31 julho 2012

Cobaias

O cantinho da Ciência nº 2.
Desta vez vamos até a Índia. E também esta é Ciência.

Pessoas analfabetas recrutadas para participar em ensaios clínicos sem um verdadeiro consentimento e sem conhecer os riscos. Vítimas quase nunca recompensadas. Médicos que "aconselham" os seus pacientes para tomar medicamentos sem dizer que estão a participar num ensaio clínico.

Estes são alguns dos abusos cometidos sob o comando dos gigantes da indústria farmacêutica na Índia, desde 2005, um verdadeiro paraíso para as empresas do sector após o "relaxamento" da legislação local acerca do assunto.

A desvendar esse fenómeno é uma investigação do jornal britânico The Independent, que desde o ano passado segue o caso e conta como funciona esta nova forma de "experimentação clínica" no País asiático.

Para entender a razão do fenómeno, devemos partir duma consideração: a procura para o desenvolvimento de um novo medicamento precisa de 10-15 anos e pode custar até 500 biliões de Dólares quando as leis forem respeitadas. Com as experiências na Índia, as empresas farmacêuticas conseguem cortar até 60 por cento do custo da pesquisa e realizar assim grandes lucros.

Isso porque, desde que a Índia facilitou as regras de experiências com seres humanos, o sector cresceu exponencialmente e a indústria da pesquisa no País asiático vale hoje 189 milhões de Libras inglesas. No total, são mais de 150 mil as pessoas que participam em cerca de 1.600 estudos clínicos, em nome de gigantes farmacêuticos como Pfizer, Merck e AstraZeneca.

Entre 2007 e 2010, de acordo com os dados do Independent, pelo menos 1.730 pessoas morreram durante ou depois da participação nestas experiências. Embora seja difícil determinar se morreram apenas por causa dos testes a que foram submetidos, pois muitos deles já estavam doentes, também é impossível argumentar o contrário, dado que foram os mesmos médicos que realizaram as experiências que determinaram uma ligação entre a substância testada e a morte.

Poucos meses atrás, o ministro da Saúde indiano, Ghulam Nabi Azad, disse ao Parlamento que 10 farmacêuticas estrangeiras tinham pago uma indemnização às famílias das 22 pessoas que morreram durante ou após os ensaios clínicos em 2010, com compensações que atingiam em média "bem" 3 mil Libras por pessoa.

Diz Chandra Gulhati, um médico aposentado que no seu escritório em Nova Deli está a recolher dados sobre as experiências em diferentes regiões da Índia:
Os indianos estão a ser explorados por empresas farmacêuticas que, em seguida, fazem milhões com a venda de medicamentos no Ocidente. Usam indianos analfabetos e pobres que nunca poderiam ter acesso a esses medicamentos.
É o caso das centenas de raparigas menores de idade, originárias das áreas tribais de Andhra Pradesh, cujos pais não tinham sido informados de que as filhas estavam prestes a  receber uma nova vacina contra o vírus do papiloma, o Gardasil. "Ninguém veio pedir permissão" disse o pai de Sarita Kudumula, uma menina de 13 anos que morreu poucos dias depois de ter sido tratada com a vacina.

Ou como o caso dos sobreviventes do desastre de Bhopal, usados ​​como cobaias em pelo menos 11 estudos sem um consentimento verdadeiro, em dezenas de ensaios realizados por médicos particulares em hospitais públicos, onde nem era informado o paciente da própria participação em ensaios clínicos.

Ensaios com humanos no mundo (clicar para ampliar)
Este novo "colonialismo" das empresas farmacêuticas já chegou a outros Países asiáticos, como China, Indonésia e Tailândia: até que um quarto de todos os dados clínicos apresentados às agências reguladoras para a aprovação dos novos medicamentos tem sido alcançado graças aos estudos realizados em Países de renda baixa e média.

As empresas farmacêuticas argumentam que sempre seguem as regras, mas muitas pessoas que participaram nos ensaios afirmam que tinham sido aconselhadas pelo próprio médico, que muitas vezes era também quem conduzia o ensaio.

"Para nós, um médico é como um deus", diz Ajay Naik, cujo filho Yatharth desenvolveu algumas manchas brancas no corpo depois de um teste:
À minha esposa foi dito que era uma nova vacina, com um custo de 8-10 mil Rupias, mas que para nós seria dada de graça.
Esta é Ciência também, é a procura de novos medicamentos.

Há pesquisadores que fazem chocar partículas, há outros que utilizam os mais desfavorecidos como cobaias. Num caso há Homens contra os mistérios do Universo, no outro há homens contra homens: mors tua, vida mea como diziam os Romanos, "morte tua, vida (e lucros) minha".
Algo parece não bater certo.

A solução mais simples é culpar o lucro. Sem dinheiro haveria ainda testes mortais conduzidos com inocentes? Mas, como afirmado, trata-se apenas da resposta mais simples. E a realidade nunca parece ser simples. 


Ipse dixit.

Fontes e gráfico: The Independent (1) (2) (3) (4)

5 comentários:

  1. Anónimo31.7.12

    Os 3 setores mais lucrativos do planeta:

    1º drogas
    2º industria farmacêutica
    3º indústria de alimentos

    Quem controlar esses 3 grupos, controlará o mundo.

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  2. Max, é deprimente que isto ainda ocorra hoje em dia, se fala tanto em tecnologia, em evolução e em qualidade de vida, mas parece que são sempre os mesmos grupos que continuarão com tais privilégios.



    Anônimo,
    creio eu que o mais correto seja:

    1º drogas
    2º armas
    3º industria farmacêutica
    4º indústria de alimentos

    Já tinha lido sobre isso também, e acho que o mais correto seja nesta ordem.

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  3. maria31.7.12

    Olá Max: por casualidade, andas a abordar questões que me são particularmente sensíveis. Faz muitíssimos anos, eu era praticamente uma menina, me envolvi profundamente com um médico - pessoa boníssima, séria e decente - que investigava as atrocidades do tráfico de órgãos humanos com pesquisas clínicas de rejeição e implantes. Logo, acho muito bom o post, mas com a ressalva de que não são "novas" formas de experimentação clínica. Max, tu deverias estar chegando ao planeta, quando isso acontecia na América latina, alastrando-se para negócios farmacêuticos em África e Ásia paupérrimas.
    Muitos anos depois, vivi com outro médico por dez anos, também sério e decente, de forma que tais assuntos nunca chegariam a sair de pauta.
    Então, para resumir, e muitíssimo, o que temos, tínhamos, e ao que tudo indica, continuaremos tendo, independente do relaxamento das legislações, porque basta a corrupção de especialistas e burocratas estar ativa, em conluio com empresas, e as coisas funcionam dentro das expectativas dos responsáveis pelo mundo que vivemos:
    1.experimentos clínicos psiquiátricos nos EUA e Canadá;
    2.testes de alto risco com vacinas na América central, em especial Honduras, El salvador, Porto Rico e Panamá;
    3. desenvolvimentos clínicos para aprimoramento de resultados relacionados a tortura física, mental e psíquica no Chile, Argentina, Uruguay e Brasil;
    4. indução e controle de doenças, de origem bacteriana e virótica em África, Ásia e demais áreas em guerra,ou intenso conflito interno, no sentido de testar clinicamente genocídios controlados, limites de referência, suscetibilidade e consequências a prazos diversos.
    Melhor parar por aí, embora não estranho: a crueldade que se opera sobre cobaias animais, facilmente se estende a cobaias humanas, estas tão bestializadas quanto as primeiras, em função da confiança desmesurada que a maioria das pessoas deposita no discurso médico.Abraços

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  4. Pois, como a Maria diz, apenas um corolário da experimentação animal, esta, no meu entender, ainda mais criminosa do que a outra.

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  5. Esse tipo de pessoas não deveria ser recrutadas porque são os que tem menor poder de decisão.
    No centro de cardiologia em porto alegre que eu conheço nunca fariam isso...

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