08 junho 2012

Síria: há mortos e mortos...

O primeiro ministro da Síria é mau?
Sim, é muito mau. E estúpido também. Já vimos que o binómio maldade-estupidez é uma constante.

É mau porque os Sírios querem profundas reformas institucionais: nomeadamente mais liberdade.

É estúpido porque nem chega a perceber que se os Sírios já forem enervados, matar crianças inocentes não pode que piorar a situação. Não uma, mas várias vezes: parece que Assad tenta promover o novo desporto nacional: "Mata a criança".

Uma dúvida: mas porque Assad deveria matar crianças?

Segundo os media ocidentais, depois do massacre do passado dia 25 de Maio (Hula, 100 mortos), eis a réplica: Hama, aldeias de Al Kubeir e Maarzaf, 20 mulheres e 20 crianças mortas.

Afirma Mohammed Sermini, porta-voz do Conselho Nacional Sírio, que as forças do governo teriam bombardeado as duas aldeias para depois acabar os habitantes com pistolas e facas.

Facas. São mesmo desumanos, não é?
Até há uma fotografia, publicada pelos britânicos BBC e The Telegraph. Aquela em baixo à direita.

Terrível, sem dúvida. Pena que esta foto seja de 2003. Foi tirada no Iraque pelo fotografo Marco di Lauro, como também reconheceu a mesma BBC. Depois. Pormenores.

Que fique claro: os massacres são uma realidade. O problema é que ninguém sabe ao certo quais os responsáveis.

Páginas on-line da ONU:
Os observadores da missão Onu Unsmis confirmam o massacre de 90 civis dos quais 32 crianças, mais muitos feridos na aldeia de Houla, após ter observado os corpos.[...]
O general Robert Mood, chefe da Unsmis, declarou que as circunstâncias destas trágicas mortes não estão claras.
O que as Nações Unidas confirmam é que houve tiros de artilharia contra uma zona residencial, sõ que ninguém sabe quem disparou.

A versão síria, doutro lado, é bem diferente.
Segundo o geral Suleiman, chefe da investigação governamental, algumas centenas de homens armados atacaram a polícia local, que respondeu ao fogo.

Outros "terroristas" teriam atingido as famílias próximas do deputado Abdel Karim que participou nas eleições do dia 7 de Maio, boicotadas pela oposição.

Numa declaração preliminar, Herve Ladsous, subsecretário da ONU para a manutenção da paz, argumentou que:
Existem suspeitas de que os combatentes pró-Assad são responsáveis ​​por algumas das mortes,
Enquanto isso, Luis Fonseca, enviado na Síria de Prensa Latina, deu uma versão diferente:
Temos visitado a área com alguns jornalistas e observadores da ONU. Várias pessoas, pessoas comuns, disseram que grupos de terroristas têm aproveitado os combates entre o exército e a oposição armada para provocar os massacres e o governo. Também usaram RPG para derrubar as paredes e fazer pensar em tiros de artilharia.
Madre Inês do Mosteiro de Qara-Mariam solicitou um face a face entre as testemunhas:
Acho que é uma dolorosa encenação. Porquê o regime deveria fazer harakiri ao ordenar ou permitir tais atrocidades sabendo que já está à beira dum ataque?
Padre José do Centro de Informação Católica Clamantis Vox escreve que, segundo uma testemunha ocular, no passado dia 29 de Maio, perto das 5 horas da madrugada, bandas armadas na estrada de Quşayr atacaram a polícia na aldeia de Dmeineh, onde moram cerca de 400 famílias greco-católicas. Os confrontos duraram mais de duas horas e duas casas foram atingidas. Morreram um policia, sete militantes e houve vários feridos. Os habitantes de Dmeineh estão a tentar abandonar a zona, tal como aconteceu em Kusayir e nos bairros cristãos de Homs.

Admitimos que o regime de Assad seja ilegítimo. Não é claro porque deveria ser, a menos que seja aceite a ideia de que todos os regimes que não adotam a democracia liberal são ilegítimos: neste caso Cuba e o Vaticano seria ilegítimos também. 

Mas admitimos isso. O problema é que um Estado democrático e liberal que afirma que todos os outros devem ser também democráticos e liberais, é um Estado fascista.
Um liberal que pretende que todos sejam liberais é um fascista.

Um Estado liberal e democrático que pretende que todos os outros sejam liberais e democráticos deveria pretender igual tratamento perante iguais circunstancias.

No mesmo dia em que as alegadas forças sírias massacravam os próprios concidadãos,  bombardeiros americanos atacavam a aldeia de Suri Khail, no distrito de Gurda Saria (Afeganistão). Destruiram uma família inteira: pai, mãe e os seis filhos.
O que tinha acontecido? Isso: um grupo de combatentes locais se tinha envolvido um confronto com um contingente da missão ISAF, então as tropas ocidentais chamaram a Força Aérea americana para ajudar. Os combatentes não morreram, mas os civis sim.

Episódios como este são comuns no Afeganistão (lembram dos drones?). Mas a notícia do massacre de Suri Khail, como de todos aqueles perpetrados no Afeganistão, passa despercebida.

Qual é a diferença entre os sírios e as crianças afegãs?
Só uma: os Afegãos são mortos por nós.
Então tudo é regular.


Ipse dixit.

Fontes: The Telegraph, ONU News,

1 comentário:

  1. Anónimo8.6.12

    É chato quando se quer mostar um massacre na Siria e alguem descobrir que a foto foi tirada 9 anos antes noutro país. Lá se vai a credibiladade. O prbolema é que as pessoas têm a memória de um carapau.
    Na Libia aconteceu o mesmo. No entanto o resultado final não se alterou.
    O problema é que a opinião publica é envenenada com estas 'noticias'.
    As operações 'False Flag' têm este efeito quando coadjuvadas pela comunicação social. E assim lá vão os carneiros apoiando os criminosos contra os inocentes.

    Quem quiser aprofundar um pouco mais este assunto, pode pesquisar e ler um artigo do prof. Michael Chossudovsky - 'A opção salavadorenha para a Siria'.

    Abraço
    Krowler

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