinte pensa em obscuras operações no limite da legalidade, com pano de fundo o perverso mundo da finança.

É verdade que parte dos problemas dos bancos deriva de investimentos, pois já lembrámos como os bancos tentem "diversificar" as próprias actividades. E nem vale a pena gastar mais palavras acerca das aberrações da finança internacional.
Mas os actuais e principais problemas dos bancos estão ligados à dívida privada: as pessoas e as empresas não conseguem devolver os empréstimos.

Claro, mais fácil a teoria alternativa, mais simples e mais útil: o problema está na dívida pública (e vai com a austeridade) e nas operações moralmente duvidosas dos bancos no mundo da finança (termo este último que irrita por definição). 

Porque se não existisse esta teoria seria preciso dizer qual a verdade. E esta não apenas dói como também levantaria fortes dúvidas acerca das anteriores práticas bancárias e da utilidade da actual austeridade.

Porque neste caso a verdade é que os bancos emprestaram demais e emprestaram mal.

Em Espanha, por exemplo, o activo das instituições bancárias aumentou 90 pontos do PIB entre 1999 e 2007. Uma enormidade, conseguida com a prática do empréstimo fácil.

Agora os bancos são frágeis e o perigo é a falência, tal como aconteceu e ainda acontece nos Estados Unidos (outros dois bancos falidos no passado mês de Maio: são 441 desde 2007). Os bancos entram em falência porque explodiu a dívida privada (não a pública!!!), e esta explodiu porque os mesmos bancos decidiram financia-la antes, com a prática do crédito fácil.

A dívida privada (isso é, os créditos dos bancos, tal como vimos) em Espanha era 197% do PIB em 2007.
Repito: c e n t o e n o v e n t a e s e t e p o r c e n t o.
E a dívida pública? 36%. T r i n t a e s e i s p o r c e n t o.

Os mercados não estão preocupados com a dívida pública, mas com a enorme e despropositada dívida privada.

Privada. Privada. Privada. Privada. Privada. Privada, Privada. Privada. Privada. Privada. Privada. Privada. Privada.
Não sei se ficou claro.

O sector privado espanhol tem dívida iguais ao dobro de todos os rendimentos do País.
Parâmetros de Maastricht? Pffff...

O problema é que quando a dívida privada ultrapassar 110% do PIB, começam os efeitos depressivos na economia, como explicava o prémio Nobel James Tobin (que hoje ninguém quer ouvir. óbvio, foi ele que introduziu em 1972 a ideia duma taxa sobra as transacções financeiras; e, pior ainda, era um discípulo de Keynes, aquele da Modern Money Theory...).

Em Espanha o crescimento médio entre 1980 e 2002 tinha sido de 2.9%. Em 2003 a dívida privada (repito: privada) ultrapassou 110% do PIB e entre 2003 e 2011 o crescimento médio foi de 1.69%.

"Sim, "pode dizer o Leitor, "mas isso foi  porque entretanto tinha surgido a crise".
Pois. E a crise porque aconteceu? Porque entretanto, num outro País, as dívidas privadas tinham ultrapassado 110% do PIB. 
E qual País será este? (dica: é grande, tem um presidente havaiano-irlandês-keniano...)


Ipse dixit.

Fonte: Bankitalia - Il bilancio bancario: schemi e regole di compilazione (ficheiro pdf, italiano), Il Graffio, Noise From Amerika, Vox

7 comentários:

  1. Marcelo6.6.12

    E como o Max sempre diz:

    Dívida pública = boa
    Dívida privada = má, muito má

    Querem esconder isso ou simplesmente não querem aprender???

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  2. Anónimo6.6.12

    No Brasil a Privada é aquilo que em Portugal chamamos de WC.
    Continuando o raciocinio, sigifica que a divida pivada é uma bela mer... porcaria.
    Com o crescente aumento de desemprego e com as empresas em dificuldade, eles sabem que a tendência desta dívida é para o incumprimento.

    Lembram-se de 1929? Milhares de bancos faliram na década de 1930.
    Então toca a proteger o sistema financeiro com a divida publica.
    A contrapartida são, as privatizações em massa e a preço de saldo, de sectores publicos que NUNCA deveriam sair da esfera pública. Banca, Energia, Educação, Saúde, Agua, e todos aqueles sectores considerados fundamentais para a soberania do país e bem estar das populações.

    O resto tudo nas mãos dos privados. Fabricas de corta-unhas, criação de galinhas, iogurtes magros, blusões de bombazine, peças para automoveis etc, etc. No caso dos iogurtes magros a publicidade devia ser proibida.

    Sou favorável a um modelo Keynesiano em versão alargada mas a tendência é a de um modelo Keynesiano em versão igual a ZERO. Tipo Coca-Cola Zero.

    abraço
    Krowler

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  3. Olá Marcelo!

    Sim, verdade: considero a dívida pública como um não-problema.

    Todavia, neste caso o que queria transmitir era outra ideia também: aqui na Europa não se fala de dívida privada.

    Não é que se fale pouco: não se fala mesmo. E isso é muito "esquisito", pois os bancos não emprestam dinheiro.

    Agora, se o problema for apenas a dívida pública, porquê os bancos não emprestam aos privados? Dado que os bancos não podem continuar a emprestar aos Estados (que oficialmente não têm dinheiro), seria lógico pensar que o mercado naturalmente favorecido nesta altura seria o privado.

    Mas o que se passa é que os bancos apertaram as regras do crédito e os privados têm cada vez mais problemas em encontrar empréstimos.

    E a razão pode ser encontrada nas notícias que os media transmitem de forma "soft", sem grandes debates ou mesas redondas como contorno: por exemplo, o crédito malparado continua a aumentar.

    E o crédito malparado fala dos privados, não dos Estados.

    No outro dia estava num banco, na fila. A empregada tinha a cara de quem acabou de perder o gato, até chegar um cliente chinês: este extraiu a carteira, um objecto que estava preste a explodir dada a quantia de notas.

    De repente, a empregada apresentou um sorriso duma orelha até outra, eu até tinha medo que a mascara se partisse e que relevasse a natureza Reptiliana da mulher.

    De facto, ver uma carteira como aquela é um espectáculo raro, tipo o trânsito de Vénus no disco solar, e actualmente parece uma exclusiva chinesa.

    Isso aponta para outro assunto que fica implícito no post: as pessoas (falo da Europa) estão cada vez mais pobres, mas as grandes atenções são para "a crise" de Portugal.

    Não, meus amigos, não há uma crise de Portugal, há uma violenta crise dos Portugueses, tal como há a crise dos Espanhóis, dos Gregos, dos Italianos...

    Abraçooooo!

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  4. Olá Krowler!

    Dívida Pública = Zero?
    Estava mesmo a escrever acerca disso ontem.

    Cedo ou tarde, neste mesmo canal...

    Abraçooooo!

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  5. Rita M.6.6.12

    Oh não! O regresso das cerejas ;)

    Gostei do artigo, não gostei do que li, o cenário é muito mau, mas acho que percebi realmente o que lá está.

    Gracias!

    Abraço
    Rita M.

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  6. Dramatic6.6.12

    Penso eu que deveria haver um equilíbrio entre serviços públicos e privados.

    Pois pelo menos aqui no Brasil, muitas vezes o serviço, por ser público, é de uma precariedade sem igual, digo no sentido de estrutura e qualidade, fora a corrupção que tem nos mesmos.

    Os privados, apesar de terem profissionais menos aplicados, estão menos suscetíveis a corrupção e contam com estruturas melhores.

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  7. Anónimo6.6.12

    Max,

    Temos aqui dois conceitos opostos.

    O que referi acima, talvez de forma pouco explicita:

    Tendência que se verifica actualmente para um modelo Keynesiano igual a zero, ou seja, estado limitado a um poder meramente fiscalizador. Nem sequer legislativo. Um simples agente de cobranças de impostos e de fiscalização dos cidadãos. O Ultra-neoliberalismo totalmente maturado.

    e o outro de:

    Divida Publica igual a ZERO.
    Venha lá esse Post.

    grande abraço
    Krowler

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