18 fevereiro 2013

BCE: simples, estúpido, mas funciona

Eis uma história...como dizer? Divertida? Não, não divertida mas curiosa.
Mas antes: um passo atrás.

Há pouco mais de um ano, o Banco Central Europeu foi atingido por uma ideia genial: criar o LTRO. Não o "litro", aquele já existe, mas o Long Term Refinancing Operation. O pensamento era tão simples como evidentemente estúpido: criar dinheiro e entrega-lo aos bancos para favorecer o crédito.

"Simples" porque, de facto, se faltar o dinheiro é lógico imprimir novas notas e distribui-las.

"Estúpido" porque a ideia parte do pressuposto segundo o qual o banco privado, uma vez recebido o dinheiro, vai tratar dos interesses da economia e não dos seus próprios.

Claro, depois havia também a necessidade de ajudar algumas instituições bancárias em sérias dificuldades; mas a tónica foi posta no ciclo do crédito que o LTRO deveria ter despoletado, na intenção de conter o credit crunch. Mais dinheiro aos bancos = mais dinheiro para cidadãos e empresas = retoma económica = saída da crise = triunfo. 

Cereja no topo do bolo: a entrega de dinheiro foi apresentada como um empréstimo, ao miserável interesse de 1%. Na mesma altura, os Países europeus em dificuldades pagavam (e ainda pagam) interesses bem maiores sobre as esmolas concedidas pela dupla FMI-BCE.

Total do LTRO? 1.000 biliões de Euros, um discreto montante criado a partir do nada.

Passado um ano, a situação evolveu segundo as linhas que o Leitor pode facilmente imaginar. Os bancos receberam o dinheiro, agradeceram, e continuaram a não conceder empréstimos. Porquê?
Basicamente por duas razões.
  1. as instituições em dificuldades conseguiram "tapar os buracos", mas nos cofres ainda ficam activos "tóxicos", que assustam e que pintam o horizonte de negro.
  2. as instituições mais saudáveis fizeram duas contas e rapidamente encontraram a maneira para tornar o novo dinheiro mais rentável. Como? Investindo nos Títulos de Estado dos Países em dificuldades porque, como sabemos, geram altos interesses.
O credit crunch? Continua na mesma, exactamente como antes.

Mas onde fica a parte curiosa? Fica aqui: há ainda pessoas que acreditam num Banco Central Europeu que trabalha em prol da Zona Euro, dos cidadãos. Não é espantoso?
Meus senhores: o BCE é uma empresa privada que, portanto, tem que gerar lucros. Os donos do BCE são aqueles mesmos bancos privados que receberam a prenda chamada LTRO.

Mas vamos em frente: história acabada? Não, porque o LTRO, como afirmado, era um empréstimo que, como tal, tem que ser devolvido. Coisa que está regularmente a acontecer.
Até agora os bancos privado devolveram 145.6 biliões de Euros, mais interesses (o tal 1%...). E na próxima semana são previstos mais 3.8 biliões.

O mecanismo funciona que é uma maravilha. Os Títulos de Estado de curto prazo (tipo os de três meses) nos quais os bancos investiram o dinheiro do LTRO, já foram pagos pelos Estados em dificuldades; Estados que, para não falir, aceitaram pagar juros muito elevados. Portanto: os bancos encaixaram e agora podem devolver o mágico LTRO.

Quanto ganharam? Isso depende dos Títulos de Estado nos quais o dinheiro tinha sido investido.
Os Títulos italianos, por exemplo, renderam um 3% (mais ou menos), já Portugal pagou 4-5% (sempre valor aproximado), a Grécia 4% (mas este era o valor dos Títulos a três meses em Julho). Se a margem de ganho parece reduzida (2, 3 ou 4 pontos percentuais), é bom lembrar que aqui não se fala de bancos que comprar 100 Euros de Títulos...

Haveria espaço ainda para uma pergunta: "Quem paga os juros dos Títulos?".
Mas é uma pergunta retórica, não é?


Ipse dixit.

Fonte: Megachip

3 comentários:

  1. maria18.2.13

    Olá Max: tempos de crise no nosso mundinho, sempre são de empobrecimento de uns, para enriquecimento de outros. Parece só um deslocamento...que produz migrações de gentes e de valores, reais ou especulativos.Essa sensação fica mais evidente para mim, a medida que os posts de ii desfilam nos meus olhos.Se eu tivesse poder aquisitivo, faria o que o Ricardo fez lá pelas bandas de Biella, comprava uma casa de um desaventurado italiano em crise financeira, bem baratinha. Promovia um deslocamento, que afinal nada mais seria que um deslocamento de poder.Abraços

    ResponderEliminar
  2. Boas,estou a seguir este seu blog gostava de saber se já tem a terceira parte sobre o banco de Inglaterra,deixei aliás um coment na segunda parte do dito.

    ResponderEliminar
  3. Anónimo18.2.13

    Isto funciona como um circuito fechado, senão vejamos.

    O BCE ( privado ) cria dinheiro a partir do nada. Este dinheiro só passa a existir como tal, após entrar no circuito.
    Para isso empresta-o em condições muito favoráveis ao bancos comerciais, que o colocam em circulação. Não em beneficio da economia mas em seu próprio, como aliás seria de esperar de um banco. Assim, colocam-no em circulação não para fazer crescer a economia mas sim na compra de dívida publica.

    Chegados a este ponto o que temos?

    Temos o BCE a financiar de forma indirecta, a compra de título de dívida publica, dívida essa que é de imediato transposta para os contribuintes através de programas de austeridade. Além claro, da alienação de todo um patrimonio do estado construído ao longo de gerações.

    O resultado a curto prazo é uma dívida que não pára de crescer. Aliás é essa a ideia.

    Aprisionados os países pela divida, não resta aos cidadãos senão ter que a suportar, através de uma carga fiscal que aumenta na proporção do aumento da dívida.

    No limite, teremos nações inteiras a trabalhar quase e em exclusivo para o pagamento desta dívida.

    Reconheço o mérito deste 'projecto'. Conseguir por o mundo inteiro a trabalhar para pagar um esquema destes é de génio.

    Os burros têm de aguentar com a canga, que diga-se de passagem, até lhes assenta como uma luva. Tenho pena daqueles que não têm outro remédio senão embarcar à força no mesmo barco.

    abraço
    Krowler

    ResponderEliminar

Printfriendly

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...