09 julho 2012

O Brasil não cresce

Limes, provavelmente a melhor revista italiana de geo-política, dedica um artigo ao caso do Brasil, que de seguida aparece acrescentado com alguns dados oficiais e pareceres de diversas origens.
Sobretudo os dados preocupam: o Brasil não cresce.

Nos últimos dez anos, o Brasil tem experimentado um período de prosperidade sem precedentes.

A melhor prova? 30 milhões de Brasileiros passaram da pobreza para a classe média. A economia viveu um crescimento constante, passando pela crise de 2008 sem muitos problemas, e hoje o Brasil, juntamente com a Índia, é talvez o único exemplo de democracia estável que faz parte do BRICS, os Países caracterizados por um forte crescimento do Produto Interno Bruto.

Só que alguma coisa está a mudar.
O ministro das Finanças, Guido Mantega, procura realçar o único elemento positivo no conjunto de dados tornados públicos pelo Instituto Nacional de Estatística: a recuperação do sector industrial, que registou um crescimento de 1,7 % em relação aos três meses anteriores. "Boas notícias" diz o Ministro.

E "Boas notícias" são sem dúvida. Só que há outras notícias, um pouco menos boas.
Em Maio, o índice PMI do sector manufatureiro, um parâmetro que é um bom antecipador da evolução do PIB, manteve-se parado, realçando assim uma contração, em particular nas áreas das novas encomendas provenientes do estrangeiro e da produção.

Não surpreendentemente, Mantega confirma que o governo está pronto para intervir com novos pacotes de estímulo económico, em particular para incentivar os investimentos.

De acordo com a presidente Dilma Rousseff, essa descida tem responsabilidades muito específicas:

Segundo a Presidente Dilma, tudo isso é consequência das operações de Quantitative Easing implementadas pelos bancos centrais dos Países desenvolvidos. Os Estados Unidos antes e a Europa depois têm inundado de liquidez o mercado financeiro: como resultado, as moedas destes Países perderam valor e quem "ganhou" foi o Real. Só que um Real forte significa também o aumento da produção local e preços cada vez menos competitivos nos mercados internacionais. Afirma Dilma:
O Brasil vai tomar medidas institucionais para evitar a canibalização de seu mercado interno. Ninguém pode vir a reclamar se o Brasil vai se defender.
Sem dúvida: mas será que os únicos problemas do Brasil são os Quantitative Easing dos Países mais avançados?
As medidas protecionistas recentes adoptadas pela Argentina, por exemplo, penalizam as exportações brasileiras. Mas também este é um pormenor: na realidade as verdadeiras causas têm que ser procuradas em outros lugares.

O principal problema do crescimento económico brasileiro (que nunca conseguiu ultrapassar 4%, menos da metade da Rússia, da China ou até da Turquia) está relacionado com a mesma origem da explosão: os preços irregulares (e que deverão diminuir) das muitas commodities que o País explora e vende.
Especialmente numa altura em que a economia internacional, mais uma vez, entra numa fase perturbada e quando até mesmo a China, o principal parceiro comercial do Brasil, parece abrandar, o Brasil responde com taxa de interesses muitos elevadas (é isto que está atrás da iper-valutação do Real) e um welfare altamente desenvolvido mas caro.

Este último factor é o resultado das políticas destinadas a fazer esquecer as dolorosas dificuldades económicas e os altos custos sociais que os Brasileiros sofreram durante grande parte do século XX. Tudo justo, sem dúvidas: só que agora se está a transformar numa fraqueza.

Quando em 2003, com o "Bolsa Família", Lula lançou um programa de protecção dos rendimentos entre os mais avançados dos Países em desenvolvimento, o Presidente fez conscientemente uma escolha: mais protecção em detrimento dum crescimento mais "robusto".
O programa incluía uma política de "estabilidade a qualquer custo": e este custo é agora representado pelas despesas que o Estado tem que enfrentar para manter o welfare: em 2010, estas despesas constituíram 40% de toda a economia. Não é pouco, sobretudo se pensarmos que nos restantes Países emergentes estas percentagem não vai além de 20%.

O programa Bolsa Família tem uma série de soluções (aumentos salariais, melhor welfare, estímulo fiscal, crédito a um custo muito baixo) que consentiram poupar aos Brasileiros os efeitos da crise global começada em 2008. O que aconteceu, de facto, com sucesso. Só que a crise de 2008 ainda não acabou, ninguém sabe quando acabará e a manutenção deste pacote de protecção tem custos particularmente elevados.
E faltam os investimentos, difíceis enquanto as taxas de juros do dinheiro permanecem na casa de 10%.

Doutro lado, os investimentos são travados quando as empresas médias e pequenas pensam encontrar no Brasil as mesmas margens de lucro que são possíveis na China e na Índia: para depois descobrir que o Brasil é diferente e que entre os factores negativos, por exemplo, há uma rede de infraestruturas muito mal concebida, que faz aumentar os custos.

Medidas proteccionistas como solução? Parece esta uma das vias que os políticos de Brasília podem percorrer. Mas é uma faca com dois gumes: se dum lado o proteccionismo consente, de facto, "proteger" alguns produtos locais, do outro lado expõe o País ao risco de ver os próprios produtos recusados em determinados mercados, além de que esta medida pode travar os investimentos em determinados sectores. Seria uma medida em forte contraste com o status dum Brasil grande exportador.

É por isso que alguns analistas acham que a Bolsa Família deveria ser posta no sótão. Talvez uma medida exagerada, sobretudo à luz dos benefícios que comportou; mas uma revisão parece na ordem natural das coisas, sobretudo quando são tomados em conta factores que eram desconhecidos na altura da sua implementação (a medida, lembramos, é de 2003, enquanto a crise despoletou em 2008).

As recentes intervenções do Banco Central do Brasil, que cortou de facto as taxas de interesse, ajudaram, mas não podem ser a única solução. Na classificação Doing Business Report do Banco Mundial, o Brasil ocupa a 126ª posição num total de 188 Países: baixo, demasiado baixo.

Seja qual for a decisão (revisão do welfare, baixa dos interesses, proteccionismo ou outra ainda), são precisas escolhas para que o Brasil consiga retomar o crescimento. Uma ou mais escolhas impopulares, é verdade: mas é o preço para que uma década de enérgico avanço não tenha que apagar-se lentamente.


Ipse dixit.

Fontes: Limes, The Post Internazionale, IBGE (1) (2), Agi China

10 comentários:

  1. David9.7.12

    como brasileiro eu digo, agora "ferrou", aki tudo é complicado, falta infraestrutura a educação eh horrivel, as empresas nao investe em P&D, a burocracia eh gigantesca, os politicos sao iguais aos politicos portugueses (talvez piores), a população em geral eh cega mesmo no mundo academico , se eu pergunto algum amigo oq acha da politica industrial brasileira, eles dizem hã? o q vc ta falando?
    bem... ate q politica industrial msm n existe pelo menos na pratica.So crescemos nos ultimos anos devido a sorte do mercado estar favoravel alta do minerio...
    ahhh pra n esquecer essa coisa de milhoes d ebrasileiro para classe media eu pergunto, que classe media eh essa? a classe media brasileira q falam tem mesmo rendimento do pobre europeu grego, a classe media n tem plano de saude, nao tem educação de qualidade (ensino basico), e nao desfruta de lazer...trabalha para sobreviver e nao para viver

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  2. koalabomb9.7.12

    Lembro-me de ter visto um gráfico de 1929 a mostrar como os países foram afectados pela crise de 29 que se iniciou nos Estados Unidos, apenas uma se safou, a URSS, que era um economia fechada em si mesma, de resto todos foram afectados de uma maneira ou de outra.
    Apesar de em moldes diferentes isto é o que se passa, com esta economia globalizada mesmo um país que esteja forte acaba por levar com danos colaterais (o Real torna-se mais forte, as exportações de certos productos baixam, etc)
    O Brasil tem crescido, e apesar dos seus problemas acredito que vai continuar a lutar, agora será que com a economia mundial no estado em que está ela vai conseguir passar sem grandes danos?
    A resposta clara é não, acho que passa agora pelo próprio Brasil conseguir retirar o máximo de proveito e se aguentar na tempestade mundial (que apenas vai piorar infelizmente)

    abraços

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  3. Os velhos banqueiros & realezas por detrás do cipoal do jargão administrando os programas/memórias da escassez planejada de tudo para a manutenção do escravagismo milenar, agora avançando sua agenda com o eufemismo de nova ordem mundial. Pode-se também fazer a contabilidade em número de casa grande e senzala com o investimentos em; guerras, eugenia, depolpulação sistemática, sabotagem generalizada, terrorismo de estado, toda sorte de corrupção que sustenta o processo de manutenção do sistema político/economico/finenceiro, drogas, farmáfia compulsíoria, falta de saneamento básico, endemia, pandemia, analfabetos, analfabetos funcionais, espertos, mafiosos, ingênuos, ignorantes,inutilizados, deficientes, feridos, mortos e desaparecidos, famintos, doentes pobres, miseráveis, ricos e "remediados", falta de caráter, psicopatologias, etc., etc.,...

    A banca nunca perde.
    Sinto muito, sou grato.

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  4. Talvez uma das explicações é que o Brasil esta melhor na propaganda do que na realidade. Se coloca na mídia que 30 milhões de brasileiros entraram na classe média, mas não se diz que o governo alterou os padrões de classe média. Se olharem, o governo considera classe média alguém que possui ganhos de R$ 291,00 a R$ 1.091,00 por mês, acima disso é considerado classe alta, mas quem ganha estes valores pode ser considerado classe média ??? Esta tabela saiu a pouco nos sites dos jornais Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. Outra coisa, é que com exceção de uma ano desde 2003, o Brasil sempre foi um dos lanternas de crescimento na América Latina. E se considerarmos os 18 presidentes que tivemos, o Sr. Lula, tem a posição numero 12 no que se refere a crescimento economico (tudo usando dados oficiais). Como foi feito em alguns países, o Brasil, mas tem usado a mídia para apresentar seus "milagres" do que realmente, eles existam na realidade. Pois cmo explicar, um sistema de ensino falido, um sistema de saúde falido, a segurança em crise, as estradas em péssimo estado, etc. Afinal, aonde foi os ditos ganhos da economia ? Para gastarem com propagandas enganosas ? Infelizmente esta é um triste realidade. E para quem não sabe, não passamos tão bem por 2008, o governo teve que injetar no mercado R$ 40 bilhões e ainda intervir na situação de alguns Bancos que poderiam ter quebrado, vide o caso do Itaú que pegou dinheiro no BNDES para comprar o Unibanco, senão o mesmo teria fechado.

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  5. David9.7.12

    Além que a cada semestre nossa "industria" encolhe quero ver quando começar as demisões em massa.


    Eu fico imaginando como é a vida do jovem espanhol ou portugues, sem pespectiva de emprego, estarei em alguns anos no mercado de trabalho e já me sinto preocupado com o rumo da industria nacional =(

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  6. Anónimo10.7.12

    Para lembrar:

    Durante a "temida" Ditadura Militar, o crescimento económico brasileiro foi 7%. Por incrível que pareça, após o período de "ditadura", os militares continuaram pobres, como eram antes de entrar no governo, e morreram pobres. Diferente do que acontece hoje, que é bem ao contrário, entra pobre, sai rico, muito rico!

    Coisas de Brasil.

    Infraestrutura - lixo
    Produtos nacionais - lixo
    Preços - lixo, nada competitivos, comparados aos importados, que são produtos muito melhores
    governo - lixo, pura corrupção de bandidos
    educação - lixo
    segurança - lixo, lixo, lixo

    até o futebol ta ficando lixo

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  7. Anónimo10.7.12

    Quem possui ganhos de R$ 291,00 a R$ 1.091,00 por mês certamente não consegue viver dignamente no Brasil.
    Este país desgraçado que vivo possui produtos, serviços e impostos absurdos, um insulto a população.

    Quantas vezes, em 4 anos já, que vi em matérias de jornais e revistas que, para o brasileiro viver bem adequadamente precisaria ganhar no mínimo R$ 2.500

    Isto é o mínimo, segundo estudos, para o brasileiro poder ter lazer, educação, saúde e moradia dignos.

    Agora este governo esquerdista medíocre, corrupto, ladrão, mentiroso e assassino vem mais uma
    vez com estas "espertezas" e "artimanhas" para maquiar a imagem do povo e se fazer de eficiente.
    Sinto pelo povo e pelo país, todos vocês só verão o verdadeiro estrago destes últimos governos daqui a 10 ou 20 anos. O cenário no Brasil vai de mal a pior. Esta é a famigerada 5ª economia do mundo. Grande BOSTA.

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  8. Anónimo10.7.12

    Já disseram, mas gostaria de acrescentar que a discussão sobre os novos valores do salário mínimo brasileiro, feito pela secretaria de assuntos estratégicos do governo brasileiro, contou com a participação de pessoas que pelo menos na imprensa "alternativa", mantida pelo próprio governo como forma de apoio "popular" (quantas aspas...), são considerados inimigos figadais.
    A propósito, a tal da nova classe média brasileira começa por volta dos 110,00 e vai até uns 440,00 euros.

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  9. Anónimo11.7.12

    P.S. pro "querido" anônimo de dois comentários acima:
    (...) após o período de "ditadura", os militares continuaram pobres (...)
    E aqueles que eram a base civil do governo ditatorial? Por acaso também continuaram pobrezinhos? E os empresários que financiaram a Operação Bandeirante? Também continuaram pobrezinhos?
    Aliás, pra não perder o fio da meada, o Augusto Ugarte também era considerado um pobrezinho que fez tudo o que fez no Chile por puro patriotismo e amor incondicional à pátria. Até acharem as contas no banco Riggs...

    :*

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  10. rafael12.7.12

    Não consigo conceber como o bolsa família pode ser um entrave para o crescimento econômico, afinal as pessoas q recebem esse benefício prontamente gastarão todo esse dinheiro em produtos básicos, seja em taxas e também impostos, em outras palavras, todo o dinheiro retorna ao estado e a economia se mantém aquecida.

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