22 junho 2012

E o gás avança...

As últimas notícias da OPEP (a Organização dos Países Exportadores de Petróleo) parecem indicar um futuro instável e tumultuoso.

A crise financeira que abalou o mundo inteiro coloca em risco a estabilidade da inoxidável organização dos Países produtores de petróleo.

Será? Ah, pois é.
Relata o Financial Times:

Com a crise da dívida soberana dos europeus que piora e os medos crescentes em relação à economia global, as divisões profundas no seio da OPEP são susceptíveis de minar a capacidade da organização para perseguir o seu objectivo, ou seja, para gerir a oferta de petróleo e evitar violentas oscilações do preço.
Ohhhh...
E o Financial Times é muito claro quando define quais Países podem ser considerados "moderados" e quais "extremistas". Entre os primeiros (os moderados, os bons) temos a Arábia Saudita, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, a Nigéria, a Líbia (!), E entre os segundos (os extremistas, as "cabeças quentes") a Venezuela (óbvio), o Irão (normal) e...o Iraque.

O Iraque? Isso mesmo, a colónia privada dos Estados Unidos.
Em particular, estes os dois últimos parecem preocupar a organização: vozes nos bastidores falam duma aliança dentro da OPEP para estabelecer umas posições comuns.

Anos de guerra, milhões de mortos, milhares de milhões de Dólares, um País entregue ás empresas privadas, e tudo para quê? Para ter um Iraque no mesmo lado do Irão? Esta sim que é ingratidão. Já nem vale a pena atacar e invadir um País soberano, não tem gozo.

E no meio disso, eis um pensamento, ou melhor, uma heresia: e se a OPEP desaparecesse? A organização é  uma daquelas coisas assumidas como "naturais", que existia antes do nosso nascimento, pois sempre existiu, provavelmente já explorava os poços de petróleo pouco depois do Big Bang (quem forneceu a gasolina para a Arca de Noé?), por isso sempre vai existir. Ou não?

Na verdade, a omnisciente Wikipedia explica que a OPEP é muito mais recente:
é uma organização internacional criada em 1960 na Conferência de Bagdad que visa coordenar de maneira centralizada a política petrolífera dos países membros, assim como combater a queda no preço do produto, que antes de 1960 ocorria com frequência em parte devido à acção das sete irmãs.
De forma mais clara, antes da OPEP o mercado global era controlado por sete grandes empresas:
  • Royal Dutch Shell (actualmente conhecida como Shell)
  • Anglo-Persian Oil Company (APOC),. mais tarde BP Amoco e hoje simplesmente BP.
  • Standard Oil of New Jersey, actualmente, ExxonMobil.
  • Standard Oil of New York, mais tarde Mobil, hoje ExxonMobil.
  • Texaco, posteriormente fundida com a Chevron para formar a ChevronTexaco até 2005, hoje apenas Texaco.
  • Standard Oil of California (Socal), posteriormente Chevron, que incorporou a Gulf Oil e depois fundida com a Texaco.
  • Gulf Oil, absorvida pela Chevron, posteriormente ChevronTexaco, hoje apenas Texaco.
Após 1960, a hegemonia é quebrada e as companhias são obrigadas a negociar com alguns Países a exploração dos campos petrolíferos. Na prática, passou-se dum cartel formado por sete empresas para um cartel formado por sete empresas mais alguns Países produtores. Mas sempre cartel é.

Com o tempo, como vimos, as sete empresas tornaram-se quatro (Shell, BP, ExxonMobil e Texaco) e hoje partilham os lucros com alguns Países produtores: Arábia Saudita, Argélia, Angola, Emirados Árabes, Equador, Iraque, Irão, Kuwait, Qatar, Líbia, Nigéria, Venezuela.

E que aconteceria se a OPEP desaparecesse? Haveria uma certa confusão, sem dúvida: Países com explorações ainda estatais e Países com as explorações nas mãos dos privados. Por isso há quem prefigure amplas oscilações no preço do crude, um mercado altamente instável e até guerras.

Outros fazem ainda notar como um cartel funciona até quando houver um surplus de oferta: logo alcançada uma diminuição do produto, o cartel entra em crise e as forças centrifugas quebram a organização. Será este o destino da OPEP também? Segundo Colin Campbell, geólogo do petróleo, a resposta é sim.

Temos por isso que esperar guerras e devastações?
Na verdade guerras e devastações ligadas ao petróleo nunca pararam: a novidade seria uma eventual paz ligada ao crude.
E não podemos esquecer que o OPEP não representa todos os produtores de petróleo, pois há importantes exportadores que decidiram ficar de fora: Brasil, Canada, China, Estados Unidos, Cazaquistão, México, Noruega, Oman, Rússia.

Ao observar a tabela dos principais produtores mundiais de petróleo, reparamos que a maior parte do crude nem é produzido pelos Países do OPEP (dados OPEP de 2009):


Resumindo: com a diminuição das reservas petrolíferas dos Países historicamente produtores (mesmo que seja abiótico, o que ainda não foi demonstrado, precisará dum pouco de tempo para regenerar-se, não é?) o papel da OPEP parece destinado a diminuir com o tempo.
E o gás avança.

Veremos a extinção do OPEP? Isso sim que seria histórico...


Ipse dixit.

Fontes: Financial Times, Wikipedia, Petrolio, OPEP (ficheiro Pdf)

1 comentário:

  1. Anónimo22.6.12

    A Standard Oil of New York, segundo parece, para lavar o dinheiro sujo, foi fundar uma companhia multimédia no oriente...e nem precisou de mudar de nome, bastou usar as iniciais, ou seja...SONY.

    Deixo isto como sugestão para uma nova postagem, ou para uma investigação mais a fundo.

    Obrigado.

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