20 agosto 2012

Bancos simpáticos: HSBC - Parte III

Terceira e última parte dedicada às aventuras do banco HSBC. Mas não apenas dele.

O banco inglês não era o único a facilitar a ida dos terroristas. Um relatório de 2009 do Government Accountability Office (GAO, Estados Unidos) realçava como "alguns padrões de desempenho estabelecidos pelo Departamento de Estado estavam a baixar-se", tal como aconteceu no mesmo ano:  apesar do GAO ter recomendado que os Estados Unidos reintroduzissem padrões de controle para impedir o fluxo de fundos da Arábia Saudita destinados a terroristas e extremistas fora do Reino da Arábia Saudita", o relatório anual sobre as estratégias de controle internacional do tráfico de drogas publicado pelo Departamento de Estado não fazia qualquer menção das medidas para combater a lavagem de dinheiro ou o financiamento dos terroristas por parte da Arábia Saudita.

A razão? O apoio da administração Obama aos terroristas salafistas suportados pelos sauditas, que actuavam na Líbia e a seguir na Síria, financiados com os "Entes Sauditas Estrangeiros de caridade".


Um rio de dinheiro

O Senado revelou que o HSBC forneceu ao banco saudita Al Rajhi uma ampla gama de serviços bancários, incluindo transferências on-line, câmbio, financiamento ao comércio e serviços de gestão de activos.
Nos Estados Unidos funcionava um serviço especial para o Al Rajhi Bank, o fornecimento de grandes somas de Dólares através do Departamento das UBS American Banknote.
A entrega de Dólares era realizada principalmente através da sucursal de Londres do HSBC, muitas vezes referida no interior do banco como as "Notas Londres ":
Os documentos mostram que o escritório do HSBC em Londres tinha fornecido Dólares para Al Rajhi Banco ao longo de mais de 25 anos.
Além da actividade em Londres, em Janeiro de 2001 a sede do HSBC em New York abriu uma conta- notas para o banco Al Rajhi, uma espécie de enorme porquinho-mealheiro. Os Dólares eram depois entregues fisicamente ao Al Rajhi Bank na Arábia Saudita. Como relatado em 2008 pelo chefe do Departamento Global das Notas do HSBC:
No caso de você não sabia, nenhuma outra contraparte-notas tem recebido tanta atenção nos últimos oito anos quanto o Al Rajhi Bank.
E mesmo quando no interior do HSBC alguém sugeria cortar os relacionamentos com os sauditas, tudo continuava na mesma: de facto, a secção de Conformidade do Grupo HSBC exortou as suas filiais neste sentido, mas, após um momento de indecisão, a sugestão ficou ignorada. O mesmo aconteceu em Fevereiro de 2005, quando foi emitido um mandado de prisão contra dois indivíduos acusados, entre outras coisas, de terem recebido 130.000 Dólares em cheques do Al Rajhi Bank, dinheiro sucessivamente transferido para terroristas da Chechênia apoiados pela CIA.

Documentos internos do banco mostram que vários funcionários tinham decidido cortar todos os laços com a instituição financeira árabe mas que depois os mesmos tinham recebidos fortes pressões por parte do pessoal do Al Rajhi Bank: as autoridade da Arábia ameaçaram cancelar todos os negócios com o HSBC. Assim, entre 2006 e 2010, o Al Rajhi Bank recebeu mais de 1 bilião de Dólares cash através das operações feitas com a subsidiária da HSBC nos Estados Unidos.

Apesar das constantes acusações de financiamento ao terrorismo que pairava em torno do banco Al Rajhi, HSBC continuou a oferecer, através da sucursal de Londres, centenas de milhões de Dólares com destino o banco saudita. Além disso, a pedido do banco saudita, em Janeiro de 2009 HSBC expandiu ainda mais a relação, permitindo que a sua subsidiária em Hong Kong fornecesse não apenas dinheiro americano mas também Rupias indianas e Dólares de Hong Kong.

Quando as preocupações surgiram novamente no interior da instituição, Christopher Lok, Chefe do Departamento Global das Notas em Nova York, estalou:
Este debate nunca vai acabar, a minha posição permanece a mesma até que seja demonstrado que é possível confiar nas declarações feitas pelo Wall Street Journal e em alegações não confirmadas para punir o cliente.
Assim, tudo continuo até 2010, quando o HSBC finalmente decidiu abandonar o negócio das notas americanas em escala global.

Fantasia. Pior: mentira.

Para concluir, não há necessidade de ser um apaixonado das conspirações para compreender a ligação entre o HSBC e o banco Al Rajhi para transferir dinheiro para o Médio Oriente, em apoio das "espontâneas" mudanças de regime, apoiadas pelos EUA e pela Arábia Saudita; políticas que funcionaram maravilhosamente no Afeganistão contra o Exército Vermelho.

Como apontado no The Observer pelo jornalista investigativo Ed Vulliamy, os factos em questão vão muito além da simples lavagem de dinheiro relacionado com o tráfico das drogas ou com o financiamento ao terrorismo:
Aqui estamos a falar de onde os bancos, os funcionários judiciais e os reguladores da política e da sociedade em geral vão traçar a linha entre as economias criminosas e aquelas definidas como "legais".
A dura verdade é que a noção de que realmente haja uma linha clara de demarcação entre a economia legal e a economia criminosa é pura fantasia. Pior, é uma mentira. São inseparáveis, mutuamente interdependentes.

Ipse dixit.

Relacionados:
Bancos simpáticos: HSBC - Parte I
Bancos simpáticos: HSBC - Parte II

Fontes:
Senado dos Estados Unidos: U.S. Vulnerabilities to Money Laundering, Drugs, and Terrorist Financing: HSBC Case History (ficheiro Pdf, inglês)
Senado dos Estados Unidos: HSBC Exposed U.S. Financial System to Money Laundering, Drug, Terrorist Financing Risks
Senado dos Estados Unidos: U.S. Vulnerabilities to Money Laundering, Drugs, and Terrorist Financing: HSBC Case History - Hearings (vídeo, declarações, testemunhos; inglês)
CSR Report for Congress: Saudi Arabia: Terrorist Financing Issues (ficheiro Pdf, inglês)
Kevin Fenton: Disconnecting the Dots
Richard Labévière: Dollars for Terror, The United States and Islam
Nicholas Shaxson: Treasure Islands
The Guardian
The Telegraph
The Wall Street Journal
The Independent

4 comentários:

  1. maria20.8.12

    Olá Max: esta, considero uma conclusão muito importante; "A dura verdade é que a noção de que realmente haja uma linha clara de demarcação entre a economia legal e a economia criminosa é pura fantasia. Pior, é uma mentira. São inseparáveis, mutuamente interdependentes.". E, porque? Porque até mesmo as pessoas sérias, e até bem informadas, ainda têm uma dose exagerada de confiança nas instituições, tanto econômicas, como políticas ou sociais, coisa que eu venho aprendendo que não vale a pena. Por sinal, ii tem contribuído para indicar que, senão podemos viver fora do âmbito das instituições, mas pelo menos sabermos como estamos vivendo pode ser-nos útil.Abraços
    E, ainda sobre o 11/9, não se trata de uma dúvida fundamental, penso eu, para esclarecer a situação, mas é uma curiosidade que persiste em mim. Suponho que no recinto havia dinheiro, ouro, documentos importantes, arquivos indispensáveis e outras coisas mais valiosas, além da vida de infelizes que tiveram a pouca sorte de lá estar no momento errado. Estava tudo segurado? Como funcionaram os resgates de valores? Coisas assim...se alguém souber gostaria que compartilhasse. Novos abraços

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  2. Rita M.20.8.12

    Excelente pesquisa Max.
    Isto é mesmo uma grande aldeia...
    Abraços
    Rita M.

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  3. Anónimo21.8.12

    maria:

    Ouro? Valores? Não. Tinha sido tudo retirado antes, segundo informação disponível. Mas pesquise você, pode ser que encontre contra-informação sobre o assunto.

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  4. Anónimo22.8.12

    Max, veio em boa hora -


    David Rothkopf: "O poder das empresas tornou-se um risco global"

    O diretor da revista Foreign Policy afirma que o gigantismo das corporações e o enorme poder político amealhado por elas subvertem as regras da democracia

    fonte:
    http://revistaepoca.globo.com/Mundo/noticia/2012/08/david-rothkopf-o-poder-das-empresas-tornou-se-um-risco-global.html

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