27 novembro 2012

Goldman Sachs e o desejo do Grande Velho

Uma das ideias mais difundidas no mundo da informação alternativa é aquela segundo a qual um limitado grupo de pessoas domina o mundo, utilizando para este fim os meios económicos financeiros.

E um dos exemplos para apoiar esta tese é constituído pelos bancos, atrás dos quais estaria escondido um punhado de famílias que trabalham em conjunto com a intenção de controlar o mundo.

O facto da economia e da finança serem controladas por uma minoria parece fora de questão. Mas quanto é grande esta "minoria"? Podemos reconduzir tudo no âmbito duma ou duas famílias (por exemplo os Rothschild e/ou os Rockefeller) ou será que há mais do que isso?

A ideia é: existe um Grande Velho ou um grupo de Iluminados? Ou será que a realidade é mais articulada, mais complexa do que isso?

A intenção aqui não é demonstrar a "inocência" das grandes famílias ou dos grupos numericamente limitados de poder, que existem e cujo "peso" não pode ser negado; a ideia é demonstrar que existe mais do que isso.

Pegamos num banco que a maioria das pessoas conhecem: Goldman Sach.
Esta instituição determina muitos dos acontecimentos que têm lugar não apenas no mundo da Finança: é suficiente pensar no caso da Grécia, nas peripécias orçamentais para este País entrar na Zona Neuro e no papel preponderante e não certo "limpo" que a Goldman Sachs desenrolou para o fim (dito de forma mais simples: é notória a intervenção do banco, em acordo com as autoridades de Atenas, na falsificação dos números para que a Grécia pudesse respeitar os limites impostos pela União Europeia e entrar assim no circo da moeda única).

E também sabido que quando falarmos dos "investidores" que detêm a dívida pública dos Países em sofrimento (sempre da Zona Neuro), eis que aparece a Goldman Sachs nas primeiras posições.
E sabemos que o nome da Goldman Sachs aparece cada vez que esteja a perfilar-se uma operação não propriamente "limpa", seja esta uma especulação que aumenta os preços da comida no mundo, a imposição não democrática dum Primeiro Ministro (Italia) ou a nomeação para um alto cargo (Banco Central Europeu).    

Mas afinal: quem é esta raio de Goldman Sachs?

No imaginário da informação alternativa, esta instituição é dirigida por três ou quatro banqueiros privados que governam tudo e todos: e, para apoiar esta visão, são citadas as declarações que Alessio Rastani fez no ano passado, na BBC, afirmando que "a Goldman Sachs governa o mundo".
Simples, após disso, individuar o provável apelido destes "três ou quatro banqueiros privados", os suspeitos do costume. E este blog também dedicou espaço ao assunto, com tanto de vídeo do simpático Alessio.
Pena.

Pena porque um artigo do Telegraph desmascarou o trader Rastani, o qual, além de não trabalhar por nenhuma empresa financeira, candidamente confessou estar apenas à procura da atenção dos media.

Isso significa alguma coisa? Não necessariamente.
Portanto, melhor observar os dados. E os dados afirmam que a Goldman Sachs não é absolutamente o maior banco do mundo. O seu peso em termos de activos detidos alcança "apenas" 920 biliões de Dólares (dados do balanço de 2011): "apenas" porque, em comparação, outros bancos são muito, mas muito mais impactante no cenário mundial. E isso conta do ponto de vista da importância estratégica.
Por exemplo: HSBC (Hong Kong Shanghai Banking Corporation) detém 2.550 biliões de Dólares, Royal Bank of Scotland 2.400, JP Morgan 2.200, Bank of America 2.100, BNP Paribas 1.960, Deutsche Bank 2.164, Barclays 1.560 e Citigroup 1.870.

Além disso, a maior operadora do mundo no âmbito das instituições financeiras nem é um banco, mas uma empresa de gestão de activos que há trinta anos nem existia: BlackRock, com mais de 3.500 biliões de AUM (Activities Under Management, activos sob gestão: não são apenas derivados). Paralelamente a este gigante encontramos duas outras entidades financeiras, a Pimco (1.800 biliões) e Fidelity (1.500 biliões): estas são as empresas que gerem as poupanças do Leitor, investindo no mundo e na dívida dos Países emergentes e desenvolvidos.

Estes dados não significam que Goldman Sach seja um banco pequeno: indicam simplesmente que não é a instituição no topo.

Mas vamos além disso, porque a importância que a Goldman Sach conseguiu no cenário mundial vai além dos activos conhecidos com o termo de "derivados". E o papel global da GS é um facto objectivo, que ninguém pode negar: não podemos esquecer, por exemplo, que GS desenvolveu uma gama de serviços para os clientes institucionais, especialmente os governos, relacionados com termos como market making, private equity e public debt dealing. Palavras esquisitas mas que têm um forte impacto na vida de todos nós e que indicam a forte ligação existente entre o banco e as classe política, por exemplo. Afinal, para determinar a importância duma instituição bancária, há muito mais do que os "derivados".

Então vamos ver o que realmente interessa: afinal , "quem é" a Goldman Sachs? Quem detém o verdadeiro poder no seio desta instituição?

Surpresa: não há apenas um dono, nem "alguns donos", sendo a propriedade bastante fragmentada.
Os principais accionistas são fundos de investimento e traders institucionais, nomeadamente:
  • Capital World Investors (4,7%)
  • Vanguard (4,2%)
  • Citigroup (3,25%)
  • Massachussets Financial Service (3,2%)
  • BlackRock (2,6%)
e uma infinidade de pequenos investidores com participações inferiores a 1%.
Resumindo: são muitos, mas muitos mesmo.

Somamos as acções detidas pelos investidores institucionais (20%) e os fundos de investimento (21%): chegamos a um total de 48%. Menos do que a metade. Isto significa que 52% das acções da Goldman Sachs fica espalhado no mercado.

Isso repetimos, não significa que a Goldman Sachs não tenha importância: tem, e muita (demais). Significa, mais simplesmente, que não há um Grande Velho atrás da Goldman Sachs.

Seria bom pensar que as desgraças do mundo sejam o fruto dum punhado de malvados; no entanto, os números mostram que os donos dos mercados globais são instituições bancárias e financeiras, muitas e muitas vezes interligadas, que têm um controle fraccionado, não atribuível a um único sujeito.
Infelizmente.

"Infelizmente"? Sim, isso mesmo.
Porque estes dados demonstram uma realidade bem incómoda. Não há aqui uns poucos vilões, mentalmente instáveis, que querem dominar o mundo. Não há uma organização tipo Spectre e não é suficiente um 007 qualquer para resgatar a sociedade. Temos que encarar a realidade, que é frustrante, porque os vilões são muitos, mas muitos mais do que apenas um "restrito círculo".

O "restrito Círculo" é na verdade um inteiro e complexo sistema.
O nosso sistema.


Ipse dixit.

Fontes: Eugenio Benetazzo, The Telegraph, Goldman Sachs 2011 Annual Report

7 comentários:

  1. olá Max: este é um post de deixar a gente muito triste! É tão reconfortante reduzir as mazelas do mundo a meia dúzias de canalhas nomináveis, ainda que inacessíveis. Inclusive a "reconfortância" se estriba no isentar-se, nós pobres mortais, eternas vítimas, cujas relações de poder não alcançam os grandes poderes.
    Mas concordo que não seja assim, porque o poder não está localizado aqui ou ali. Ele circula, e funciona, fazendo funcionar um sistema podre que, desejando ou não, contribuímos todos nós com maiores ou menores participações. Eu recebo minha aposentadoria através do banco do Brasil, e até descobrir que poderia transferir os recebimentos para uma cooperativa,(que afinal, nem tenho certeza se resolve) estive trancada aí. Mas, e o cartão de crédito? Praticamente não uso, mas não joguei na cara do gerente, quando a agência me ofereceu um "exclusivo". Afinal,parecia ter lá suas vantagens. Em quantas canalhices está envolvido o BB, ou qualquer outro? E eu sou cúmplice, tanto quanto qualquer um de vocês, que como eu também exercemos nossos podres poderes, dos quais o grande poder se nutre. Sem a participação em massa dos homens infames (sem fama)o sistema não se sustentaria. Alguns entre os infames (sem fama)buscam frestas no sistema ( e aí me incluo) onde fazer fluir suas existências...mas a maioria dança alegremente ao som da valsa. Alguns entre os alegres ainda discursam contra...atoa. Abraços

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  2. Anónimo27.11.12

    Ó Max...ninguém diz que há um "grande velho" atrás das instituições todas, mas montes de "velhos", feitos uns com os outros, que as controlam todas, não são só os bancos...e que, por consequência, moldam o sistema como querem.

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  3. Anónimo27.11.12

    os vilões são mais do que um círculo restrito, mas é o círculo restrito que comanda os outros como quer, mesmo que estes não saibam. E por isso, o sistema não é o vilão, o sistema é comandado por vilões.

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  4. Ricardo27.11.12

    É isso aí... uma visão mais realista e menos conto de fadas... é disso que precisamos...

    É bom parar as pessoas perceberem que não terá super-herói capaz de resolver isso... são precisos muitos, mas muitos... e não é pregando palavras... é fazendo ações... cada um de nós tem que almejar se tornar realmente importante na sociedade... alguém que possa ser decisivo...

    Algumas pequenas mudanças podem mudar totalmente o rumo das coisas e apontar soluções para todos...

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  5. Anónimo27.11.12

    ' O "restrito Círculo" é na verdade um inteiro e complexo sistema.
    O nosso sistema. '

    ups. Esta doeu

    krowler

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  6. Rita M.28.11.12

    Pois... e para o melhor e para o pior estamos todos dentro do mesmo sistema.

    Abraço
    Rita M.

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