28 maio 2013

Idiocracia: o analfabetismo funcional

Será "analfabeto" ou "analfabeta"?
Bom, isso agora não interessa: na verdade vamos falar do "analfabetismo funcional". Que não é o analfabetismo "normal".

O analfabetismo clássico é a incapacidade de ler e escrever.
Já este é um problema, pois existem Países onde poder interpretar as letras não é coisa tão comum. Se em Portugal 94.9% e no Brasil 90.0% das pessoas sabem ler, em outras comunidades de língua portuguesa a situação é bem pior: 83.8% em Cabo Verde, 67.4% na Angola, apenas 44.4% no Moçambique.

Mas estes são os problemas dos Países em desenvolvimento: o analfabetismo funcional é algo que atinge os Países industrializados e trata da incapacidade de entender quanto lido.

Esquisito? Aparentemente é: se uma pessoa sabe ler, é suposto entender quanto lido. Mas assim não é.  Mesmo tendo a capacidade de descodificar as letras, falta a habilidade de interpreta-las ou de fazer operações matemáticas.

Sim, será esquisito: mas é um problema grave e muito difundido.
Um conhecido linguista italiano, o professor Tullio de Mauro, afirma:
Apenas 20 por cento da população adulta italiana tem o mínimo de ferramentas necessárias para a leitura, a escrita e a matemática, necessárias para orientar-se na sociedade contemporânea.
Uma taxa de alfabetização de 98.9% e uma de alfabetização funcional de 33% segundo os últimos dados. Significa que mais de 3 pessoas em cada dez observam um gráfico, o aviso duma instituição, um comunicado e não conseguem interpreta-lo.

No Brasil, segundo dados de 2005 do IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), o analfabetismo funcional atinge cerca de 68% da população. Somados esses 68% de analfabetos funcionais com os 7% da população que é totalmente analfabeta, resulta que 75% da população não possui o domínio pleno da leitura, da escrita e das operações matemáticas. Dito de outra forma, apenas 1 em cada 4 brasileiros (25% da população) é plenamente alfabetizado.

Pior: esta taxa encontra-se em aumento em todos os Países "desenvolvidos", pois o fenómeno é subtil: um analfabeta funcional não sabe de ser tal, pode ler e escrever, portanto acha-se "instruído".

As idades? O analfabetismo funcional atinge com mais frequência as pessoas entre os 26 e 35 anos, mas o fenómeno afecta um pouco todas as faixas etárias. Acaba-se a escola, as competências tendem a diminuir, especialmente quando não começam novos processos de aprendizagem relacionados com o trabalho. O analfabetismo funcional instala-se e é mantido ao longo do tempo: aliás. reforça-se com o passar dos anos.

Culpados? Um recente estudo do OCSE parece individuar na tecnologia a grande responsável: não somos capazes de ler um mapa rodoviário ou de fazer um cálculo? Simplesmente não temos paciência para isso? O navegador e a calculadora estão aqui para ajudar, e estes são exemplos simples.

Mas com certeza há mais do que isso. Sentar-se na frente duma televisão e deixar que os nossos neurónios sejam massacrados também não ajuda: após horas passadas a absorver infantilidades ou autêntico lixo, o cérebro levanta bandeira branca e retira-se para tentar recuperar, deixando o espectador sozinho e mais vulnerável perante a última novela, o novo Big Brother ou o subtil noticiário.

Há 60 anos atrás, os que não sabiam ler e escrever não podiam votar e não eram considerados indivíduos verdadeiramente "livres". Hoje, os analfabetos funcionais ainda podem votar ou participar em concursos públicos mas é lícito duvidar da liberdade deles, da capacidade de entender o que se passa.

Quais medidas serão adoptadas para travar o fenómeno?
Nenhuma. Porque uma pessoa que não percebe é uma pessoa que pode ser manipulada com facilidade. Seja ela analfabeto ou analfabeta.


Ipse dixit.

Sugestão: Idiocracy (filme completo dobrado em Português do Brasil, do ano 2006)

Fontes: Wikipédia - Lista de países por índice de alfabetização

5 comentários:

  1. Anónimo28.5.13

    Não esquecer a diferença que vai entre o analfabetismo e a iliteracia.

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  2. maria28.5.13

    Olá Max:observa que a medida que o tempo de escolarização aumenta, compulsória ou voluntariamente, a instrumentalização para a escrita, cálculo e conhecimentos gerais diminui em qualquer rincãozinho do planeta. É porque nas sociedades contemporâneas a escola tem como primordial objetivo enclausurar crianças e adolescentes, e a universidade manter o sujeito ocupado com frivolidades.Não reconhecer isto e tentar compensar o tempo perdido, auto instruindo-se, é entupir-se até o pescoço do esquema mental planejado para as grandes e estúpidas hordas humanas de hoje, escolarizadas ou não.Abraços

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  3. Anónimo28.5.13

    Este conceito de analfabetismo funcional é muito interessante.
    Além dos factos apontados no texto, penso que a escola tem muitas responsabilidades na existencia de um numero maior de analfabetos funcionais.
    Hoje os professores na sua grande maioria, são repetidores em vez de professores. Muitos, limitam-se a repetir a materia do programa ano após ano, sem que confiram aos alunos a capacidade de raciocinar e compreender. Basta memorizar a matéria e reproduzir depois.
    O sistema de ensino está construído nesta base. Preparar Soldados Produtores (Agostinho da Silva), para mais tarde serem integrados na economia.

    A escola devia ser muito mais que isso, mas não o é.
    Os programas escolares actuais têm coisas como : Os OGM's são bons e a agricultura tradicional não serve. A terra está a aquecer. Os ricos vivem nos centros das cidades e os pobres na periferia, etc. etc.

    abraço
    Krowler

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  4. "Sentar-se na frente duma televisão e deixar que os nossos neurónios sejam massacrados também não ajuda: após horas passadas a absorver infantilidades ou autêntico lixo, o cérebro levanta bandeira branca e retira-se para tentar recuperar, deixando o espectador sozinho " :D
    Diz a filosofia "Deus não criou o homem para que trabalhasse, mas para que vivesse em um eterno Sabá"

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  5. Anónimo29.5.13

    Olá Max. O filme já o ví umas 3 vezes, simples e ao mesmo tempo brilhante. O que estou em desacordo, pessoalmente sempre odiei matemática e no 10º fui para letras,...mas depois nos anos 90 consegui por mim próprio a utilizar algorritmos em informática, foi aí que percebi a utilidade da mesma. A seguir trigonometria e gostei. Conclusão falo várias línguas tenho conhecimentos provavelmente muito acima da média por pura auto-aprendizagem porque infelizmente a própria secundaria é limitativa. Na minha modesta opinião debitam o programa os professores (não por culpa deles, é o programa ou o sistema desses anos) os alunos têm que se limitar a mediania. Pena na faculdade fui para a área errada má escolha...Agora ganho o salário minimo. O que se passa ou passou comigo é algo de vulgar. Com esta conversa só quero apontar os defeitos deste sistema tal como é. Agora culpar as TI como culpadas!? Nunca a culpa é de quem usa não sabe usar, hoje em dia qualquer idiota posta a sua informação, opinião(includo-me) e pura e simplesmente não acrescenta nada. Ou aquilo que vê aqueles eruditos "manipuldores de televisão" comentadores que sabem tanto de certos assuntos como o resto, mas têm direito de antena, o que pela lógica formata o pensamento individual. E nós temos que seguira caravana, não é! Abraço-Nuno Oliveira, Fundão - interior profundo, mas não obtuso. :-)

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