20 maio 2013

Os elefantes cor de rosa de Jørgen Randers

Jørgen Randers não é uma pessoa qualquer: académico, professor de estratégia climatérica, estudioso de cenários futuros, ex membro da direcção do World Wildlife Fund International (WWF), actual membro da comissão governativa da Noruega para a redução das emissões poluentes.

Faz também parte do conselho de administração da British Telecom e da The Dow Chemical Company, uma das principais multinacionais do planeta.

Randers é um dos pais do debate acerca da sustentabilidade, portanto é interessante ler uma entrevista concedida em ocasião do lançamento do novo livro dele, 2052: A Global Forecast for the Next Forty Years ("2052: Cenários globais para os próximos quarenta anos"), livro que conta com a colaboração de 30 entre cientistas, economistas e especialistas internacionais sobre previsões sistémicas.

E o que conta o simpático Randers?
Os seres humanos são "de curto prazo" por óbvias razões genéticas, o que significa que estamos mais interessados nas consequências imediatas das nossas acções do que não nos efeitos de longo prazo. Tal atitude reflecte-se inevitavelmente no processo decisional dos governos democráticos: é impossível que um politico sugira um sacrifício hoje em prol de benefícios para os próximos 60 anos ou que os eleitores aceitem uma subida dos impostos e um forte governo central.
Perfeito, já aprendemos algo: os governos democráticos não prestam quando o assunto for o futuro de longo prazo. Então qual pode ser a solução? Antes de mostra-la, o simpático Randers explica: os governos democráticos tenderão a escolher sempre as soluções fáceis para sair da crise e o resultado será que o mundo da crise acabará num enorme drama climatérico. 

Ah, pois, o clima. Não podemos brincar com o clima.
Mas o Leitor pode ficar descansado: Randers individuou uma possível solução:
Talvez o melhor exemplo que conheço é a Comissão da União Europeia, uma elitocracía formada por pessoas muito competentes, e não controlada pelo Parlamento Europeu, que conseguiu aprovar resoluções que provavelmente nunca teriam sido aprovadas pelos parlamentos nacionais, eleitos democraticamente. Tem sido uma força de liderança nas negociações sobre as alterações climáticas.
Há alturas em que a ironia pára, em que encontrar palavras é difícil, provavelmente impossível.

Quando uma pessoa apontar a Comissão Europeia qual modelo universal, sinto que um limite foi alcançado e estremeço porque sei que depois disso tudo será possível. Sair à rua, olhar para o céu e ver elefantes cor de rosa esvoaçarem, isto será normal pois já não há barreiras.

Leio que a Comissão é formada "por pessoas muito competentes" e sinto que as forças estão prestes a abandonar-me: talvez seja chegada a altura de eu encontrar o meu Criador.
Hoje as decisões devem ser tomadas rapidamente, mesmo que com fortes custos imediatos. Acontece hoje na Itália governada pelo moderno tecnocrata Monti como na Roma de dois mil anos atrás governada, em situações de emergência, por ditaduras temporárias.
Pois, até que uma daquelas ditaduras "temporárias" decidiu tornar-se "permanente". Mas este é um pormenor.
Eu amo o esqui e a natureza virgem que existia na Escandinávia quando eu era um garoto 50 anos atrás. Hoje sou um homem deprimido porque existem muito poucos lugares na superfície da Terra onde ainda é possível encontrar uma floresta virgem, semelhante aquelas em que eu cresci. Então está certo que eu leve a minha filha em todo o mundo à procura daqueles lugares, já em perigo de extinção? É justo ensinar-lhe a amar a natureza, condenando-a a ser infeliz no futuro tal como estou eu hoje? Não é melhor acostuma-la a assistir na televisão ao National Geographic, onde pode ver a mesma natureza de uma forma virtual, a partir do seu apartamento?
Sem comentário.
Continua Randers:
Passei a vida inteira tentando organizar movimentos políticos para um futuro sustentável, e não foram bem sucedidos. Eu era vice-diretor da WWF Internacional na década de Noventa, quando tínhamos 5 milhões de membros, 1% da população dos países ricos. Pensei que teria sido fácil aumentar esta percentagem. Vinte anos depois, subiu apenas 1,5%. A verdade é que a maioria da população não está interessada. É difícil de admitir, mas aos 67 anos tenho a obrigação de fazer as contas finais.
O discurso não é tão simples e Randers bem sabe disso. Com certeza que há muitas pessoas insensíveis
perante os temas ambientalistas, mas descarregar toda a responsabilidade nas costas da "população não interessada" é apenas uma maneira de interpretar o problema à luz das conclusões que desejamos alcançar e nada mais.

A seguir, Randers apresenta uma série de dados:
  • os pobres serão 3 biliões em 2052, com uma população mundial que atingirá o pico em 2042 com 8,1 biliões de indivíduos.
  • a concentração de dióxido de carbono na atmosfera irá continuar a aumentar determinando em 2080 um aumento da temperatura de 2,8 graus (diz ele, e não seria mal apresentar alguns dados que possam confirmar estas afirmações).
  • o PIB mundial vai crescer mais lentamente do que o esperado (em 2050 será 2,2 vezes os níveis actuais) devido ao menor crescimento da população e ao declínio da produtividade, causado pelo aumento dos conflitos sociais e pelas condições climáticas extremas.
  • o processo de urbanização já em andamento vai acelerar.
Todos dados interessantes, sobretudo tendo em conta que são apresentados por uma pessoa que faz parte do concelho de administração duma das maiores multinacionais do planeta. Mas não é o caso de fazer auto-crítica, pois já aprendemos que a culpa é toda da "população não interessada" e dos governos democráticos dela.

Então, querido Leitor: preocupado?
Não, não é o caso. Existe uma solução e Randers é orgulhoso de apresenta-la:
Os jovens devem antes entender quais são os mecanismos que governam o mundo, então deveriam declarar-se prontos para fazer a parte deles, também têm que pagar mais impostos e apoiar um forte governo tecnocrático que possa actuar com uma visão de longo prazo. Finalmente, devem ter menos filhos, especialmente nos países industrializados, onde um filho, em média, consome 40-60 vezes mais recursos e energia do que uma criança na Índia.
Resumindo: pagar mais taxas, fazer menos filhos, abandonar a democracia, aceitar uma elite tecnocrática, inscrever-se no WWF, ver a natureza na televisão. E, óbvio, comprar os produtos da Dow Chemical Company porque Randers tem uma filha que deve comer algo, não é?

Afinal não era tão difícil.


Ipse dixit.

Fonte: Il Corriere della Sera

6 comentários:

  1. Chaplin20.5.13

    Conclusão: Não há qualquer possibilidade de reverter o quadro mundial. A única alteração será o acelerar das mazelas advindas dos interesses econômicos impostos pela super elite financeira. Mas num aspecto o homem tem razão. É fundamental que as sociedades entendessem os mecanismos que definem o seu próprio funcionamento para termos chance e consciência suficientes para combater justamente as fontes de desequílibrio, servidão e contradições que permeia nossas vidas.

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  2. maria20.5.13

    Olá max: só me resta subscrever o que o Chaplin acabou de dizer, e desejar que esse senhor pudesse sofrer as consequências do mundo que almeja...com certeza para os outros, porque ele e a filhinha devem viver muito bem, e duvido que queira que a menina veja o mundo pela tela de um computador.abraços

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  3. Olá Max, Maria, não se preocumpem, a crise virá, mas a solução será dada e já está a ser buscada pelos "governantes superiores" os paladinos de Jesus.
    Estão a preparar-se para colonizar Marte, afinal o sistema criado sempre foi baseado em crscimento, expansão, desde a escola de Sagres é assim, salvo as guerras mas para essas não ha mais espaço, já não ha condições para uma boa guerra de grandes proporções. Então vamos lá, preparem-se para uma nova corrida imbiliária.

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  4. Anónimo20.5.13

    A tese deste Randers não acrescenta muito a outras muito semelhantes e que têm surgido. É mais uma voz a caucionar um modelo que eles chamam de sustentável e que está pensado há muito tempo.
    Quem está a mais na cena terá de sair de cena.
    É assim.

    abraço
    Krowler

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  5. Anónimo21.5.13


    Ótima matéria! E o 'resumo' está perfeito...são realmente estes os objetivos da tal 'nova ordem mundial'!

    Abraço

    Bob

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  6. Marcelo22.5.13

    A questão é que sempre enxergamos o futuro ou tentamos enxergar com os recursos e capacidades que temos hoje.

    É logico que até 2052 muita coisa vai mudar e acontecer. O que posso dizer é que hoje em dia já temos muitos recursos, que estão começando ou são mal utilizados, mas podem fazer uma grande diferença.

    A água vai acabar?
    não, hoje em dia já temos tecnologia para filtrar até a água salgada, é caro sim, mas até 2052?

    Não existe comida para todos?
    Existe, sempre existiu, a verdade é que o alimento é mal distribuído. E ainda tentam colocar a culpa em nós, que somos demais.

    Aquecimento Global?
    O planeta já foi muito mais quente e muito mais frio. Já existiam homens que viveram nestas épocas e alem disso, o sol é o principal regulador do nosso clima.

    Poluição, CO2?
    Tecnologicamente estamos superando isto, agora imagine até 2052. A tecnologia não pára nunca e sempre nos surpreende.


    O que se deve ter em mente e nunca esquecer quando aparecem assuntos desse tipo é que o controle populacional e domínio global sempre foram os sonhos daquelas antigas famílias dinásticas que estão acima do sistema, todas estas coisas entram no joguinho de controle deles ha anos, nada é por acaso na política. Se estes assuntos estão surgindo cada dia mais é porque já foram discutidos no meio acadêmico por uns 30 anos, financiados por filantropos que são subordinados ás famílias dinásticas aristocratas.

    O objetivo principal é reduzir a população e criar o governo global.
    Para isso, serão necessárias muitas intervenções políticas, intelectuais e culturais.

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