31 agosto 2012

Proteccionismo e Liberalismo

Hoje em dia a ideia dum País proteccionista é escandalosa. A sociedade é "global", consequentemente a economia tem que ser "global" também. E quem pensar o contrário é, na melhor das hipóteses, um retrogrado.

Mas com base em que podemos afirmar que o liberalismo económico ontem melhores resultados de que o seu oposto (um regime proteccionista)?

A base pode ser só uma: os dados. Pois as teorias podem ser bonitas e fascinantes, mas o que conta para avaliar os resultados duma escolha são os dados e nada mais do que isso. O resto são apenas palavras e boas intenções. E de boas intenções é pavimentada a estrada para o Inferno.

Pegamos num grande País: os Estados Unidos, heróis da globalização, e voltamos atrás no tempo.
São poucos os estudos para comparar a época proteccionista dos EUA com aquela liberal. Mas algo há.
Mark Bils, por exemplo, no seu Tariff protection and production in the early U.S. Cotton textile industry (1984) afirma:
A minha descoberta dificilmente poderia estar em maior conflito com o ponto de vista consensual sobre a importância económica da pauta. Os cálculos acima demonstram que, a partir de 1833, a remoção da protecção teria eliminado a esmagadora maioria do valor acrescentado na indústria têxtil do algodão.
Bils, portanto, não tem dúvida: o proteccionismo desenvolveu um importante papel no desenvolvimento da indústria têxtil, permitindo o lucro na área do algodão, por exemplo.
Mas será esta matéria a clássica excepção que confirma a regra?

O período mais interessante (e um dos poucos que disponibilizam dados de confiança) é o dos anos 1870-1892. Nesta altura, o continente europeu (liberalista na maioria dos casos) atravessava uma depressão económica, enquanto os EUA acentuavam as medidas de protecção.
Entre 1850 e 1870 o Produto Interno Bruto (PIB) per-capita aumentava com uma taxa anual de 1.8%. Entre 1870 e 1890, com as medidas proteccionistas, a taxa anual ficou na casa de 2.1%. E nos vinte anos seguintes (1890-1910) nunca desceu abaixo de 2.0%.

Resumindo: os melhores 20 anos de crescimento económico americano deram-se num período em que a politica comercial era proteccionista, enquanto os concorrentes dos EUA eram maioritariamente liberais.

Uma pequena deslocação tanto para chegar no próximo Canada.
O Canada adoptou uma politica mais proteccionista em 1879 e quando compararmos a situação económica dos 20 anos anteriores e dos 20 posteriores, a balança pende em favor do liberalismo, com resultados objectivamente melhores.

Mas o que acontece se analisarmos um período maior, de 30 anos?
Acontece que o resultado é o exactamente o oposto.O nível de produção manufactureira per capita em 1860 representava 40-45% do dos Países desenvolvidos: em 1913 aumentou para 82-87%.

E o mesmo aconteceu na longínqua Austrália, onde o proteccionismo trouxe industrialização.

 Se o Leitor fizer "click" o gráfico magicamente aumentará as próprias dimensões...

Voltemos ao caso dos Estados Unidos. É correcto afirmar que o êxito deste País deveu-se inteiramente ao regime proteccionista? Obviamente não: a elevada percentagem de terra cultivável, a disponibilidade de matéria-prima e o maciço afluxo de mão de obra e de capitais do estrangeiro (principalmente Europa) são factores que contribuíram não pouco ao crescimento.

Todavia fica claro que o proteccionismo não representou uma "época das trevas" na economia americana; pelo contrário, coincidiu com o período de maior esplendor do País.
E temos que observar nos dados europeus também, aquele do gráfico: no médio prazo, o proteccionismo não representou um passo atrás mas, pelo contrário, um passo em frente.

Liberalismo forçado

E no Terceiro Mundo?
Aqui a situação era mais complicada: de facto existia um liberalismo forçado, que é útil para entender o atraso no âmbito da industrialização e as pesadas consequências no desenvolvimento dos Países.

Um exemplo importante: quando foi extinto o monopólio da Companhia das Índias Orientais, em 1813, houve um forte afluxo de produtos têxteis para a Índia; afluxo que antes era controlado pelo monopólio.

Em 1814 a importação de algodão tinha sido de 1 milhão de jardas; em 1830 51 milhões; 2050 milhões em 1830.

Nesta altura, a produtividade dum operário inglês era entre 10 e 300 vezes maior do que um tradicional trabalhador indiano (a diferença 10-300 é devida ao tipo de produção, que podia variar); mas a diferença de salário não era tão profunda, tal como as condições de trabalho.
Portanto a grande diferença estava concentrada na produtividade, que o operário indiano não podia alcançar; e isso permitia um produto final com um custo bem reduzido, mesmo considerando os encargos para o transporte. A política de mercado aberto foi fatal e tornou inevitáveis as grandes importações.

A Índia não foi um caso isolado e também Países independentes foram obrigados a abrir as próprias fronteiras comerciais: em 1860, as exportações anuais de algodão de Reino Unido, França e EUA para a América Latina representavam o equivalente de 10.6 metros quadrados pro habitantes, enquanto na ´sia este rácio era de 7.9.
Este números explicam o quase total desaparecimento de industrias têxteis naquelas regiões; mas, além do algodão, temos muitos outros exemplo, tal como no caso dos minerais.

Mais uma vez, temos a liberalização com efeitos negativos.
Os mais críticos podem avançar com a ideia de que não é possível tomar os Países do Terceiro Mundo como exemplo, pois na altura estes eram obrigados a seguir as imposições dos Países colonialistas ou mais avançados.

Esta é uma observação correcta. Mas os dados não deixam margem para fuga: seja como for, o proteccionismo coincidiu com uma época de forte crescimento, enquanto nos Países que foram forçados a adoptar políticas comerciais liberalistas os resultados foram negativos.

O resto, como afirmado, são palavras.


Ipse dixit.

Fontes: Mark Bils, Tariff protection and production in the early U.S. Cotton textile industry, Journal of Economic History, XLIV, nº 4, 1984, pp. 1033-1045; Paul Bairoch, Economics and World History: Myths and Paradoxes, Prentice Hall, 1993, pp. 79-86

6 comentários:

  1. -> Para muita gente vale tudo em nome da crise... todavia, no entanto, pelo contrário, existe gente a considerar que muito muito mais importante do que a crise... é o DIREITO À SOBREVIVÊNCIA!!!
    Todos diferentes!!! todos iguais!!!
    ---> Isto é, TODOS os Povos Nativos do Planeta Terra:
    -> inclusive os de 'baixo rendimento demográfico' (reprodutivo)!...
    -> inclusive os economicamente pouco rentáveis!...
    devem possuir o Direito de ter o SEU espaço no Planeta!!!
    Dito de outra maneira - são duas formas de estar no planeta completamente diferentes:
    -1- os anti-separatismo (globalization-lovers) ameaçam com 'isto', ameaçam com 'aquilo', e andam numa busca de pretextos para negar o Direito à sobrevivência de outros;
    {Nota: Nazismo não é ser alto e louro nem é andar a defender a sobrevivência da sua Identidade... mas sim... a busca sistemática de pretextos para negar o Direito à sobrevivência de outros!... Anda por aí muito pessoal numa busca sistemática de pretextos... para negar o Direito à sobrevivência de outros!}
    -2- PELO CONTRÁRIO, para os pró-separatismo-50-50, os outros que fiquem na deles..., os pró-separatismo apenas querem o sobreviver da sua Identidade e terem o SEU espaço no planeta.

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  2. PVNAm, é a segunda vez que publica o mesmo comentário e não haverá uma terceira.

    Separatismo de quê?
    Por exemplo, Portugal deveria separar-se de...? Da Zona Euro?
    Mas não é possível falar de separatismo neste caso: Portugal é ainda (mais ou menos) um Estado soberano e alegremente falido. É possível falar de saída da Zona Euro, mas o separatismo não tem nada a ver neste caso.

    E o Brasil separar-se de quê? Da América Latina?

    Concordo consigo acerca de muitas coisas, mas seria simpático que você explicasse.

    Abraço.

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  3. Anónimo31.8.12

    Max, o post resume-se desta maneira: se confiarmos no globalismo, podemos deixar de nos preocupar com o que produzimos, pois vem tudo de fora. Logo, perdemos PIB, e logo ficamos mais pobres. Se não produzirmos, e logo não exportarmos, como ganharemos dinheiro? Mas, se produzirmos...nem precisamos de vender lá para fora, ou de comprar de fora, podemos consumi-lo nós!

    Quanto ao tema do separatismo, acho que "pvnam" se quer referir ao termo "independência"...

    Já agora...a Islândia foi separatista, soberana, ou independentista?

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  4. maria31.8.12

    Olá Max: uma coisa que sempre me chamou atenção tem sido o fato de que quando um país "dominante" propugna em nome do liberalismo na relação com outros "dominados", realiza políticas protecionistas em seu território. Tem sido assim nas relações diplomático comerciais entre EUA-Brasil, EUA-Argentina...Curioso, não? Abraços

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  5. Anónimo31.8.12

    há comida que sai dos eua só para voltar a um preço mais caro

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  6. -> Desculpe lá, tenho um bocado a mania de repetir as coisas.
    .
    -> Quando faço referência a separatismo é tendo em vista a salvaguarda do seguinte:
    - Uma NAÇÃO é uma comunidade de indivíduos de uma mesma matriz racial que partilham laços de sangue, com um património etno-cultural comum;
    - Uma PÁTRIA é a realização e autodeterminação de uma Nação num determinado espaço.

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