10 fevereiro 2013

Há crise e crise

Do Sul até o Norte, tudo em três semanas, sem parar um dia. Com meios de transportes públicos e privados. Espreitar, falar, ouvir. Comer, claro: afinal sempre Italia é. E comparar.

Já fazia um tempo que não passeava pelo "Bel Paese" e a altura foi a melhor: um País em crise, no meio duma campanha eleitoral, após o reinado do homem da Goldman Sachs, Mario Monti.

Começamos pelo fim: a crise. Seria difícil convencer um português de que a Italia está no meio duma profunda crise. Aparentemente tudo continua na mesma, é preciso falar com as pessoas para entender. E, verdade seja dita, mesmo assim pode não ser simples. A razão é óbvia: a Italia goza ainda dum padrão de vida bem superior.

Se no Sul existem problemas antigos (melhorados mas nunca resolvidos), com o Norte a comparação é impiedosa. É suficiente parar à beira duma estrada e observar os carros passar: na maioria são automóveis novos, e não, não são Fiat Panda.

Um pouco mais de atenção: há lojas, muitas. Nada de ruas com montras fechadas (tipo Almada), o comercio tradicional está vivo. Talvez não em excelente saúde, mas vivo. Mas este pode depender de outro factor: aqui, como em França por exemplo, não há centros comerciais no meio da cidades, e isso tem uma enorme importância. A falsa ideia de que "afinal o centro comercial gera emprego" não pegou, para boa sorte.

E os preços?
Os preços. Uma pizza simples (tomate, mozzarella), massa fina (a massa é sempre fina: a massa alta não é pizza, é um bolo!), 35/40 cm. de diâmetro (o tamanho é único, não existem pequenas/médias/grandes, a pizza não é uma t-shirt): 3,5 Euro (trêsvirgulacinco). Isso em Napoli. Em Milano um pouco mais, já estamos na casa dos 5,5 Euros.
Mas a pizza é italiana, lógico que custe menos. Não conta.
Já uma camisola é menos italiana e custa 10 Euros. Uma carteira para senhora 9,9 Euros, para homem em pele 10/12 Euros. Um kg. de esparguetes 0,50 cêntimos.
Um aluguer duma casa, 3 locais em Napoli: 450 Euros.

Um carro Fiat Punto gasolina 3 porte: desde 11.650 Euros (mesmo modelo em Portugal: 13.500, no Brasil: 39.350 Reais, mais ou menos 15.000 Euros).
A Fiat é italiana? Ok, então uma Volkswagen Golf gasolina 3 portas, modelo base: em Italia 17.800 Euros, em Portugal 21.382 Euros, no Brasil 49.930 Reais (19.000 Euros, mas é o modelo antigo, já não vendido na Europa).

O que custa mais é a gasolina, muito cara, sem dúvida (em autoestrada roça os 2 Euros por cada litro, na estrada 1.7/1.8 €, um exagero sem justificação). 

Mas, no geral, quem pensa numa Italia muito mais cara quando comparada com Portugal está redondamente enganado.

Melhor é ouvir as pessoas.
Genova, passo um pouco de tempo com o dono do hotel. Está zangado, fala da Merkel, do spread, começa a citar dados, a dívida da Alemanha, do Japão, da Espanha, dos bancos. Tenho uma dúvida: será que foi espreitar Informação Incorrecta? Nada disso: o mesmo se passa em outros lugares também.
Em Venezia dois gondolieri (os homens dos típicos barcos) falam entre eles do ordenado e da reforma de Monti. Em Bergamo, num café, o assunto é o mesmo, política e economia.

Onde ficam os bons velhos tempos nos quais as pessoas entretinham-se com aprofundadas discussões acerca do futebol? Estão em Napoli, no Sul, no barco que liga a cidade com Capri. Não é um acaso: problemas antigos.

Nos cartazes da campanha eleitoral fala-se de coisas que em Portugal aparecem só nos contos da ficção científica ou em blogues desesperados: como a soberania monetária ou a saída do Euro.

Claro, depois há os media mainstream e aqui o discurso muda radicalmente. O processo de estupidificação avança com boa velocidade e não conhece paragem. Um jornalista vendido é igual em todos os lados, seja em Portugal, seja em qualquer outro lugar. Entreter com assuntos banais é o lema, apresentar aberrações como sucessos faz parte do jogo.

Barack Obama autoriza o bombardeamento de civis americanos? É uma "mudança histórica", não um crime digno dos piores delírios nazistas.
Tudo normal.

Melhor voltar para a realidade. E volto para Almada. Abro a caixa do correio, eis uma missiva do Movimento 5 Stelle de Beppe Grillo (16% nas últimas sondagens). Um programa simples, sem ideologias ou palavras de ordem, dividido em pontos entre os quais:
  • Abolição dos reembolsos das despesas eleitorais
  • Limite de dois mandatos para os parlamentares e qualquer outro cargo público
  • Ordenado dos parlamentares em linha com a média nacional
  • Proibição de ser candidato no caso de cidadãos com problemas judiciais
  • Participação gratuita via internet dos cidadãos às reuniões do Parlamento
  • Referendos propositivos
  • Leis tornadas públicas online três meses antes da publicação para serem comentadas pelos cidadãos
  • Possibilidade de vender electricidade produzida com sistemas "limpos" abaixo de 20 kW (actualmente o cidadão pode vender a electricidade em excesso à rede eléctrica nacional só se o sistema de produção tiver capacidade superior aos 20 kW)
  • Incentivos e liberalização para a produção de bio-combustíveis, mantendo limites em termos de superfície agrícola utilizada, em particular do biogás produzido com a fermentação anaeróbia dos resíduos orgânicos
  • Cidadania digital por nascimento, acesso gratuito à internet por cada cidadão
  • Nenhum canal televisivo nacional ou jornal de propriedade dum só sujeito privado, limite de 10% na participação da propriedade
  • Rede telefónica nacional só pública
  • Propriedade intelectual das obras limitadas a 20 anos
  • Abolição dos múltiplos cargos no caso de administradores de sociedade presentes na Bolsa
  • criação de estruturas representativas dos pequenos accionistas na Bolsa
  • Proibição dos "cruzamentos" de acções entre sistema bancário e sistema produtivo na Bolsa
  • Introdução da responsabilidade das instituições financeiras acerca dos produtos oferecidos ao público, com comparticipação no caso de perdas
  • Limite máximo para os ordenados das empresas presentes na Bolsa e/ou estatais
  • Proibição de nomeação para cargos públicos (inclusive empresas com participação estatal) no caso de pessoas já condenadas em via definitiva
  • Obrigatoriedade de parqueamento para bicicletas nos prédios e parqueamentos públicos nas áreas urbanas
  • Utilização dos fundos destinados ao Ministério da Defesa para a pesquisa científica
  • Possibilidade do cidadão de destinar 8/1000 da taxa sobre os próprios rendimentos para a pesquisa científica
  • Acesso público e gratuito às lições universitárias

Parece o programa eleitoral dum qualquer partido português, não é verdade? Pois parece.

E se a ideia for criar um movimento na própria cidade, 5 Stelle ajuda. O importante é não ter uma condenação, não pertencer a outro partido, residir na localidade escolhida, não recobrir já cargos.
Como em Portugal, mesma coisa.

Interessante é que o Movimento 5 Stelle de Grillo não é o único: há mais na mesma calha, menos conhecidos mas nem por isso menos activos, todos com um forte enraizamento local. Nenhum deles ganhará as eleições, disso não há dúvida. Mas até 5 anos atrás nada disso existia.

O fim da Zona Euro, desta união degenerada, começa também aqui.

Complicado? Sem dúvida. Por isso agradeço ter voltado em Portugal. Ontem Ronaldo marcou três golos e hoje jogam Benfica, Sporting e Porto: não há tempo a perder, tenho que preparar-me psicologicamente.


Ipse dixit.   

13 comentários:

  1. koalabomb10.2.13

    Bem vindo de volta á terra do bacalhau e dos pasteis de Belém Max!

    Apresentas aí dois pontos que vale a pena frisar, o primeiro é o paralelismo entre Itália e Portugal no que diz respeito a "participação" politica, as pessoas em Itália pelo que parece estão a participar, a começar a se mexerem, não estão resignadas com o actual sistema, enquanto que em Portugal bem... o futebol vende mais que tudo.
    O segundo ponto que referes e acho bastante importante é a organização local, ou seja, a mudança começa na nossa localidade, nos vizinhos, na cidade, este é um dos melhores métodos para a mudança, não são grandes partidos, nem grandes centrais sindicais que vão mudar as coisas, é sim a organização de toda a sociedade, e isso começa a nível regional

    Continuação de bons posts, abraço

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  2. Anónimo10.2.13

    Ah, afinal voltou!...

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  3. Pizas a menos de R$15,00????????
    É o paraíso!!!

    :D

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  4. maria10.2.13

    Olá Max:bem vindo às postagens inteligentes!
    "Nenhum deles ganhará as eleições, disso não há dúvida. Mas até 5 anos atrás nada disso existia." Não ganhará as eleições hoje, o que não importa, neste momento. Mas está preparando um país inteiro para uma mudança de mentalidade política. Considerando as devidas diferenças, penso que o PT, no Brasil, no tempo que era um partido de base, arrancava com 3 ou 4%, e relativamente em pouco tempo garantiu maioria, em função de um número cada vez mais elevado de prefeituras municipais. Na Itália,me parece que, historicamente, um nível mais elevado de consciência política, logo tornará 16% em maioria, para felicidade dos italianos. E, como a base ideológica do partido de Grillo passa por votar em si mesmo,diríamos, com inspiração na democracia direta, e não votar para garantir a hegemonia do aparelhamento do estado político de representação, como infelizmente degenerou o PT brasileiro, as chances italianas de fazer da crise uma ponte para transformações importantes parece ser das melhores.Abraços

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  5. maria10.2.13

    Continuação: "Barack Obama autoriza o bombardeamento de civis americanos? É uma "mudança histórica", não um crime digno dos piores delírios nazistas.
    Tudo normal." A normalização do absurdo, via meios de comunicação e entretenimento parece igual em qualquer lugar, tanto quanto outros meios considerados educativos por excelência, como escola, academia, partidos políticos e sindicatos tradicionais. Portanto, parece lúcido nada esperar deles a não ser a continuidade da estupidificação geral. E parece claro que é nos movimentos sociais locais ou globais, que consigam se organizar, é que radica uma mínima possibilidade de resistência ativa ao status quo econômico, político, social, e até moral.Pena que este potencial de organização não seja para quaisquer uns. Abraços

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  6. Anónimo10.2.13

    Max bem vindo de novo ao país do faz de conta. Mas, nem tudo é mau como disse o Koalabomb, temos bacalhau apesar de caro, comparando com as pizzas italianas.
    Acredito que umas semanas em Itália devem ter dado para desanuviar um pouco.
    Relativamente ao programa do Movimento 5 Stelle, vejo lá alguns tópicos que merecem de uma abordagem mais aprofundada aqui no blog. É o caso dos bio-combustíveis através da reutilização de óleos usados ( a máfia já se instalou por estas bandas).

    abraço
    Krowler

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  7. Grande amigo Max,

    bem-vindo de volta...e com um excelente post informativo.
    Movimento 5 Estrelas - gosto das ideias e, por mim, poderia haver uma sucursal cá em Portugal.


    Um abraço,
    --
    R. Saraiva

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  8. Ricardo11.2.13

    Benvindo de volta!!!

    Esse domingo teve "bloco de carnaval" na minha cidade italiana. Nada de samba! Muito bom.

    E no caminho pude constatar os cartazes políticos. a Lega Nord... Mario Monti... e muita crítica ao Monti e às taxas criadas...

    Mas me pareceu ainda que muito espaço de propaganda é dedicado à política.

    Pois bem, meu primeiro ano eleitoral como cidadão italiano...

    ... existe possibilidade, de nenhum Berlusconi ou Monti da vida ganharem???

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  9. Anónimo11.2.13


    Max

    Em que lugar situas Portugal no "ranking" da informação "alternativa" ?

    O panorama parece-me desolador. Blogs como este são como eremitas a pregar no deserto ...

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  10. Anónimo11.2.13

    Olá Max,

    Você tem informações sobre a votação na eleição por cidadãos que vivem no exterior? Existem alguns candidatos que representam a América do Sul. Você saberia dizer quão efetiva é a atuação destes candidatos?

    Obrigado.

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  11. Ainda bem que o Max voltou... Já sentia falta de ler algo inteligente e sábio sem lhe falta a acutilância nem o humor. Bem haja!

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  12. Anónimo13.2.13

    Max,

    Bem vindo de volta ao país do futebol e do fado e aos posts também:-)
    O panorama realmente não é animador, mas podemos sempre contar contigo e com o pessoal que participa no blog para informar e baralhar o processo de estupidificação em curso!

    Um abraço

    Zarco

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  13. Anónimo14.2.13

    Max, enfim voltou, que bom...
    Ha 5 anos nada disso existia:
    Eu lembro que em Genova 2001 rolou muita cacetadas encima de cabeças que diziam muitas dessas coisas.
    E avisavam o que ia acontecer.
    Movimentos de cidadaos, tipo gas (gruppo di acquisto solidale) existem faz bastante tempo, agora sao muito mais numerosos.
    Uma ùltima coisa sò, no interior, nos pequenos vilarejos o comèrcio das lojas tradicionais foi muito atingido pelos shoppings center.
    Cidade grande è diferente.
    Buone cose...
    Cele

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