26 fevereiro 2013

Os guardiões do futuro

Suzanna Arundhati Roy é uma escritora e activista anti-globalização, a primeira pessoa indiana a vencer o Man Booker Prize pela sua obra The God of Small Things (O Deus da Pequenas Coisas), em 1997.

No último livro dela, Walking with the Comrades (Caminhando com os Camaradas) escreve:

Aqui na Índia, mesmo no meio de tanta violência e ganância, há ainda esperança. Se os outros podem fazê-lo, nós também podemos. A nossa população ainda não tem sido completamente colonizada pelo sonho consumista.
Arundhati Roy
Ainda está viva entre nós a tradição daqueles que lutaram em favor da visão de Ghandi, da sustentabilidade e da independência económica, das idéias socialistas de igualdade e justiça social. Temos a visão de Ambedkar, um desafio para os "ghandistas" e os socialistas. Temos uma espectacular coligação de movimentos de resistência, com a experiência deles, compreensão e visão.
Mas a coisa mais importante é que, na Índia, sobrevive uma população adivasi (indígena) de 100 milhões de pessoas. Eles são os únicos que conhecem os segredos da sustentabilidade. Se essas pessoas desaparecerem, esses segredos desaparecem com eles. Guerras como a Operation Green Hunt [Operação Caçada Verde: acção militar do governo indiano contra alguns rebeldes das regiões Andhra Pradesh, Bihar, Chattisgarh, Jharkhand, Madhya Pradesh, Orissa, Uttar Pradesh e West Bengal, ndt] iria fazê-los desaparecer.
Assim, a vitória de quem começar estas guerras contém dentro de si as sementes da destruição, e não apenas dos adivasis, mas eventualmente também do resto da raça humana. É por isso que precisamos urgentemente de um verdadeiro diálogo entre todos os partidos políticos que estão a resistir contra esta guerra.

O dia em que o Capitalismo for obrigado a tolerar uma sociedade não-capitalista dentro dele e reconhecer os limites do seu desejo de dominação, o dia em que reconhecer que as reservas das matérias-primas não são inesgotáveis, aquele será o dia da mudança.

Se há uma esperança para o mundo, de certeza não é possível encontrá-la nos corredores das conferências sobre as Mudanças Climatéricas, e muito menos entre os arranha-céus das grandes cidades. A esperança fica em baixo, na terra, nos braços de todos aqueles que estão a lutar todos os dias para proteger as suas florestas, as suas montanhas e os seus rios, porque sabem que serão as florestas, as montanhas e os rios a protegê-los.

O primeiro passo para ré-imaginar um mundo que está a ser destruído deveria ser travar a aniquilação de quem tem imaginação diferente, uma imaginação que vai além do Capitalismo e do Comunismo. Uma imaginação que tem um entendimento diferente acerca daquilo que produz felicidade e satisfação.

Para ganhar este espaço filosófico, é necessário fornecer o espaço físico para a sobrevivência daqueles que podem parecem ser os guardiões do passado, mas que, na verdade, são as nossas guias para o futuro.

Para fazer isso, devemos perguntar aos nossos líderes: podem deixar a água nos rios? Podem deixar as árvores nas florestas? Podem deixar a bauxita na montanha?

Se a resposta for não, então talvez deveríamos parar de falar de moralidade e de justiça às vítimas das guerras deles.
Não é fácil ir além do nosso passado, podemos ficar agarrados às nossas ideologias e pensar que sim, que de facto estamos do lado dos "bons". Ou podemos pôr tudo em discussão, ter a coragem de olhar em redor das nossas convicções, nem que seja para ver o que há de novo ou reavaliar o velho.

É isso que Arundhati Royfez: ela, que passou uma vida o lado dos maoistas indianos, espreitou e viu que há vida além das teorias, que o dualismo Capitalismo-Comunismo oculta algo bem mais importante.

Provavelmente este algo tem um nome simples também: podemos chamá-la "vida"?
(fogo, que pensamento profundo: deve ser má digestão, vou logo ligar a televisão)


Ipse dixit.

Fonte: AdBuster

2 comentários:

  1. maria26.2.13

    Olá Max: cumprimentos Suzanna... lindo olhar, boas ideias, sorriso instigante...A história dessa indiana me dá vontade de contar para vocês sobre a minha solicitação de recursos junto aos órgãos competentes do Mercosul para uma empreitada inédita.
    Hoje começo a escrever um projeto de resgate das raízes libertárias (de "vida") de um povo para além fronteiras, 300anos de uma saga que se construiu da mistura de índios charruas (exterminados,mas com genética viva no que resta deste povo),espanhóis nômades em sua terra de origem (descendentes de mouros)e emigrados para o sul do continente latino americano e italianos aqui chegados, também em busca de terra e liberdade. Esse caldo cultural misturou-se pelos pampas do estado do Rio Grande do Sul no Brasil,pradarias do Uruguai e estepes argentinas, atravessou os Andes, chegando ao Chile, por matas e desertos, alcançou o território do Paraguai, e em todos esses lugares,pessoas ainda se reconhecem como iguais, com mesmos traços de caráter:amor incondicional à liberdade, à independência e à palavra empenhada,respeito pelo pago (a terra onde nasceu com tudo que aí exista) e pela querência (lugar onde esteja vivendo), espírito combativo e aguerrido,altivez e particular senso de justiça,o churrasco, o carreteiro e o mate como alimento preferido, a pilcha como roupa preferida,o horizonte largo, sem cercas, como paisagem preferida, o cão e o cavalo como companheiros,um dialeto em comum, a hospitalidade, como princípio, uma sociedade de iguais,amando e vivendo da terra e da política entre os homens na terra, como fim.Que resta hoje desse povo, eternamente desgarrado que foi, do direito à posse da terra onde se construiu enquanto gente da mesma gente? Que resta hoje de homens e mulheres em tantas guerras lançados para assegurar-se terra e liberdade, e finalmente jogados a condição de peões de estância, outros marchando sempre adiante para outras paragens, sempre em busca do mesmo ideal, que os faz reconhecerem-se entre si, com orgulho, como gaúchos/gauchos? O que ainda resta nos depoimentos de vida e memória desta gente, encontrada em todo canto do mundo, que os faz se reconhecerem primeiro como gaúchos da patria chica do Rio Grande,só depois, como brasileiros; primeiro gauchos patagônicos,só depois argentinos/porteños; primeiro gauchos paisanos,só depois uruguaios? Isto é um fenômemo antropo/sociológico único no mundo! E após a Constituição ditada por José Artigas, que em 1815, do seu acampamento e governo popular da Grande pátria do Prata em Payssandú,concedeu direitos à nação gaúcha, o tempo, a traição e a ganância fizeram em farrapos a vida dos gaúchos, tanto quanto a Revolução Farroupilha, no sul do Brasil.
    Gosto dessa ideia, e se arranjar o que preciso para tal, ponho-a em funcionamento...afinal é hora de um novo ciclo de vida, que de verdade já começou faz um tempo, e cujo relatório pretendo escrever na cidade do Porto/Portugal (por estranho que lhes possa parecer, colegas do ii, porque vida... é o mundo andando). Abraços

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  2. Anónimo26.2.13

    com este post e o comentário da maria, fica o espaço para reflectir, olhando para fora e sobretudo para dentro.

    abraço
    Krowler

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