05 junho 2012

Donos de Portugal: entrevista com Jorge Costa

Jorge Costa nasceu em 1975 e é licenciado em Comunicação Social.

Colaborou em diversas publicações jornalísticas e é co-autor dos seguintes livros:
Grandes Planos- Oposição estudantil à ditadura (1956-1974), com Paulo Pena e Gabriela Lourenço
A Guerra Infinita, com Francisco Louçã
Os Donos de Portugal (Cem anos de poder económico 1910-2010), com Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas.

Integra a Mesa Nacional do Bloco de Esquerda desde a fundação do movimento e é deputado da Assembleia da República, enquanto na Comissão Política do Bloco de Esquerda tem a responsabilidade da comunicação e propaganda. 

Eis a entrevista realizada após a apresentação do documentário Donos de Portugal a cidade de Almada:
Jorge Costa, qual foi a mais forte das motivações que estiveram na base de Donos de Portugal?

Dizem-nos que a austeridade resulta de termos vivido "acima das nossas possibilidades". O meu objectivo com este filme foi intervir num debate que se tornou ainda mais forte, já depois da saída do livro "Donos de Portugal" (co-autores: Francisco Louçã, Fernando Rosas, Cecília Honório, Luís Fazenda e eu próprio), a partir da intervenção externa. Esse debate é sobre quem foi que, afinal, viveu acima das nossas possibilidades. Essa é a história de um século de poder económico em Portugal.

O filme transmite uma ideia: Portugal com uma classe empresarial bem fechada. Mas qual a razão? Um simples atraso no âmbito da evolução capitalista, uma conjuntura de factores ou algo mais?

O filme apresenta uma conclusão forte do livro: é o Estado quem faz a burguesia - através de financiamento directo, leis que protegem, privilégios fiscais, monopólios e rendas garantidas, privatizações. A classe dominante prefere a acumulação com baixo risco. Além desta articulação da desigualdade social, o Estado arbitra os conflitos que por vezes emergem entre grupos económicos. Resulta daqui um modelo de atraso e dependência externa cada vez mais acentuada.

Sempre a propósito de Donos de Portugal. Desde 1974 o País é uma democracia, parte integrante dum Velho Continente onde as lógicas do mercado regulam cada vez mais as vidas das Nações. Todavia parece que a globalização não conseguiu quebrar este "círculo restrito" que nos factos gere o País. Achas ser assim?

A "globalização" reforçou o poder destes grupos financeiros, que têm na especulação bolsista uma fonte essencial dos seus rendimentos. A desregulação dos mercados financeiros reforçou a sua acumulação. Estes grupos são intermediários para Portugal das tendências da globalização liberal que nos trouxeram a este ponto.
Um dos outros pontos marcantes do documentário é a inversão dos papeis entre Estado e classe empresarial: hoje já não é o primeiro que dita as regras. Foi uma evolução interna, com o Estado que conscientemente abandonou o leme, foi a classe empresarial que ficou mais forte ou houve outras componentes neste processo?

O traço essencial dessa relação é a promiscuidade entre política e negócios. Ela sempre existiu, mas alterou-se depois do 25 de Abril e sobretudo depois das privatizações, com o trânsito permanente entre cargos em governos do PS e do PSD e lugares de remunerações milionárias nos grupos privados. Essas remunerações correspondem a uma ascensão social rápida, facilmente acessível a estes responsáveis políticos. De qualquer modo, os grupos económicos continuam a depender da articulação do Estado, do seu permanente apoio financeiro. É também por isso que apoiam as medidas actuais, que diminuem os gastos sociais do Estado para financiar bancos ou pagar juros de PPPs...

E aqui podemos aproveitar para comentar os acontecimentos dos últimos dias. O Ministro Miguel Relvas, as secretas: parece haver mais do que empreendedores e políticos neste País...

Miguel Relvas é mais um caso que ilustra aquele trânsito. A empresa a que esteve ligado (e onde foi substituído pelo antigo vice-presidente da Câmara de Lisboa, o socialista Marcos Perestrello), a Finertec, é um veículo importante dos interesses angolanos em Portugal, os mesmos que o agora ministro pode favorecer.
A intervenção dos serviços secretos tem tanto de anedótico como de grave, porque se trata de usar recursos do Estado para obscuros fins privados, com práticas pidescas que têm que ser punidas.

O filme acaba com os acontecimentos que são a historia dos últimos semestres. Mas recuamos de alguns anos, até 1986: a classe empresarial apoiou a entrada na futura União Europeia. A pergunta é: porquê? Isso significou a transferência de poderes de Lisboa para Bruxelas: o capital não perdeu desta forma a capacidade de controlar inteiramente o panorama político nacional?

Os sectores mais poderosos da elite económica beneficiaram directamente da devastação que atingiu o aparelho produtivo a partir do modelo de integração europeia que triunfou. A moeda única e os sucessivos tratados foram desenhados à medida das economias dominantes do centro da Europa. Mas a elite financeira nacional, beneficiária de fundos estruturais e intermediária do negócio do crédito barato, esteve sempre a ganhar enquanto a economia portuguesa ficava mais fraca. O resultado está a à vista. Só uma reconfiguração completa da própria União Europeia, com a recusa dos seus tratados e e do monetarismo podem abrir perspectivas aos países da periferia e, de resto, a toda a União.

Este blog insiste num ponto: a austeridade não será a cura para os actuais problemas do País, bem pelo contrário. Acho ser esta também a tua posição... Consegues imaginar o futuro de Portugal? Nos próximos 12 ou 24 meses, entendo...
A entrada em cena do protagonista principal, que está a começar a acontecer na Grécia, está a mudar a figura de toda a crise europeia. O futuro imediato que está reservado pela senhora Merkel e pelo governo português para o nosso povo é igual ao presente da Grécia. Mas aqui também é possível mudar os dados da situação. É de uma grande onda de esquerda na Europa, rompendo com a troika e a austeridade, que se pode evitar o declínio.
Renegociar a dívida é uma das tuas ideias. Mas a maior parte da dívida portuguesa foi contraída por privados. Porque os Portugueses deveriam pagar as dívidas dos bancos privados?
A auditoria à dívida é uma ferramenta que permite o cancelamento da dívida ilegítima, a dívida resultante de contratos contra o interesse público ou da cobrança de juros extorsionários. A renegociação da dívida é uma prioridade no futuro imediato. É necessário cortar montantes, prolongar prazos e diminuir juros. O Estado português tem compromissos constitucionais com os seus cidadãos que são prioritários face ao interesse particular dos credores externos.

És um dos dirigentes do Bloco de Esquerda, uma das cinco maiores formações políticas do País: faz sentido tentar mudar o actual sistema a partir do "interior"? Achas que ainda há espaço para isso? Penso na escassa participação dos cidadãos nos eventos eleitorais... Como é possível trazer de volta a política para as ruas?
O Bloco nunca acreditou que uma mudança de fundo da nossa vida, da economia e da sociedade, possa ocorrer a partir de dentro das quatro paredes do parlamento ou de um governo. Pelo contrário, sempre usámos a nossa representação para "correr por fora" de alianças que nos teriam levado a um banquete que recusámos à nascença.
No tempo político actual, a disputa do poder, sobre a capacidade de decidirmos colectivamente o nosso futuro, só é possível com a intervenção de muitos milhares de pessoas e com a convergência concreta de quantos recusam a política da troika. O sectarismo diminui esse apelo, desacredita a utilidade da luta e atrasa aquela acumulação de forças. No próximo período, continuarão a irromper momentos de indignação. Essas mobilizações poderão crescer se predominar uma cultura de unidade e abrangência política que acrescente sectores sociais ao combate.

Última pergunta: Donos de Portugal é um sucesso. Quais os próximos projectos?
Para já, mostrar o filme o mais possível. Já passámos os 160 mil views na internet, fizemos muitas sessões de projecção pelo país e temos muitas mais marcadas. Depois, logo se vê.

Ipse dixit.

8 comentários:

  1. koalabomb5.6.12

    Parabéns por teres conseguido esta boa entrevista Max.

    Eu vi este documentário na altura em que saiu e fiquei surpreendido pela positiva como tu ficas-te, é uma excelente narrativa do que tem acontecido em Portugal e se nada mudar irá continuar a acontecer.

    De todos os partidos o Bloco é sem duvida o partido que eu e grande parte da juventude portuguesa mais gosta ou sente afinidade (tirando claro aqueles que desde pequeninos são inscritos nas Jotas do bloco central e de 2 em 2 anos andam em romaria a gritar atrás do seu candidato). Apesar de não conhecer muitas linhas de alguns partidos sem representação parlamentar e discordar em alguns pontos das ideias defendidas pelo BE se as eleições fossem hoje eles levariam o meu voto.

    Sabemos que não és cidadão português, mas conhecendo o país e estando atento ás movimentações politicas de todos os partidos e movimentos de cidadãos qual achas ser o "ideal" neste momento que atravessamos?

    Abraço

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  2. Olá Koala!

    Obrigado pelas boas palavras.
    Quanto à pergunta: pois não, não sou cidadão português, por enquanto. Mas no futuro tentarei conseguir a dupla cidadania.

    Acho justo, afinal quanto mais tempo passar por aqui, mais portuguesinho me torno: nunca comi tanto bacalhau desde que aqui estou e já conheço um bom número de palavrões. :)

    Caso isso não fosse possível (não é simples conseguir a dupla nacionalidade, ao que parece), ficarei italiano.

    Mas voto nas eleições autárquicas, sendo cidadão da Zona NEuro. Voto ou deveria votar...

    E aqui respondo à tua pergunta.
    Não sigo os movimentos dos cidadão, e esta é uma atitude que terei de mudar. Por isso, o que conheço da política local limita-se em boa medida aos grandes partidos, aqueles representados no Parlamento.

    E se tivesse que escolher? Complicado, muuuuuito complicado..Bom, podemos dizer isso: se tivesse uma pistola apontada à cabeça e fosse por isso obrigado a escolher, provavelmente o meu voto iria para o Bloco.

    Mas isso apenas por causa da pistola, pois estou convencido que nenhum dos partidos apresente um autentico discurso de roptura com a actual sociedade.

    A Direita portuguesa faz o que podemos observar. Palavras para quê?

    Os socialistas são a outra cara da mesma moeda PSD-CDS.

    Os Verdes não existem, no sentido que decidiram mergulhar no Partido Comunista.

    Do Partido Comunista nem vale a pena falar, acho que já muitas vezes disse qual a minha posição acerca da doutrina marxista-leninista.

    Sobra o Bloco de Esquerda, que, mesmo sendo de Esquerda, nasceu do processos da crítica em relação ao chamado comunismo; não acaso, o Bloco tem uma organização interna democrática e não um monólito estalinista: a ideologia do Bloco pode ser encontrada no Trotskismo, em antítese ao Estalinismo.

    Do Bloco gosto o discurso da renegociação da dívida, elemento essencial para que os Países falidos da Zona NEuro possam esperar numa retoma. Acho ser este um dever sobretudo tendo em conta as futuras gerações, que não podem ser condenadas a pagar os nossos erros.

    Há outras coisas simpáticas do Bloco, mas também há um grave problema: as forças de Esquerda muitas vezes limitam-se a confirmar a legitimidade das forças de Centro e de Direita.

    Quando oiço que os "trabalhadores" têm que ser defendidos, eu não percebo: não temos que defender os trabalhadores, temos que criar as condições para que os trabalhadores não possam ser explorados. E isso acontece unicamente com o ré-pensar as bases da nossa sociedade, ao sair da lógica que antigamente era definida como "capitalista" e que hoje já assumiu bem outras formas.

    (continua)

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  3. (continua)

    Muitas vezes, as forças de Esquerda defendem um capitalismo mais "humano".

    Dado que a fase capitalista foi amplamente ultrapassada e que a actual é bem mais feroz, a ideia dum capitalismo humano é uma contradição em termos: o novo pseudo-capitalismo baseia-se exclusivamente nas lógicas de mercado mais extremas que, por definição, têm no código genético a "optimização" das forças produtivas. E esta "optimização", em bom português é traduzido como "máxima exploração".

    A conceder legitimidade ao utópico capitalismo humano, as forças de Esquerda tornam-se uma barreira que protege o actual sistema, pois impedem que possa haver uma verdadeira revolução política e cultural na sociedade.

    Pessoalmente gostaria ver o Bloco mais empenhado na denuncia dum número bem maior de abusos da actual classe política portuguesa. Material não falta, de certeza.

    Mas, para responder à pergunta inicial, se a ideia for ser obrigado a "escolher o mal menor", então sim, escolheria o Bloco. Pois julgo as restantes opções parlamentares como a derradeira morte cerebral.

    Abraçoooooo!

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  4. Rita M.5.6.12

    Parabéns pela entrevista :)
    Um abraço

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  5. Anónimo5.6.12

    Max, parabéns pela entrevista e pela divulgação do vídeo, que já conhecia, pois passou na RTP2 no dia 25 de Abril.

    Entretanto , para quem não acredita num "Big Brother Mundial" com realização americana, tomem atenção nesta notícia de hoje:

    "A Agência Espacial Norte-Americana (NASA) recebeu dois telescópios mas não tem dinheiro para os lançar no espaço.

    A notícia foi avançada pelo jornal The Washington Post, que esclarece que os equipamentos foram doados à NASA por uma agência governamental secreta, a National Reconnaissance Office.

    O que seria uma boa notícia para a NASA está a tornar-se numa dor de cabeça. Isto porque os telescópios podem substituir o Hubble, em funcionamento desde 1990, mas a agência não tem fundos para os lançar no espaço.

    O diretor de astrofísica da NASA, Paul Hertz, explicou ao jornal americano que a companhia só poderá lançar um dos telescópios em 2024: «A NASA não tem, com o atual orçamento, a liquidez necessária para desenvolver uma missão espacial que faça uso destes dois telescópios.»

    O The Washington Post (WP) escreve ainda que os telescópios têm um campo de visão cem vezes superior ao Hubble.

    Loretta DeSio, porta-voz da National Reconnaissance Office, justificou ao WP o porquê da doação: «[Os telescópios] já não têm a capacidade de recolher dados secretos.»"

    Conclusão:
    Esta agência governamental secreta doou 2 telescópios à NASA com capacidades 100x superiores ao Hubble, porque perderam a capacidade de recolher dados secretos, mas para fins científicos ainda serve...
    A NASA não tem dinheiro para lançar estes 2 telescópios para substituir o Hubble...e NRO terá tido dinheiro para substituir estes telescópios para continuar a recolher dados secretos pelo mundo inteiro?

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  6. Anónimo5.6.12

    NRO não era uma das agências secretas que o William Cooper tinha falado numa de suas palestras ha muito tempo atrás???

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  7. Obrigado Rita!

    E parabéns Anónimo, uma notícia que obriga a pensar.

    A Nasa é considerada por muitos como uma das "armas" da NWO (é ela que esconde Nibiru): agora descobrimos que nem tem os fundos necessários para enviar no espaço dois telescópios doados.

    Doutro lado surge o NRO, National Reconnaissance Office. Interessante. Donde chega o dinheiro para este organismo secreto ter não um mas até dois telescópios mais potente de que o Hubble?

    Wikipedia afirma que o NRO "é uma agência de inteligência estadounidense que reúne informações para serem repassadas para a CIA [...], a NSA [...] e o Departamento de Defesa Americano".

    Faz sentido que os fundos cheguem da Defesa: 16 biliões de Dólares em 2012, 19% de todos os gastos da "intelligence" americana. Nada mal.

    Mas o que faz o NRO?

    A página internet da instituição explica: Vigilance from Above, vigilância de cima, onde "cima" não fica no piso superior mas muito, muito mais acima.

    Além disso há vários documentos declassificados, todos bastante antigos (Guerra Fria), e nem falta o cantinho para os mais pequenos, com algusn jogos.

    Officialmente o NRO trata de segurnaça dos EUA e faz isso ao vigiar do espaço. Sem dúvida faz isso.

    Mas o facto de possuir dois telescópios com capacidade superior ao Hubble pode significar que não apenas da Terra trata o NRO?

    Pode sim. E aqui entramso no mundo das hipóteses...

    Abraço!!!

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  8. Dramatic5.6.12

    hahaha
    O Max é excelente em apresentar os fatos nas informações. (neste caso da NRO)

    Quanto a entrevista, gostei bastante também, bom trabalho! É muito bom saber de tais iniciativas.

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