25 fevereiro 2013

Eleições Italia: é caos

Ainda não chegaram os resultados finais, mas as mais recentes projecções assumem um tom cada mais significativo, sendo que a margem de incerteza diminui.

Se as percentagens forem confirmadas, o Parlamento italiano dificilmente será governável.

Vamos ver mais em pormenor (com dados das horas 19:40).


  • Coligação de Esquerda
(PD, Sel e outros, líder Bersani)
Percentagem Câmara: 31.68% Senado: 32.28% 

Os grandes derrotados. Apesar de ficar provavelmente como a facção mais votada, isso não é suficiente para governar.

Esta pseudo-Esquerda que sorri aos mercados tinha tudo para ganhar: após os resultados negativos do governo Berlusconi e aqueles mais negativos ainda de Mario Monti, com a maioria dos órgãos de informação claramente em favor, era só ficar calados e recolher os frutos. Mas começaram a falar e perderam; e nem é a primeira vez que isso acontece na recente história eleitoral do País.

Da próxima vez, os líderes da Esquerda deveriam fechar-se em clausura ao longo de toda a campanha eleitoral. Melhor ainda: não apresentar nenhum programa. Seria vitória.

Porque num País vítima das medidas filo-europeistas de Monti, anunciar fidelidade aos ideais da Europa Unida (quais?) e que o próximo governo ia ser formado com a participação do mesmo homem da Goldman Sachs, bom, tudo isso assusta. E hoje chegou a conta.

A coligação de Esquerda só pode recitar o mea culpa.

  • Coligação de Direita
(PdL, Lega e outros, líder Berlusconi)
Percentagem: Câmara: 26.91% Senado: 29.93%

Berlusconi é a grande surpresa. Podemos não gostar dele (e eu não gosto), mas o gajo tem sete vidas como os gatos. Desta vez recuperou, mesmo tendo contra a imprensa não apenas nacional.

É possível encontrar as razões desta boa performance? É.
Em primeiro lugar: Berlusconi como político é bem pouca coisa, mas como comunicador tem poucos rivais. O ponto de mudança aconteceu há poucas semanas, num programa televisivo construído pela Esquerda e que tinha como convidado só ele, Berlusconi, sozinho contra apresentador, outros convidados e público. Por quanto possa parecer inacreditável, Berlusconi saiu claro vencedor, por incapacidade dos outros e por mérito próprio. A partir daí, foi só somar votos, até hoje.

Outra motivação: Berlusconi escolheu uma campanha política construída contra esta Europa de Angela Merkel. Até passou perto da Modern Money Theory, tanto para cativar mais simpatias. E conseguiu, apesar da incoerência. Muitos estão descontentes desta Europa: Berlusconi captou o sentimento e conseguiu monetiza-lo.

  • Coligação de Centro
(líder Monti)
Percentagem Câmara: 10.46% Senado: 9.20%

O homem da Goldman Sachs e da Coca Cola viveu o grande sonho de ter conseguido convencer os cidadãos com as medidas de austeridade e o caminho da recessão económica. Entre o dito e o não dito ficava a esperança de governar com a cumplicidade da Esquerda.

Correu-lhe mal mesmo. Justo assim.

  • Movimento 5 Estrelas
(líder Grillo)
Percentagem Câmara: 25.57% Senado: 23.86%

O grande vencedor destas eleições: ultrapassou abundantemente 20% das preferências (quase 26% na Câmara segundo os dados das 18 horas), chegando quase a incomodar a Direita. E isso tendo sido alvo duma campanha vergonhosa por parte de toda a comunicação social, sem exclusões. É a vitória de quem nunca participou nas máfias dos partidos e de internet, verdadeiro coração do Movimento.

Agora começa o derradeiro teste: com um quarto de todos os votos do País é preciso demonstrar ter a capacidade para pôr em prática as boas intenções. Fica a certeza: não é possível fazer política em Italia sem considerar o Movimento de Grillo.

  • Coligação de extrema Esquerda
(Revolução Civil, Partido Comunista e outros, líder Ingroia)
Percentagem Câmara: 2.23% Senado: 1.80%

Os comunistas não atingem a percentagem mínima para entrar no Parlamento. Dito de outra forma: os dinossauros continuam extintos. Também isso é justo assim.


Ultimo dado, a participação: pouco além de 75%, a mais baixa dos últimos anos. 

Resumo: governar pode ser realmente impossível, só uma união composta por mais partidos poderia contar com uma maioria suficiente, mas é bem complicado. Não fica de fora a hipótese de voltar às urnas.

A não ser que alguém pense numa urgência nacional e que justifique desta forma uma união entre partidos até agora impensável.
Nunca subestimar o instinto de sobrevivência duma elite.


Ipse dixit.

Fonte: Il Corriere della Sera


 

2 comentários:

  1. Na minha opiniao estas eleicoes sao mais que meramente "eleicoes em Italia" dado que reflectem a insatisfacao dos povos do sul da Europa relativamente 'a implementacao da teoria da Austeridade Expansionista. O elevado numero de votos que Berlusconi obteve representa um regresso ao Nacionalismo e 'a rejeicao das medidas que foram impostas pela Uniao Europeia. Grillo representa um conceito ainda mais forte e interessante. Nao so se apresenta como um candidato que repudia ainda com mais intensidade as exigencias feitas pela UE como representa um modelo mais auto governativo para o seu pais. Os resultados destas eleicoes demonstram uma maior coragem por parte do povo italiano do que por exemplo, o portugues. Engracado que ainda nem se viram medidas draconianas 'a la Gaspar/Troika em Italia e ja despoltou esta reaccao imediata do povo italiano. Em Italia apesar de tudo ainda se disfruta de uma qualidade de vida aceitavel e os numeros do desemprego nao sao catastroficos. Verdade que tem uma divida maior em termos de percentagem, porem esta e' tambem detida por muitos investidores italianos.

    Continuo a ser da opiniao que a Espanha sera o jogador que pode expor os serios problemas da UE. Espanha tem uma taxa de desemprego assustador(27%), uma crise no mercado imobiliario sem igual, potencial separatismo regional (que ira aumentar com o desenrolar da crise) e uma crise politica, dado o escandalo recente de Rajoy e os seus amigos. Tudo isto e ainda nao abriram as portas 'as comitivas da Troika que certamente irao trazer consigo pacotes de austeridade similares aos da Grecia e Portugal.

    Uma pequena referencia aos excelentes resultados produzidos pelo BCE pois conseguiram lucrar muitos milhoes com os altos juros pagos pelos portugueses e gregos. Com certeza uma organizacao que quer o bem dos estados membros pois nem se dignificaram a devolver esses juros ao povo grego/portugues.

    Cumprimentos a todos,
    Xenofonte

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  2. Anónimo26.2.13

    Depois do comentário do Xenofonte, muito bem escrito, resta acrescentar sobre Itália, o fumo que estão a deitar agora as mentes pensantes de Bruxelas e arredores.

    Multiplicam-se reacções adversas ás escolhas dos italianos. Eu também votaria Grillo. De caras.

    Confesso que este resultado italiano é bem mais interessante que o Grego, que ficou muito aquém daquilo que seria de esperar, dadas as circunstâncias em que os gregos se encontravam na altura, face aos italianos.
    Os votos contestatários na Grécia, no Syriza com 16% na primeira volta, foi desanimador.

    Pese embora estes 2 resultados possam ser um sinal de aviso, é natural que o jogo de Bruxelas continue inalterável.

    No rectângulo, e com a troika de novo no top, adivinham-se mais medidas de austeridade, ou seja mais do mesmo para se manter o rumo que tem sido seguido até agora.
    As consequências já são conhecidas. Novos records de desemprego, falências e recessão.
    Curiosamente, aqui a tendência de voto continua dentro da alternância democrática.
    Temos o que merecemos, democracia representativa total e alternância democrática.

    Krowler


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