03 maio 2013

Capuchinho Vermelho e os Direitos

- Bom dia Capuchinho Vermelho - disse o lobo enquanto apoiado a uma árvore fumava uma Luky Strike. - É um dia bonito, não é?

Capuchinho desviou o olhar das flores do campo e olhou para o lobo: - Minha Nossa Senhora Santíssima da Saúde, um lobo! Um autêntico lobo mau! Socorroooo!!!
- Calma, calma Capuchinho, fica descansada. Estou aqui, na máxima descontracção, e só me apetecem dois dedos de conversa. E podes esquecer o "mau": sou lobo, sim, mas sou bom, muito bom.

Capuchinho olhou para o lobo: de facto estava parado, na boa. Tinha os olhos pérfidos, quase fechados tanto eram subtis, mas o ar geral parecia...descontraído, como ele tinha dito.
- Por exemplo: onde é que vais com o saco do supermercado? Se não estou a ser indiscreto, óbvio. - disse o lobo olhando os anéis de fumo que flutuavam para o céu.
- Vou...vou levar comida para a minha avó. - respondeu Capuchinho com voz trémula.
- Ah, sim, a velha, pois... - disse pensativo o lobo: - E posso saber qual a razão?

"Que pergunta estúpida" pensou Capuchinho, "Este não deve ser um lobo tão inteligente". E respondeu: - A avó vive sozinha, não consegue fazer tudo, então alguém tem que levar-lhe a comida. -
- Sim, isso percebi eu - confirmou distraidamente o lobo - mas o que quero dizer é: que direito tem a velha de receber comida, deixando que uma rapariga tão jovem e tão bonita atravesse um lugar tão sinistro como um bosque?
- É...é que a avó trabalhou a vida inteira, então agora tem o direito de ser assistida. É um direito adquirido.
- "Direito", - sorriu o lobo - "direito" e "adquirido" dizes...minha querida Capuchinho, os direitos são coisas bem esquisitas e os direitos adquiridos depois...sabes, a verdade é que os direitos adquiridos nem existem.
- Como assim? - perguntou curiosa Capuchinho.

O lobo sentou-se com as costas apoiadas ao tronco, apagou o cigarro e juntou as mãos: - Capuchinho, o que é um direito?
- Direito do trabalho, ou direito laboral, é o conjunto de normas jurídicas que regem as relações entre empregados e empregadores, são os direitos resultantes da condição jurídica dos trabalhadores.- respondeu Capuchinho que tinha internet em casa e costumava consultar Wikipédia.
- Eh? Ó Capuchinho, mas como raio falas?
- Tá bom...então o direito é algo que podemos justamente reivindicar perante a comunidade. Por exemplo: a avó trabalhou a vida toda e agora tem o direito de ser assistida.
- Ahe? - observou o lobo - Então deixa que te explique uma coisa: os direitos são algo que é preciso conquistar e depois defender. Continuamente, sem parar. Vou fazer-te um exemplo.

Capuchinho apoiou o saco no chão e sentou-se para ouvir melhor.
- Eu sou lobo, justo?
- Justo. E feio também.- observou Capuchinho.
- Isso agora não interessa, o que conta é que sou lobo. Isso significa que sou forte, sou rápido: sou o ser mais forte do bosque. Mas isso chega para proporcionar-me uma boa vida, feita de ócio? Poderia dizer "Olhem, sou o maior aqui, tragam-me um cordeiro com batatas fritas". Mas não, não chega. A cada dia tenho que acordar, procurar comida, caçar, lutar contra os outros lobos até.

Capuchinho ficou pensativa. De facto a vida do lobo era assim. Continuou o lobo: - Ser o maior não é suficiente, é preciso lutar dia após dia para lembrar a todos que sou o maior. Agora, pensa na tua avó: ela lutou pelos direitos dela?
- Ela trabalhou, a vida toda. - respondeu prontamente Capuchinho.
- Sim, isso já disseste. Mas trabalhou como? Lutou pelos direitos dela? Que fez? -
Capuchinho tentou lembrar: - ...bom, a avó trabalhou a vida toda...depois foi votar, sempre, nunca saltou uma votação! - exclamou radiante.
- Grande coisa! - riu o lobo, - Votou? Isso impediu que no bosque ande um lobo ma...ehm...bom mas teoricamente perigoso como eu?
- Não, em verdade não... - admitiu Capuchinho.
- Vês? Então votou em quem? E para quê?
- Votou...votou como forma de participação cívica na sociedade. - respondeu Capuchinho.
- Sim, votou, já percebemos. Mas não achas pouco? Que dizer, trabalhas, votas e é assim que conquistas os teus direitos?
- Sim...acho que sim...a sociedade funciona desta forma.
- Sério? - perguntou o lobo com uma gargalhada - Uma sociedade magnífica, sem dúvida: 8 horas de trabalho por dia, às urnas uma vez a cada quatro ou cinco anos e pronto, eis conquistado o direito. Ah, querida Capuchinho a tua inocência faz ternura...sabes, há alguns anos fui até à cidade. De noite, para não ser visto. Deslizei ao longo das paredes, escondi-me atrás dos caixotes do lixo, até que encontrei um lugar estranho: o nome dele era "zoo".
- Ah, sim, sei o que é um zoo! - disse Capuchinho - Um zoo: é um local específico para se manter animais, selvagens e domesticados, que podem ser exibidos ao público. Nele existem profissionais especializados, como veterinários e zootecnistas, que cuidam da alimentação, das jaulas, da saúde mental e física dos animais, entre muitas outras actividades.
- Isto é Wikipedia outra vez?
- Claro.- respondeu Capuchinho.
- Tá bom, Capucho, deixa-me acabar. Curioso, entrei no zoo e havia muitos animais, alguns grandes grandes, outros pequenos pequenos, até que um certo ponto deparei com uma gaiola na qual havia um lobo. Aproximei-me e chamei. Era Fang.
- Ah, como na canção White Mountains dos Genesis: Las letras de White Mountain cuentan una fábula de un lobo llamado "Fang", quien busca usurpar la autoridad del líder de la manada (un héroe invicto conocido como "Un-Ojo") al intentar capturar la corona y el cetro que solo el lobo rey puede tener. Wikipedia espanhola, óbvio.
- Capucho, quer fechar a boca? Que grande melga...
- Desculpa lobo, desculpa...
- Tudo bem...então dizia: falámos, eu e Fang, falámos muito. Dizia estar satisfeito: tinha comida todos os dias, duas vezes por dia, ninguém ia chateá-lo, dormia quando tinha vontade de dormir, acordava só quando estava cansado de sonhar.
- Uma boa vida! - notou Capuchinho.
- "Boa vida"? Capuchinho, Fang estava e ainda está preso numa gaiola! Achas uma boa vida aquela? Sim, tem o direito de ter comida duas vezes por dia, não como eu que tenho que levantar-me com o sol ou com a chuva para sobreviver: mas vive numa gaiola, percebes, uma gaiola! Fang tinha trocado a sua liberdade por alguns "direitos": sentia-se bem, com a barriga cheia todos os dias, mas qual o custo?

Capuchinho ficou a pensar. E depois perguntou: - Ó lobo, percebo a história, mas não percebo onde queres chegar. O que queres dizer-me?
O lobo acendeu outro cigarro e olhou para Capuchinho: - Em verdade já disse. Os direitos adquiridos não existem. Os únicos direitos que valem são aqueles para os quais estás disposta a lutar. E digo "lutar", entendes? Não "votar". E há muitas maneiras de lutar. Há quem pense que "luta" signifique "violência", mas isto é verdade apenas no caso de mentes fracas. "Lutar" significa também aprender, informar-se, partilhar o conhecimento, confrontar as ideias...tudo isto custa, requer empenho, tudo isto é luta também.
- Percebo. - disse Capuchinho olhando para o seu relógio. - Olha, lobo, já é tarde e tenho que ir até a casinha da avó. Obrigado por tudo e pela simpática conversa.
- De nada, Capuchinho, sempre às ordens. - respondeu o lobo preparando-se para a siesta.

Com um corta-mato, Capuchinho Vermelho alcançou depressa a casa da avó. Bateu na porta e a avozinha respondeu: - Entra Capuchinho, entra, a porta está só no trinco, tens que puxar para cima e...
- Ó avó, já estou aqui. Olha, trouxe-te uma posta de bacalhau com acompanhamento de bacalhau frito e um bolo de bacalhau como sobremesa - disse Capuchinho bem sabendo das origens portuguesas da avó.
- Linda menina! - exclamou a idosa.
Capuchinho entregou a comida e começou a observar a avó.
- Porque estes olhos tão grandes? - perguntou.
- Ó minha querida, é para ver melhor a televisão.- respondeu a avó.
- Porque essas orelhas tão grandes?
- São para ouvir melhor a televisão.
- E porque estas mãos tão grandes?
- É para carregar melhor nas teclas do comando da televisão.
- E porque esta boca tão grande?
- É para comer melhor as pipocas enquanto vejo a televisão.
- Ó avó, não achas que ficar sentada o dia todo a ver televisão seja um pouco redutivo?
- Que quefef fifer?
- Ó avó, engole o bacalhau que assim não se percebe nada.
- Dizia: que queres dizer?
- Entendo: que tal levantar-te, sair para a rua e defender os teus direitos? Sentada aí, sem nada fazer, sabe o que vai acontecer? Acontece que alguém vai tirar-te os teus direitos, porque temos que lutar dia após dia para defende-los, nada é adquirido. Não achas?
- Não, trabalhei a vida toda, votei no Partido Sério e Dedicado, isso é suficiente. E agora ligas para quem?
- Nada, avó, não te preocupes...Estou? É o lobo? Já almoçaste? Olha, não é que na barriga tens ainda espaço para uma avó?


Ipse dixit.

3 comentários:

  1. maria3.5.13

    Olá Max: uma questão difícil de tratar é essa dos direitos porque as pessoas acostumaram-se a ligar direitos básicos como comer, vestir habitar e informar-se diretamente vinculados ao mercado de trabalho e ao trabalho assalariado em especial. Pessoalmente, acho que a questão dos direitos numa sociedade que se entendesse por civilizada, vai muito mais longe, e açambarca uma coisa que chamaria modos de ser e produzir que contribuem para o desenvolvimento da sociedade, e aí o conceito de trabalho funde-se com o de produção criativa, e expande os direitos básicos para todos, desde que existindo no âmbito social. Sei que essa compreensão é polêmica, principalmente num mundo que ora mutila de direitos até os que são bem obedientes ao sistema e dão a vida por um empreguinho. Mas me parece que precisa ser abordada. Abraços

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  2. Anónimo3.5.13

    Hoje lá foram mais uns direitos adquiridos, entre os quais o aumento da idade da reforma, que passa para os 66 anos.
    Os avozinhos, muitos dos quais são responsáveis por este governo existir, levaram mais um revés. Agora têm de se esforçar mais um ano para conseguirem finalmente dedicar todo o seu tempo ao consumo de programas TV tipo fast food.
    Curiosamente não só não fazem nada para defender os adquiridos, mas muitos ainda concordam com esta linha de gestão financeira do país.

    Nada mais a dizer

    abraço
    Krowler

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  3. Ricardo4.5.13

    Sensacional!!! Max, és um artista! Um conto clássico transformado em uma mistura de política e sensualidade... escárnio... devia fazer isso de forma mais intensa... mais gráfica e lançar... lhe garanto que se algum cartunista se juntar à você, a mensagem se difundirá de forma muito mais abrangente do que seus excelentes, porém ligeiramente mais complexos, textos! :)

    E quanto à direitos... eu fico MUITO triste vivendo no primeiro mundo... vindo do terceiro mundo... aprendido a história oficial e não oficial de lá... de como o Banco da Inglaterra comprou o Brasil da Coroa Portuguesa... como foram as ditaduras da Guerra Fria... de como o Brasil nunca foi (e provavelmente nunca será) diferente do Oriente Médio, Tigres Asiáticos e Áfricas: COLÔNIAS ESCRAVAS QUE APENAS PROVÊEM OS INSUMOS PARA O PRIMEIRO MUNDO... insumos esses que antes eram matéria prima e hoje, para as elites do primeiro mundo aumentarem o lucro, os escravos produzem o produto já industrializado... o que é uma pena... pois o cidadão comum do primeiro mundo acaba também se tornando um escravo... da dívida... é triste... :(

    Eu trabalho na Inglaterra... mudaram as regras... perdi 77 libras do meu salário mensal... enquanto empresas gigantes calotam (Apple nos EUA, ao invés de tirar 5 bilhões das Ilhas Caimã, resolveu pedir empréstimo e, claro, os bancos deram... no próximo QA, 10 bilhões serão usados para resgatar o buraco da Apple + o novo buraco da Apple... lindo...)...

    Direitos... aqui não há educação pública e a saúde e a previdência estão migrando para privada... tenho medo de isso influenciar outros países da Europa... é triste... pois na Itália, minha filha estuda em escola pública, já usamos serviço público de saúde... e comparamos com nossos caríssimos equivalentes no Brasil... será muito triste perder esses direitos...

    Vi um gráfico de distribuição de renda nos EUA... um vídeo no Youtube... e um site que calcula seu dinheiro baseado nos dados de todo o mundo... fiquei assustado com o quanto a elite tem acumulado nas últimas décadas, parece ficção, é inimaginável... e também fiquei preocupado que meu salário (que preciso batalhar), está entre os 0,12% maiores do mundo!!!!

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