31 maio 2013

A Nato económica: Tafta e as Fundações

Bertelsmann Foundation: sabem o que é isso?
Não? Deveriam saber, pois esta é uma das instituições com um peso relevante nas nossas vidas.

Tudo bem, vamos com ordem.

TAFTA/TTIP

O ano de 2013 viu entre os eventos diplomáticos significativos o comunicado oficial conjunto de Washington e Bruxelas, do dia 13 de Fevereiro, para o início das negociações que terão como objectivo a criação da TAFTA/TTIP.

A TAFTA (Transatlantic Free Trade Area), também conhecida como TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), é uma parceria para o comércio e o investimento transatlântico, uma verdadeira união comercial e financeira dos dois lados do Atlântico.

A notícia, em boa verdade, não tem tido uma significativa cobertura dos media, o que é bastante normal: trata-se duma daquelas operações que não têm a simpatia dos cidadãos, pelo que avançam em silêncio e são publicitadas apenas antes da implementação, quando a máquina da propaganda entra em cena com analistas e comentadores que, de repente, descobrem as infinitas virtudes da nova criação. Até os políticos nacionais na altura parecem entender de geopolítica e prospectam um futuro radioso.

Na verdade, as negociações existem há alguns tempos, o que se passa é que começou a fase final.

No passado dia 12 de Março, a Comissão Europeia decidiu dar luz verde aos Estados Membros da União Europeia para realizar negociações com os Estados Unidos. E no site da própria Comissão Europeia já há uma grande variedade de estudos de viabilidade e possíveis protocolos de acordo.

No website da União Europeia aprendemos que um Conselho Económico Transatlântico, encarregado de criar as condições para uma verdadeira parceria, já tinha sido criado em 2007, um ano antes do começo da crise económica ainda em curso: as assinaturas no documento de fundação, com a data de 30 de Abril de 2007, são do então presidente dos EUA, o saudoso George W. Bush, do então presidente do Conselho Europeu, a simpática Angela Merkel, e do Presidente da Comissão Europeia, o simpático José Manuel Barroso.

Não é possível, portanto, enquadrar a "NATO económica" como uma resposta da presidência de Obama à actual crise económica e financeira. Aliás, a criação da TAFTA pode fazer surgir não poucas dúvidas acerca das verdadeiras razões (ou causas adicionais) da crise despoletada em 2008: o sádico masoquismo do Euro e a obtusa insistência dos vários Merkel e Barroso encontrariam aqui uma lógica explicação.

As Fundações

E aqui entra em cena a Bertelsmann Foundation, uma organização privada non-profit.
A confirmação do papel cada vez mais importante das fundações privadas, no site do Conselho Atlântico enfatiza-se a contribuição da Bertelsmann Foundation na operação TAFTA.

As notícias oficiais sobre esta fundação privada falam duma criatura do alemão Reinhard Mohn: escusado será dizer que este era um daqueles que entravam várias vezes na lista dos homens mais ricos do mundo. Mohn morreu em 2009, mas a Fundação continua com escritórios em Berlim, Bruxelas e Washington e está intimamente ligada, como é óbvio, às actividades do grupo empresarial de Monh, a Bertelsmann SE & Co. KGaA, o sexto mais importante conglomerado mediático do planeta.

A Bertelsmann é BMG Music Service, Círculo de Leitores, rádios e televisões (RTL), revistas (Focus), diários (Financial Times Deutschland) e muito, muito mais ainda.

O Grupo Bertelsmann é hoje de propriedade da Bertelsmann Foundation (77.4%) enquanto o restante 22.6% pertence ao homem mais rico da Bélgica, Albert Frère (Groupe Bruxelles Lambert: Petrofina, depois Total, Iberdrola, Compagnie Luxembourgoise de Télédiffusion, etc.).

Mas haverá alguém atrás da Bertelsmann?
É a mesma fundação que faz saber de ter obtido em 2010 um generoso financiamento por parte da Fundação Rockefeller para implementar os projectos de política internacional. E a Fundação Rockefeller tinha por sua vez recebido um prémio da Fundação Bill & Melinda Gates.

Assim fica mais claro para onde vai o dinheiro destas non-profit: as fundações privadas absorvem muitas das funções de negócios do sistema bancário, sob a égide de novos privilégios.

Evasão fiscal e Democracia

Um artigo do Washington Post, em Abril de 2005, alertava que o non-profit estava a tornar-se a nova fronteira da evasão fiscal. O artigo referia uma alarmada carta do então Chefe das Entradas dos EUA, Mark W. Everson, que invocava medidas do governo para enfrentar a enorme evasão fiscal que ocorria, já na altura, à sombra das fundações privadas sem fins lucrativos.

Não parece que as tais medidas invocadas por Everson alugam vez viram a luz; pelo contrário, a distância de oito anos não há nenhum funcionário do governo capaz de levantar a voz contra as fundações privadas.

Além dos aspectos fiscais, há também outros, mais importantes, como os políticos. No caso da TAFTA, temos uma fundações privada que desenvolve um importante papel num projecto que interessa o futuro de várias centenas de milhões de pessoas: mas quem elegeu a Bertelsmann Foundation? Quem delegou-lhe o poder decisional? Com direito em que a Bertelsman assumiu um papel-chave numa negociação entre governos?

De facto, estamos perante instituições privadas que apoiam activamente a realização de determinados projectos políticos-económicos de grande alcance, sem as implicações dos tradicionais partidos políticos: não há aqui eleitores que aborrecem ao exprimir uma opinião, as decisões são tomadas nos bastidores e os projectos implementados "para o nosso bem", com boa paz da Democracia ou do que sobrar dela.

E, obviamente, tudo acontece no âmbito da máxima legalidade.


Ipse dixit.

Fontes:
Europa: Statement from United States President Barack Obama, European Council President Herman Van Rompuy and European Commission President José Manuel Barroso
European Commission:  Framework for Advancing Transatlantic Economic Integration between the European Union and The United States of America (ficheiro Pdf, inglês)
European Commision: European Union and United States to launch negotiations for a Transatlantic Trade and Investment Partnership
European Commission: Final Report High Level Working Group on Jobs and Growth (ficheiro Pdf, inglês)
European Commission: Reducing Transatlantic Barriers to Trade and Investment -An Economic Assessment (ficheiro Pdf, inglês)
Atlantic Council: An Economic NATO: A New Alliance for a New Global Order
Bertelsmann Foundation: Global Futures - Megatrends Project Wins Rockefeller Foundation Grant
IAIR: Rockefeller Philantropy Advisors IAIR Awars with Bill Gates's Philantropy Roadmap
The Washington Post: Tax Abuse Rampant in Nonprofits

6 comentários:

  1. Qual é o problema com a TAFTA? Não há "virtudes" por descobrir, há pontos positivos e negativos, sendo que a globalização mostrou bem que os primeiros superam os segundos.

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  2. Nemo, não entrando no mérito da globalização, mas não acha que um passo tão importante deveria ser submetido ao parecer dos cidadãos e não decidido por uma Comissão Europeia (que ninguém alguma vez elegeu), um Conselho Atlântico (idem) e uma fundação privada?

    A adesão à União Europeia foi um processo no qual os eleitores puderam participar, sendo as consequências muito significativas por cada um de nós. Uma "união" ainda maior (e feita entre sujeitos tão diversificados) não seria merecedora dum percurso parecido?

    Abraço!

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  3. Well... Well...Well...

    Nada de novo além do novo/velho 4º Reich nazi/sionista avançando sua demoniocrática genocida agenda para a Guantánamo planetária em estado bem adiantado de execução.
    E a massa de senzalados se preparando para a copa das federações...


    Qual!... Sinto muito. sou grato.

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  4. Anónimo31.5.13

    Eu não vejo nenhum problema com a TAFTA, nem com a NATO e muito menos com a UE, já não falando da Zona Euro. Tudo a funcionar sobre rodas. Como previsto.
    Uns gostam, por isso se esforçaram para criar. Outros nem por isso. Outros nem sabem que existe.
    Nunca se pode agradar a Gregos e a Troianos. Aliás, os gregos têm tudo menos motivos para andar agradados. Talvez com a TAFTA a vida deles melhore. Talvez. Basta acreditar, depois logo se vê.

    abraço
    Krowler

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  5. Chaplin3.6.13

    Mesmo aqui o conjunto de comentários se encarrega de mostrar o quanto estamos inertes e predispostos a aceitar a própria dominação...

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  6. Anónimo4.6.13

    TAFTA/TTIP de um lado e TPP de outro ;)

    Obama’s Super Secret Treaty - TRANS-PACIFIC PARTNERSHIP
    http://bit.ly/15wMk12


    The New York Times (June 2, 2013)
    http://nyti.ms/15wMmFW
    The Obama administration has often stated its commitment to open government. So why is it keeping such tight wraps on the contents of the Trans-Pacific Partnership, the most significant international commercial agreement since the creation of the World Trade Organization in 1995?

    The agreement, under negotiation since 2008, would set new rules for everything from food safety and financial markets to medicine prices and Internet freedom. It would include at least 12 of the countries bordering the Pacific and be open for more to join. President Obama has said he wants to sign it by October.
    (...)
    So why keep it a secret? Because Mr. Obama wants the agreement to be given fast-track treatment on Capitol Hill. Under this extraordinary and rarely used procedure, he could sign the agreement before Congress voted on it. And Congress’s post-facto vote would be under rules limiting debate, banning all amendments and forcing a quick vote.
    (...)
    Whatever one thinks about “free trade,” the secrecy of the Trans-Pacific Partnership process represents a huge assault on the principles and practice of democratic governance. That is untenable in the age of transparency, especially coming from an administration that is otherwise so quick to trumpet its commitment to open government.

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