27 maio 2013

Henry Kissinger: o Memorandum NSSM-200

Alegria!

Ontem foi o 90º aniversário do simpático Henry Kissinger, figura incontornável da história contemporânea.

Para comemorar, eis alguns excertos duma das obras primas dele, o Memorandum NSSM-200, documento secreto até o final da década dos anos '90.

Um documento importante, pois as principais linhas de acção foram adoptadas pelo então Presidente Gerald Ford em 1975.

Memorandum NSSM-200
Para a maior parte da história humana, a população mundial tem vindo a crescer muito lentamente. Segundo a taxa de crescimento estimada para os primeiros 18 séculos depois de Cristo, forma precisos mais de mil anos para que a população mundial dobrasse em número. Mas desde o início da revolução industrial, com a medicina moderna e novas regras de higiene, nos últimos 200 anos, as taxas de crescimento da população começou a aumentar. No ritmo atual, a população mundial vai dobrar no prazo de 37 anos. [...]
O crescimento da população terá consequências importantes sobre a procura de alimentos, especialmente nos países mais subdesenvolvidos e com mais rápido crescimento demográfico. Assumindo normais condições meteorológicas e um crescimento na produção semelhante ao mais recente, a produção agrícola global até poderia crescer mais rápida do que a população, mas ainda assim haveria o grave problema da distribuição dos alimentos e dos financiamentos, o que tornaria mais provável escassez, até mesmo em relação aos níveis mínimos de hoje, nas nações maiores e mais povoadas. Mesmo agora, morrem a cada ano em consequência directa ou indirecta da desnutrição, entre 10 e 20 milhões de pessoas. A situação pode deteriorar-se ainda mais como resultado das más colheitas que ocorrem ciclicamente. [...]

Os países mais pobres e subdesenvolvidos, com maior crescimento populacional, terão grandes dificuldades. Vão encontrar cada vez mais problemas para adquirir energia e matérias-primas, e terão dificuldades para obter o fertilizante essencial para a sua própria produção agrícola. As importações de combustíveis e de outros produtos vão provocar problemas sérios que poderão retorcer-se contra os Estados Unidos, tanto pela necessidade de fornecer um maior apoio financeiro, quanto pelas tentativas que estes países farão para obter condições de mercado mais vantajosas, elevando o preço das suas exportações. [...]

As consequências políticas da dinâmica em curso nos países subdesenvolvidos - crescimento rápido, migração interna, altas percentagens de jovens, crescimento lento dos padrões de vida, concentrações urbanas e pressões causadas pela migração externa - prejudicam a estabilidade interna e as relações internacionais dos países em desenvolvimento, onde os Estados Unidos estão envolvidos, criando assim problemas de natureza política, ou até mesmo de segurança nacional para os Estados Unidos. De modo mais geral, há um alto risco de grave dano para o equilíbrio do mundo económico, político e ecológico, e portanto, com o declínio destes equilíbrios, até mesmo os nossos princípios humanitários. [...]

A questão fundamental sobre o qual gira a estratégia demográfica mundial, hoje, 1974, é se a humanidade fiará projectada para o total esperado de 12-15 biliões - o que significaria um aumento de 5-7 vezes em quase todos os países subdesenvolvidos, excluindo a China - ou se, apesar da vitalidade actual do crescimento da população, isto poderá ser desviado o mais rapidamente possível para um curso de estabilização, o que conduziria a um limite final de 8-9 biliões no máximo, com um aumento em qualquer uma das grandes áreas do planeta não maior do que três ou quatro vezes. [...]
Quais são as dificuldades? Nós não sabemos se o progresso tecnológico no século 21 permitirá alimentar a 8 ou até 12 biliões de pessoas.
Não podemos ter certeza de que as mudanças climáticas ao longo da próxima década não irão representar nenhuma grande dificuldade para alimentar uma população em crescimento, especialmente nos países em desenvolvimento que vivem em condições mais extremas e vulneráveis.
Há uma possibilidade real de que o curso actual levará a condições [de sobrevivência, ndt] de tipo malthusiano, em várias regiões do mundo. [...]

Mas mesmo que este grande número de pessoas fossem capazes de sobreviver, nua e crua

Um crescimento moderado da população proporciona benefícios porque os bens poupados podem ser investidos ou podem permitir um melhor padrão de vida individual. Se diminuírem os bens guardados para para manter menos filhos, e se o dinheiro para construir escolas, casas e hospitais for investido em actividades produtivas, os efeitos sobre o crescimento do produto nacional bruto e o bem-estar individual pode ser substancial. Além disso, o crescimento sócio-económico decorrente da restrição dos nascimentos iria contribuir ainda mais para baixá-los. A relação [entre bem-estar e baixo nascimento, ndt] é mútua, e pode assumir a aparência de um círculo vicioso ou virtuoso. Isto leva a pensar quanto mais eficazes podem ser investimento directos para controlar o nível da população em vez de aumentar a produção com novas irrigações, aumento da quantidade de energia ou de fábricas. [...]

As estratégias e os programas em todo o mundo no âmbito demográfico devem prever dois objectivos principais:
sobrevivência seria, com todos os esforços feitos, nos melhores anos, para dar-lhes um mínimo apoio e, nos piores anos, para vê-los depender dramaticamente das intervenções de assistência urgentes das nações mais ricas e menos povoadas. Um empenho mais vigoroso para reduzir o crescimento global pode significar a diferença entre enormes catástrofes provocadas pela desnutrição ou falta de comida, e uma simples situação de dificuldade cronica. [...]
  1. intervenções para permitir o crescimento estável da população mundial até 6 biliões até a metade do século 21, sem privações maciças ou absoluta falta de esperança para o desenvolvimento, e
  2. intervenções para conter o limite máximo o mais próximo possível dos 8 biliões, e não deixá-lo chegar aos 10, ou 13 biliões ou até mais. [...]
Devemos ter o cuidado de não dar a aparência das nossas intervenções jogarem em favor de uma nação industrializada contra aquelas subdesenvolvidas. [...]

Há uma escola de pensamento diferente, que diz que um número crescente de especialistas considera a situação demográfica no mundo muito mais grave, e muito menos domesticável através de medidas voluntárias do que geralmente pensava-se. Argumenta-se que, a fim de evitar a falta de recursos e outras catástrofes demográficas ainda maiores do que as previstas, são necessárias medidas de intervenção ainda mais radicais, que nos levam a abordar delicadas questões de ordem moral. Isso inclui, por exemplo, [a revisão dos] nossos próprios hábitos de consumo, planificações obrigatórias ou controle apertado sobre a nossa oferta de alimentos. Dada a importância destes assuntos, sugere-se uma rápida avaliação pelo poder executivo, o parlamento, e as Nações Unidas.

Obviamente Henry Kissinger ganhou o Nobel da Paz.
Parabéns.


Ipse dixit.

Fontes: National Security Study Memorandum NSSM 200 (ficheiro Pdf, inglês)

2 comentários:

  1. maria27.5.13

    Olá Max: então...está certo...prêmio nobel da paz de cemitério. Ele não é o único a considerar que a melhor estratégia para erradicar a pobreza é eliminar os pobres. E, ao que tudo indica suas observações vem sendo tomadas em sério pela política humanitária dos EUA, a eliminação dos pobres é uma constante no mundo, inclusive atualmente no país de Kissinger. Só que os pobres também têm suas estratégias, e se multiplicam como ratos. Abraços

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  2. Anónimo27.5.13

    A boa noticia tem a ver com a idade avançada deste senhor. Não vai fazer doutrina por muitos mais anos.

    Quanto ao texto, este começa por um diagnóstico da situação, para depois apresentar a receita. Relativamente ao diagnóstico sobre a evolução da população mundial nada a dizer. É um facto que estamos numa curva exponencial.
    Já relativamente à receita, a coisa muda de figura. É uma receita conhecida e com muitos apoiantes de peso.
    Interessa contudo saber quais as linhas de rumo.
    Esta frase é lapidar: 'são necessárias medidas de intervenção ainda mais radicais, que nos levam a abordar delicadas questões de ordem moral'.

    Se pensarmos na actual situação da europa e de todo o mundo ocidental, podemos questionar se a situação com que nos deparamos é uma crise ou um mudança para um novo modelo. Eu vou pela segunda hipotese, como já afirmei anteriormente noutro posts.

    abraço
    Krowler

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